Pasárgada

…Cheguei no momento da criação do mundo e resolvi não existir. Cheguei ao zero-espaço, ao nada-tempo, ao eu coincidente com vós-tudo, e conclui: No meio do nevoeiro é preciso conduzir o barco devagar.


Serei o que fui, logo que deixe de ser o que sou; porque quando fui forçado a ser o que sou, foi porque era o que fui.

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domingo, 5 de dezembro de 2021

Vivência do Advento

 

PROPOSTA DE RETIRO PARA O ADVENTO 2021

Vivência do Advento – rumo ao encontro com Cristo

Na sua riqueza teológica, o Advento considera todo o mistério da vinda do Senhor na história até o seu desfecho total. Esses eventos estão interligados mutuamente por diversos mistérios.

O Advento faz memória da dimensão histórica da salvação: celebra o Deus que age na história, Deus da aliança que age nos acontecimentos para salvar. O Advento é o tempo, torna-se sacramento do agir de Deus. Advento é o tempo litúrgico que recorda a história como lugar de actuação de salvação de Deus.

Nele também se evidencia a dimensão escatológica do mistério cristão no qual Deus está sempre presente para salvar. Ele ultrapassa a visão individualista e estática dos novíssimos para uma visão escatológica dinâmica na qual a história é o lugar do agir de Deus, lugar das promessas, direccionando para o “dia do Senhor”. Fomos reservados para a salvação, mas esta herança se revelará somente nos fins dos tempos.

Este tempo também recorda uma verdade essencial: a conotação missionária. A Igreja actualiza a missão de Cristo ajudando os homens a perceber o Reino e a interiorizá-lo no seu coração. De modo que nele [Advento] se aprofunda o significado autêntico da missão.

Por fim, o Advento apresenta o Deus da libertação que entra nos corações dos homens, o protector da causa dos pobres e oprimidos. A missão, à luz do advento, suscita esperança dos fracos e humildes e não apoia os poderosos deste mundo. Ele nos faz compreender o mistério salvífico e ajuda-nos a empenhar-nos no anúncio e testemunho do Reino de Deus. Na sua dimensão espiritual, a liturgia do Advento é um convite ao cristão a viver a expectativa vigilante e alegre do Senhor que vem, a esperança, a conversão e a pobreza. Portanto, é uma espiritualidade que remete para aquilo que é essencial na vivência cristã.

O olhar dos cristãos, no tempo do Advento, se fixa na esperança segura do cumprimento final, a vinda gloriosa do Senhor: “Maranatha: vem, Senhor Jesus”. Toda a Igreja anseia por isso e todo o nosso peregrinar nesta terra visa este encontro glorioso com o Senhor. É um a expectativa vigilante acompanhada do convite à alegria, porque aquilo que esperamos certamente acontecerá. Deus é fiel!

No Advento, a Igreja reconhece que o Deus de Jesus Cristo é o Deus da esperança. Este tempo nos educa para a esperança, libertando-nos das impaciências e do frenesi do futuro programado pelo homem. A Igreja vive na esperança a sua existência como graça de Cristo e por isso torna-se sinal concreto de libertação integral do homem, que é ao mesmo tempo, dom e tarefa.

O tempo do Advento suscita a luta contra o torpor e a negligência, requer prontidão, por isso conversão. O comportamento vigilante do Senhor que vem, suscita mudança de vida frente aos prazeres e bens terrenos, exige sobriedade e renúncia aos excessos e a tudo aquilo que desvia o cristão da vinda do Senhor.

Por fim, a espiritualidade do Advento se caracteriza pela espiritualidade do pobre que confia em Deus e se apoia n’Ele. Espiritualidade daqueles que vivem a pobreza do coração, exigindo uma pobreza efectiva e a renúncia em colocar a confiança nos bens terrenos.

Espiritualidade do advento

Toda a liturgia do Advento, como dissemos atrás, é apelo para se viver alguns comportamentos essenciais do cristão: a expectativa vigilante e alegre, a esperança, a conversão, a pobreza. Somente na vivência profunda destes elementos, o nascimento de Cristo terá um sentido profundo em nossa vida e não uma simples lembrança histórica.

