Pasárgada

…Cheguei no momento da criação do mundo e resolvi não existir. Cheguei ao zero-espaço, ao nada-tempo, ao eu coincidente com vós-tudo, e conclui: No meio do nevoeiro é preciso conduzir o barco devagar.


Serei o que fui, logo que deixe de ser o que sou; porque quando fui forçado a ser o que sou, foi porque era o que fui.

Pesquisar em

Páginas

sábado, 5 de janeiro de 2019

A VIDA RELIGIOSA EM COMUNIDADE FRATERNA



2 - A SEMENTE DA NOVA COMUNIDADE – Sentido de pertença

1. Situando – Jo 1,35-51

Os evangelhos de Marcos, Mateus e Lucas apresentam o chamado dos primeiros discípulos de maneira muito mais resumida: Jesus passa na praia, chama Pedro e André. Logo depois, chama Tiago e João (Marcos 1,16-20). O Evangelho de João tem outro jeito de descrever o início da primeira comunidade que se formou ao redor de Jesus. Ele traz histórias bem mais concretas. O que chama a atenção é a variedade dos chamados e dos encontros das pessoas entre si e com Jesus. Deste modo, João ensina como se deve fazer para iniciar uma comunidade. É através de contactos e convites pessoais, até hoje!
O Quarto Evangelho é uma catequese muito bem feita. Ele não só mostra como se formou a primeira comunidade, mas também, através dos vários títulos de Jesus, descreve a fé desta comunidade, que é modelo para todas as outras comunidades. Assim, ao longo dos seus 21 capítulos, ele vai revelando quem é Jesus. Os títulos, que vão aparecendo durante os encontros e as conversas das pessoas com Jesus, fazem parte desta catequese. Eles ajudam os leitores e as leitoras a descobrirem como e onde Jesus se revela nos encontros do dia-a-dia da vida.

