Pasárgada

…Cheguei no momento da criação do mundo e resolvi não existir. Cheguei ao zero-espaço, ao nada-tempo, ao eu coincidente com vós-tudo, e conclui: No meio do nevoeiro é preciso conduzir o barco devagar.


Serei o que fui, logo que deixe de ser o que sou; porque quando fui forçado a ser o que sou, foi porque era o que fui.

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domingo, 17 de outubro de 2021

Missões

 

Mensagem do Papa Francisco para o dia mundial das Missões

 

Queridos irmãos e irmãs!

Quando experimentamos a força do amor de Deus, quando reconhecemos a sua presença de Pai na nossa vida pessoal e comunitária, não podemos deixar de anunciar e partilhar o que vimos e ouvimos. A relação de Jesus com os seus discípulos, a sua humanidade que se revela no mistério da Encarnação, no seu Evangelho e na sua Páscoa nos mostram até que ponto Deus ama a nossa humanidade e faz Suas as nossas alegrias e sofrimentos, nossos anseios e angústias (cf. Conc. Ecum. Vat II, Const. past. Gaudium et spes, 22). Tudo em Cristo lembra que Ele conhece bem o mundo em que vivemos e sua necessidade de redenção, e convida a sermos parte activa nesta missão: “Vá às estradas e caminhos e convide a todos que encontrar” (cf. Mt 22, 9). Ninguém é estranho, ninguém pode sentir-se estranho ou afastado do Seu amor compassivo.

A experiência dos Apóstolos

A história da Evangelização começa com uma busca apaixonada do Senhor que chama e quer estabelecer um diálogo de amizade com cada pessoa, onde quer que ela esteja (cf. Jo 15, 12-17). Os Apóstolos são os primeiros a relatar isso ao lembrar dia e hora que O encontraram: “Eram cerca de quatro horas da tarde” (Jo 1, 39). A experiência da amizade com o Senhor ao vê-lo curar os doentes, comer com os pecadores, alimentar os famintos, aproximar-se dos excluídos, tocar os impuros, identificar-se com os necessitados, propor as bem-aventuranças, ensinar de maneira nova e cheia de autoridade deixou neles uma marca indelével que suscitou admiração, espanto e alegria incontida. Como disse o profeta Jeremias, essa experiência é o fogo ardente da Sua presença activa no nosso coração que nos impele à missão, mesmo que às vezes impliquem sacrifícios e incompreensões (cf. 20, 7-9). O amor está sempre em movimento e nos põe em movimento para partilhar o anúncio mais belo e promissor: “Encontramos o Messias” (Jo 1, 41).