1) A expectativa vigilante e alegre caracteriza sempre o cristão e a Igreja, porque o Deus da revelação e o Deus da promessa, que manifestou em Cristo toda sua fidelidade ao homem. Em toda a liturgia do Advento ressoam as promessas de Deus, principalmente pela voz de Isaías, que reaviva a esperança de Israel.

A esperança da Igreja, portanto a nossa esperança, é a mesma de Israel, mas já realizada em Cristo. O olhar da comunidade, fixa-se com esperança mais segura no comprimento final, a vinda gloriosa do Senhor: “Maranatha: vem, Senhor Jesus”. É o grito e o suspiro de toda Igreja e de cada um de nós, em seu peregrinar terreno ao encontro definitivo do Senhor.

A expectativa vigilante é acompanhada sempre pelo convite à alegria. O Advento é tempo de expectativa alegre porque aquilo que se espera certamente acontecerá. Deus é fiel. A vinda do Salvador cria um clima de alegria que a liturgia não só relembra, mas quer que seja vivida por cada um de nós.

2) No Advento, toda a Igreja vive sua grande esperança. O Deus da revelação de Jesus tem um nome: “Deus da esperança” (Rm 15,13). Não é o único nome do Deus vivo, mas um nome que o identifica como “Deus para nós e connosco”. Este tempo deve ser para nós, e todos precisamos, um tempo de grande educação à esperança: uma esperança forte e paciente; uma esperança que aceita a hora da provação, da perseguição e da lentidão no desenvolvimento do reino; uma esperança que confia no Senhor e nos liberta das nossas muitas impaciências.

Esse empenho da Igreja torna-se mais forte e urgente diante das grandes áreas vazias de esperança, que se registam no mundo contemporâneo, inclusive em nossa Angola e, quiçá, no Amboim. A geografia do desespero é maior e mais terrível do que a geografia da fome e é expressão aterradora do avanço de anti-humanismos destruidores, como a droga e a violência.

3) Advento, tempo de conversão. Não existe possibilidade de esperança e de alegria sem retornar ao Senhor de todo o coração, na expectativa da sua volta. A vigilância requer luta contra o torpor e a negligência; requer prontidão, e portanto, desapego dos prazeres e bens terrenos, como dissemos (cf. Lc 21,34 ss).

Os comportamentos fundamentais do cristão, exigidos pelo espírito do Advento, estão intimamente unidos entre si, de modo que não é possível viver a expectativa, a esperança e a alegria pela vinda do Senhor, sem uma profunda conversão. Por outro lado, como as tentações da vida presente antecipam a tribulação escatológica, a vigilância cristã exige um treinamento diário na luta contra o maligno; exige sobriedade e oração contínua: “sejam sóbrios e fiquem de prontidão” (1 Pd 5,8-9).

4) Enfim, um comportamento que caracteriza a espiritualidade do Advento é o do pobre. Não tanto o pobre em sentido económico, mas o pobre entendido em sentido bíblico: aquele que confia em Deus e apoia-se totalmente nele. Estes ‘anawîm’, como os chama a bíblia, são os mansos e humildes, porque as suas disposições fundamentais são a humildade, o temor de Deus, a fé…

As Figuras do Advento:

Advento é o tempo litúrgico em que somos convidados a escutar as vozes dos protagonistas que nos acompanham no percurso de preparação ao Natal. Entre tais vozes, provindas dos relatos evangélicos da infância de Jesus, deparamos-nos com anjos e pastores, profetas e profetizas, soberanos e gente comum. Aqui centramos a atenção em quatro desses protagonistas: Isaías, João Batista, Maria e José.