2. Comentando

João 1,35-36 – O testemunho de João Batista a respeito de Jesus
João Batista tinha sido executado por Herodes em torno do ano de 30. Mas até o fim do século I, época em que foi escrito o Quarto Evangelho, a liderança dele continuava muito forte entre os judeus. Por isso, era importante o testemunho de João Batista chamando Jesus de “Cordeiro de Deus”. Este título evocava a memória do êxodo. Na noite da primeira Páscoa, o sangue do Cordeiro Pascal, passado nas portas das casas, tinha sido sinal de libertação para o povo (Êxodo 12,13-14). Para os primeiros, cristãos Jesus é o novo Cordeiro Pascal que liberta o seu povo (1 Coríntios 5,7; 1 Pedro 1,19; Apocalipse 5,6.9).
João 1,37-39 – Dois discípulos de João seguem Jesus
Dois discípulos de João Batista, animados pelo próprio João, foram em busca de Jesus. Jesus responde: “Venham e vejam!” É convivendo com Jesus que eles mesmos devem poder verificar e confirmar se era isto que estavam buscando. O encontro confirmou a busca: “Era isso mesmo!” Os dois nunca esqueceram a hora do encontro: eram 4 horas da tarde! Também hoje, as comunidades devem poder dizer: “Venham e vejam!” É ver e experimentar para poder testemunhar. O apóstolo João escreve na sua primeira carta: “A vida se manifestou. Nós a vimos e dela damos testemunho!” (1 João 1,2).
João 1,40-42 – André apresenta Pedro a Jesus
André descobriu que Jesus é o Messias. Ele gostou tanto do encontro, que partilhou sua experiência com o irmão e deu testemunho: “Encontramos o Messias!” Em seguida, conduziu o irmão até Jesus. Encontrar, experimentar, partilhar, testemunhar, conduzir até Jesus! É assim que a Boa Nova se espalha pelo mundo, até hoje! Connosco pode acontecer o que aconteceu com o irmão de André. No encontro com Jesus, ele teve seu nome mudado de Simão para Cefas (Pedra ou Pedro). Mudança de nome significa mudança de rumo. O encontro com Jesus pode produzir mudanças profundas na vida da gente. Deus queira!
João 1,43-44 – Jesus chama Filipe
No dia seguinte, Jesus voltou para a Galileia. Encontrou Filipe e o chamou: “Segue-me!” O importante do chamado é sempre o mesmo: “seguir Jesus”. Os primeiros cristãos fizeram questão de conservar os nomes dos primeiros discípulos. De alguns conservaram até os apelidos e o nome do lugar de origem. Filipe, André e Pedro eram de Betsaida (João 1,44). Natanael era de Caná (João 22,2). Jesus era de Nazaré (João 1,45). Eram todos lugares bem pequenos, lá na roça do interior da Galileia! Hoje, muitas vezes, esquecemos ou nem conhecemos os nomes das pessoas que estão na origem de nossa comunidade. Lembrar os nomes é uma forma de conservar a identidade.
João 1,45-46 – Filipe leva Natanael a Jesus
Filipe encontra Natanael e fala com ele sobre Jesus: “Encontramos aquele de quem escreveram Moisés, na Lei, e os profetas! É Jesus, o filho de José, de Nazaré!” Mais um título para Jesus! Jesus é aquele para o qual apontava toda a história do Antigo Testamento. Natanael pergunta: “De Nazaré pode vir coisa boa?” Natanael era de Cana, que fica perto de Nazaré. Possivelmente, na pergunta dele transparece a rivalidade que costuma existir entre as pequenas aldeias de uma mesma região. Além disso, conforme o ensinamento oficial dos escribas, o Messias viria de Belém da Judeia. Não podia vir de Nazaré da Galileia (João 7,41-42). Novamente, de André vem a mesma resposta intrigante: “Venha e veja você mesmo!” Não é impondo mas sim vendo que as pessoas se convencem. Novamente, o mesmo processo: encontrar, experimentar, partilhar, testemunhar, conduzir até Jesus!
João 1,47-51 – A conversa entre Jesus e Natanael
Jesus vê Natanael e diz: “Eis um israelita autêntico, sem falsidade!” E afirma que já o conhecia quando estava debaixo da figueira. Como é que Natanael podia ser um “israelita autêntico” se ele não aceitava Jesus como messias? É porque Natanael “estava debaixo da figueira”. A figueira era o símbolo de Israel (cf. Miqueias 4,4; Zacarias 3,10; 1 Reis 5,5). “Estar debaixo da figueira” era o mesmo que ser fiel ao projecto do Deus de Israel. Israelita autêntico é aquele que sabe desfazer-se das suas próprias ideias quando percebe que elas estão em desacordo com o projecto de Deus.
O israelita que não está disposto a fazer esta conversão não é autêntico nem honesto. Natanael é autêntico. Ele esperava o messias de acordo com os ensinamentos oficiais da época (João 7,41-42.52). Por isso, inicialmente, não aceitava um messias vindo de Nazaré. Mas o encontro com Jesus ajuda-o a perceber que o projecto de Deus nem sempre é do jeito que a gente o imagina ou deseja. Ele reconhece o seu engano, muda de ideia, aceita Jesus como messias e confessa: “Mestre, tu és o filho de Deus, tu és o rei de Israel!” A confissão de Natanael é apenas o começo. Quem for fiel, verá o céu aberto e os anjos subindo e descendo sobre o Filho do Homem. Experimentará que Jesus é a nova ligação entre Deus e nós, seres humanos. É a realização do sonho de Jacob (Génesis 28,10-22).