Com Jesus, vimos, ouvimos e sentimos que as coisas podem mudar. Ele inaugurou, já para hoje, os tempos que virão, recordando-nos de uma característica essencial de nossa humanidade, tantas vezes esquecida: “fomos feitos para a plenitude que só se alcança no amor” (Francisco, Carta enc. Fratelli tutti, 68). Tempos novos a despertar uma fé capaz de estimular iniciativas e moldar comunidades, com homens e mulheres que aprendem a aceitar a própria fragilidade e a dos outros (cf. ibid., 67), promovendo a fraternidade e a amizade social. A comunidade eclesial mostra sua beleza sempre que se lembra, com gratidão, de que o Senhor nos amou primeiro (cf. 1 Jo 4, 19). Essa “predilecção amorosa do Senhor nos surpreende, e o assombro – por sua própria natureza – não se possui nem se impõe (…) Só assim pode florescer o milagre da gratuidade, do dom gratuito de si mesmo. O próprio ardor missionário nunca pode ser obtido como resultado de um raciocínio ou cálculo. Colocarse “em estado de missão” é um reflexo de gratidão” (Francisco, Mensagem às Pontifícias Obras Missionárias, 21 de Maio de 2020). Todavia, os tempos não foram fáceis e os primeiros cristãos começaram suas vidas de fé num ambiente hostil e árduo. Histórias de marginalização e prisão, intercaladas a resistências internas e externas, pareciam contradizer e até negar o que tinham visto e ouvido. No entanto, longe de ser uma dificuldade ou obstáculo que poderia retraí-los ou fazê-los se fechar em si mesmos, levou-os a transformar cada incómodo, contrariedade e dificuldade em oportunidade para a missão. Os próprios limites e impedimentos vieram a ser lugar privilegiado para ungir, tudo e todos, com o Espírito do Senhor. Nada nem ninguém ficaria alheio ao anúncio libertador. Temos o testemunho vivo de tudo isso nos Actos dos Apóstolos, livro que os discípulos missionários têm sempre ao alcance. Nele, lemos como a fragrância do Evangelho se espalhou, suscitando aquela alegria que só o Espírito pode nos dar. O livro dos Actos dos Apóstolos nos ensina a viver as provações unidos a Cristo, a amadurecer nossa “convicção de que Deus pode actuar em qualquer circunstância, mesmo no meio de aparentes fracassos”, na certeza de que “a pessoa que se oferece e entrega a Deus por amor seguramente será fecunda (cf. Jo 15, 5)” (Francisco, Exort. ap. Evangelii Gaudium, 279). Isso também se aplica a nós: o actual momento de nossa história não tem sido fácil. A situação da pandemia evidenciou e ampliou o sofrimento, a solidão, a pobreza e as injustiças de que tantos já padeciam. Desmascarou nossa falsa sensação de segurança e revelou fragmentações e polarizações que nos dilaceram silenciosamente. Os mais frágeis e vulneráveis sentiram ainda mais a própria vulnerabilidade e fragilidade. Temos experimentado o desânimo, a decepção, o cansaço e, até mesmo a amargura conformista, que tira a esperança, tem se apoderado do nosso olhar. Nós, no entanto, “não anunciamos a nós mesmos, mas a Jesus como Cristo e Senhor: quanto a nós, somos seus servos por amor a Sua causa” (2 Cor 4, 5). Por essa razão ouvimos ressoar, em nossas comunidades e famílias, a Palavra de vida que ecoa em nossos corações e diz: “Não está aqui, ressuscitou” (Lc 24, 6). Essa mensagem de esperança rompe com todo o determinismo e, para quem se deixa tocar por ela, propicia a liberdade e a audácia necessárias para se levantar e procurar, criativamente, todas as formas possíveis de viver a compaixão, “sacramento” da proximidade de Deus connosco que não abandona ninguém à beira do caminho. Neste tempo de pandemia, perante a tentação de mascarar e justificar a indiferença e a apatia em nome de um distanciamento social saudável, a missão de compaixão é urgentemente necessária por sua capacidade de fazer desse distanciamento recomendável uma oportunidade de encontro, cuidado e promoção. “O que vimos e ouvimos” (Act 4, 20), a misericórdia que experimentamos, pode se tornar um ponto de referência e fonte de credibilidade, permitindo recuperar a paixão partilhada e criar “uma comunidade de pertença e solidariedade, à qual possamos dedicar nosso tempo, esforço e bens” (Francisco, Carta enc. Fratelli tutti, 36). A Palavra de Deus nos redime diariamente e salva das desculpas que nos levam ao mais vil dos cepticismos: “É tudo igual, nada vai mudar”. E diante da pergunta: “Que adianta me privar das minhas garantias, comodidades e prazeres se não vejo nenhum resultado importante?” A resposta sempre é esta: “Jesus Cristo triunfou sobre o pecado e a morte e possui todo o poder. Jesus Cristo está verdadeiramente vivo” (Francisco, Exort. ap. Evangelii Gaudium, 275) e quer que estejamos vivos, fraternos e capazes de acolher e compartilhar essa esperança. No contexto actual, há urgente necessidade de missionários de esperança que, ungidos pelo Senhor, sejam capazes de lembrar profeticamente que ninguém é salvo por si mesmo. Como os apóstolos e os primeiros cristãos, nós também exclamamos com todas as forças: “Não podemos deixar de falar sobre o que temos visto e ouvido” (Act 4, 20). Tudo o que recebemos, tudo o que o Senhor nos deu, é dado para compartilhar livremente com os outros. Assim como os apóstolos viram, ouviram e tocaram o poder salvífico de Jesus (cf. 1 Jo 1, 1-4), também nós podemos tocar a carne sofredora e gloriosa de Cristo na história de cada dia e encontrar coragem de compartilhar, com todos, um destino de esperança, lembrança assegurada por sabermos que o Senhor sempre nos acompanha. Nós cristãos não podemos guardar o Senhor para nós mesmos: a missão evangelizadora da Igreja encontra realização na transformação do mundo e no cuidado da criação.