Voz de Isaías. O grande profeta do Antigo Testamento. São dele muitos poemas sobre a vinda do Messias, quando todas as pessoas e todas as nações formarão um só povo. Em particular, os que percorreram os caminhos do êxodo e do deserto, do exílio e da diáspora, terão acesso ao pão, à paz e à pátria. Porque “o povo que andava nas trevas viu uma grande luz, e uma luz brilhou para os que habitavam um país tenebroso” (Is 9,1). Dele Jesus extrairá a expressão que representa o programa de sua actividade evangelizadora: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque Ele me ungiu. Enviou-me para dar a boa notícia aos pobres, para curar os corações feridos, para proclamar a libertação aos escravos e por em liberdade os prisioneiros; para proclamar o ano de graça do Senhor” (Is 61,1-2; citado em Lc 4,18-19). A Boa Nova do Reino de Deus haverá de ser central em toda a mensagem do profeta itinerante de Nazaré – uma viga mestre de todo o edifício.

Voz de João Baptista. O cavalo entre o Antigo e o Novo testamentos, simboliza a passagem da antiga para a nova aliança. Vem como precursor de Jesus. “Preparai os caminhos do Senhor”, diz sua voz rude, sisuda e solitária, que clama no deserto. O baptismo e a conversão, segundo ele, são a melhor forma de preparar-se para a novidade.

Preparar o Natal e preparar-se para o Natal!

Diferentemente do discurso das bem-aventuranças ou da linguagem do perdão e da misericórdia do Mestre, entretanto, João não hesita em esgrimir a palavra como uma verdadeira arma, para falar do julgamento que se avizinha: “o machado já está posto na raiz das árvores. E toda a árvore que não der bom fruto, será cortada e jogada ao fogo” (Lc 3,9). Mas reconhece que “no meio de vós existe alguém que vós não conheceis e que vem depois de mim. Eu não sou digno de desamarrar a correia de suas sandálias” (Jo 1,26-27). Ele mesmo apontará o Messias a seus próprios discípulos, alguns dos quais o deixarão para seguir Jesus.

Voz de Maria. Perturbada pela inesperada visita do anjo Gabriel e por suas palavras iniciais, igualmente inesperadas – “Alegra-te, cheia de graça, o Senhor está contigo” – Maria pede explicação sobre a notícia de que deverá ser mãe. Depois do diálogo entre ela e o visitante, sua resposta não deixa dúvidas: “Eis a escrava do Senhor: faça-se em mim segundo a tua palavra” (Lc 1,26-38). O Senhor Deus, aquele que havia libertado os escravos das garras do Faraó, no Egipto, irrompe novamente na história humana.

Dominada pelos tiranos e prepotentes, as relações socioeconómicas e político-culturais destilam opressão, miséria e sofrimento. O povo caminha com os olhos baixos e os ombros vergados sob o peso de um fardo maior que suas forças. Uma vez mais, Deus vem abrir os horizontes do percurso histórico. Vem apontar distintas veredas, outras possibilidades, alternativas inovadoras. A jovem de Nazaré, imediata e inteiramente, dispõe-se a contribuir com o projecto de Deus. “De agora em diante todas as gerações me chamarão bem-aventurada”, canta Maria, sem orgulho e sem falsa humildade (Lc 1,48b).

Voz de José. Nos relatos evangélicos, é uma das personagens que jamais faz ouvir sua voz. Como Maria, também ele aprendeu a silenciar e a prestar atenção à voz dos anjos, voz que sussurra no meio do mistério das coisas, das pessoas, da história, do universo e de Deus. Talvez, como diria Santo Agostinho, seja a voz que “dentro de mim sabe mais sobre mim que eu mesmo”. Por isso, José é chamado “homem justo, e não queria denunciar Maria” (Mt 1,19). Representa a voz de quem não fala, do silêncio pleno de sabedoria. Porém, será sempre o homem certo, no lugar certo e na hora certa. Voz de quem se dispõe a agir, voz de quem coloca em prática o projecto de Deus. Descoberto o segredo do mistério, põe-se logo em movimento e, qual guardião desse grande tesouro, passa a defender a família das adversidades. Verdadeira personificação do serviço ao próximo e a Deus.