3. Alargando

A galeria dos encontros com Jesus no Evangelho de João
No Evangelho de João, são narrados com detalhes muitos encontros com Jesus que marcam para sempre a vida das pessoas. Os primeiros discípulos nunca mais puderam esquecer aquele momento. Um deles, provavelmente o “discípulo amado” ainda se lembrava da hora em que encontrou Jesus: “Eram 4 horas da tarde!”.
O outro, André, chamou o irmão dele, Pedro (João 1,35-51). Nicodemos foi encontrar Jesus de noite. Os dois tiveram uma conversa difícil (João 3,1-13), mas Nicodemos, apesar da crítica de Jesus, ficou amigo. Ele o defendeu numa discussão com os chefes (João 4,14; 7,50-52) e, depois da morte de Jesus, lá estava ele, novamente, com perfumes para a sepultura (João 19,39). João Batista alegrou-se ao ver o crescimento do movimento de Jesus (João 3,22-36). A samaritana encontrou Jesus junto do poço (João 4,1-42) e dentro dela passou a jorrar água viva (João 4,14; 7,37-38).
O encontro com o paralítico se deu junto às águas de um santuário popular (Jo 5,1-18). Foi na praça do templo que se deu o encontro com a mulher que ia ser apedrejada. Ela reencontrou a dignidade e a paz (João 8,1-11). O cego encontrou Jesus, que lhe abriu os olhos e se revelou a ele como o Filho do Homem (João 9,1-41). Marta e Maria foram ao encontro de Jesus no caminho e experimentaram a sua força revitalizadora (João 11,17-37).
Estes e outros encontros são como quadros colocados em uma galeria. Eles vão revelando aos olhos atentos de quem os aprecia algo que está por trás dos detalhes, a saber, a identidade de Jesus. Ao mesmo tempo, mostram as características das comunidades que acreditavam em Jesus e davam testemunho da sua presença. São também espelhos, que ajudam a descobrir o que se passa dentro de nós quando nos encontramos com Jesus.

Os títulos de Jesus

Logo neste primeiro capítulo, as pessoas que vão sendo chamadas professam a sua fé em Jesus através de títulos como: Cordeiro de Deus (João 1,36); Rabi (João 1,38); Messias ou Cristo (João 1,41); “aquele de quem escreveram Moisés, na Lei, e os profetas” (João 1,45); Jesus de Nazaré, o filho de José (João 1,45), Filho de Deus (João 1,49); Rei de Israel (João 1,49); Filho do Homem (João 1,51). São oito títulos em apenas 15 versos!
Quando uma pessoa é muito querida, ela recebe um grande número de apelidos. Assim também Jesus no Evangelho de João. Nestes e em tantos outros nomes ou títulos, as comunidades transmitiam o que Jesus significava para elas. Todos estes nomes traduzem o enorme esforço dos primeiros cristãos em querer conhecer Jesus para melhor amá-lo. Mostram ainda a diversidade da busca.
Eis uma lista incompleta de alguns títulos de Jesus que aparecem neste e nos outros capítulos do Evangelho de João. Eles revelam a fé das comunidades do Discípulo Amado. A grande variedade dos títulos revela a diversidade não só da busca, mas também da própria teologia.
Não havia uma doutrina única:

1,1 Palavra, Verbo
1,9 Luz
1,14 Filho Único
1,17 Messias ou Cristo
1,29 Cordeiro de Deus
1,34 Eleito de Deus
1,38 Rabi ou Mestre
1,49 Filho de Deus
1,51 Filho do Homem
2,21 Templo
3,2 Vem de Deus
3,29 Esposo
4,9 Judeu
4,26 Messias
4,42 Salvador do Mundo
5,18 Igual a Deus
6,34 Pão da vida
6,41 Pão descido do céu
6.42 Filho de José
6,69 Santo e Deus
7,52 Galileu
8,24 Eu sou (João 8,28.58)
8,48 Samaritano
9,2 Rabi
9,5 Luz do mundo
9,7 Enviado
9,11 Homem Jesus
9,17 Profeta
9,22 Cristo
9,38 Senhor
10,7 Porta das ovelhas
10,11 Bom pastor
10,30 Eu e o Pai somos um
11,25 Ressurreição
12,13 Bendito em nome do Senhor
12,13 Rei de Israel
13,13 Mestre e Senhor
14,6 Caminho, Verdade e Vida
15,1 Videira
18,5 Nazareno
19,5 Homem

Resumindo

Para o Evangelho de João, a fonte da vida consiste em acreditar que Jesus de Nazaré, o filho de José (João 1,45), é Messias (João 1,41) e Filho de Deus (João 1,49). Foi exactamente para isto que o evangelho foi escrito (João 20,31).

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.