Um convite a cada um de nós

O tema do Dia Mundial das Missões deste ano: “Não podemos deixar de falar sobre o que vimos e ouvimos” (Act 4, 20) – é um convite a cada um de nós para “assumir o controle” e tornar conhecido o que temos em nosso coração. Essa missão é e sempre foi a identidade da Igreja: “Ela existe para evangelizar” (São Paulo VI, Exort. ap. Evangelii nuntiandi, 14). Nossa vida de fé enfraquece, perde a profecia, o encantamento e a gratidão caso fi quemos isolados em nós mesmos, fechados em si e em pequenos grupos. Por sua própria natureza, a vida de fé exige crescente abertura, capaz de alcançar e abraçar a todos. Os primeiros cristãos, longe de ceder à tentação de se fecharem a um grupo de elite, sentiram-se inspirados pelo Senhor e Sua oferta de vida nova e saíram, no meio ao povo, para dar testemunho sobre o que tinham visto e ouvido: O Reino de Deus está próximo. Agiram com generosidade, gratidão e nobreza próprias daqueles que semeiam e sabem que outros comerão o fruto de sua dedicação e sacrifício. Por isso, gosto de pensar que “mesmo os mais frágeis, limitados e feridos podem ser missionários à sua maneira, porque sempre devemos permitir que o bem seja comunicado, embora coexista com muitas fragilidades” (Francisco, Exort. ap. pós-sinodal Christus vivit, 239). No Dia Mundial das Missões, celebrado anualmente no penúltimo domingo de Outubro, recordamos com gratidão todas as pessoas que, com o seu testemunho de vida, ajudam-nos a renovar o nosso compromisso baptismal de sermos apóstolos generosos e jubilosos do Evangelho. Lembramos especialmente aqueles que foram capazes de partir, deixar terra e família para que o Evangelho alcance, sem demora e sem medo, lugares e povos onde tantas vidas estejam carentes de bênçãos.

Contemplar o seu testemunho missionário nos anima a ser corajosos e persistentes e a orar insistentemente “ao senhor da messe que mande operários para a sua messe” (Lc 10, 2), porque somos cientes que a vocação para a missão não é algo do passado nem uma recordação romântica de outrora. Hoje, Jesus precisa de corações capazes de viver a vocação como uma verdadeira história de amor, impulsionados a sair para as periferias do mundo como mensageiros e instrumentos de compaixão. E essa chamada é feita para todos nós, de diferentes formas. Lembremos que existem periferias muito próximas a nós, seja no meio da cidade ou entre nossa própria família. Há também o aspecto à abertura universal do amor que não é somente geográfico, mas existencial. Especialmente nestes tempos de pandemia, é importante aumentar a capacidade diária de alargar os nossos círculos, chegar àqueles que, espontaneamente, não se sentiriam parte do “meu mundo de interesses”, embora perto de nós (cf. Francisco, Carta enc. Fratelli tutti, 97). Viver a missão é aventurar-se no cultivo dos mesmos sentimentos de Cristo Jesus e, com Ele, acreditar que a pessoa ao meu lado é também meu irmão, minha irmã. Que o Seu amor compassivo desperte os nossos corações e torne, a todos nós, discípulos missionários.

Maria, a primeira discípula missionária, faça crescer em todos os baptizados o desejo de ser sal e luz na nossa terra (cf. Mt 5, 13-14).

 

Roma, em São João de Latrão,

na Solenidade da Epifania do Senhor, 6 de Janeiro de 2021.

 

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