Vivemos o primeiro advento da época de Sinodalidade na Igreja. Como afirma o Documento da Comissão Teológica Internacional sobre a “A Sinodalidade na Vida e na Missão da Igreja (n, 55) “A sinodalidade exprime o ser sujeito de toda a Igreja e de todos na Igreja. [...]  A vida sinodal testemunha uma Igreja constituída por sujeitos livres e diversos, unidos entre si em comunhão, que se manifesta de forma dinâmica como um só sujeito comunitário, o qual apoiando-se sobre a pedra angular que é Cristo e sobre as colunas que são os Apóstolos, é edificada como tantas pedras vivas numa uma "casa espiritual" (1 Pd 2,5). O caminho da sinodalidade é o caminho que Deus espera da Igreja do Terceiro Milénio” esse é o empenho programático proposto pelo Papa Francisco. Sínodo é dimensão constitutiva da Igreja, de modo que “aquilo que o Senhor nos pede, em certo sentido, já está tudo contido na palavra ‘sínodo”.

Rezemos pelo Sínodo para que o Espírito Santo dirija o nosso “caminhar juntos” e que acertemos com aquilo que Deus nos pede.

Gabela, 1 de Dezembro de 2021

KD

 

Retiro do Advento - Casa de formação (Gabela)

 

CONVIDADOS PARA A FESTA DO REINO (Mt 22,1-14)

A vivermos o Advento, prepararmos o Natal do Senhor e a prepararmo-nos para o Natal queremos pensar que o Natal é festa do Reino de Deus trazido por Jesus o Cristo ensinado por ele a fim de que todo aquele que n’Ele crer seja incluído na comunidade do Reino, por isso merece a devida preparação com o tempo do Advento.

Vamos fazer referência ao Reino de Deus que se dá com a incarnação do Verbo e sua pregação, Advento e Natal. O objectivo é sensibilizar-nos a acolher Jesus e seguir sua proposta de salvação.

Notemos, em primeiro lugar, que o Reino de Deus, o poder divino sobre todas as coisas, apresenta-se como uma festa: os trabalhos cessam, para se entregar à alegria.

Pensemos nas núpcias do Cordeiro, em Apocalipse 21. Núpcias de Deus com a humanidade, para, com Ele, tornar-nos uma só carne. Nesta parábola, somos apenas convidados, mas outros textos dirão que fazemos somente um com o Filho. Em todo caso, aqui somos convidados para um banquete.

Sabemos a importância do alimento na Bíblia. Este tema é abordado desde o primeiro capítulo de Gênesis, no versículo 29. E continua: em Génesis 2,16-17, lemos que quem come do fruto da árvore proibida, para fazer a experiência do mal, morrerá. No outro extremo da Bíblia, as coisas se invertem. Temos ali uma nova árvore, na qual se afixa o espectáculo do nosso mal, da nossa loucura homicida, e a revelação do bem absoluto, do amor que leva o Filho a dar a própria vida, para que dela vivamos.

Desta vez, ao contrário de Gênesis 2, quem come do fruto desta árvore viverá, e quem se recusa a comer dele, morrerá (cf. João 6). Não precisamos retomar todos os textos das Escrituras que colocam o tema do alimento e da refeição em primeiro plano, como o Maná, a mesa preparada no deserto de sede e de fome (Salmo 78,29). Concentremo-nos somente em que a cruz é o leito nupcial das bodas do Filho com a humanidade, e que o banquete de núpcias torna-se Eucaristia, ou seja, Ação de Graças.

Os convidados

Acabo de dizer que somos ao mesmo tempo os convidados e os esposados. Quando dizemos “esposados”, queremos insistir em que, no Filho, Deus vem fazer Sua a nossa carne. E quando dizemos “convidados”, queremos sublinhar que isto não se produz sem o assentimento da nossa liberdade. É preciso que, de nossa parte, haja um deslocamento em resposta ao “deslocamento” realizado por Deus, que veio juntar-se a nós. É indispensável o nosso “sim”, como eco do “sim” de Maria no “relato” da Anunciação.

Nesta parábola, nos é dito que os primeiros convidados, os que o Rei havia escolhido, recusaram o convite. Não vamos esquecer que, desde o princípio do capítulo 21, Jesus está se dirigindo aos sumos sacerdotes, aos anciãos do povo e aos fariseus. Temos aí os convidados que se esquivaram. No lugar deles, estarão presentes nas núpcias todos os desconhecidos, recrutados nas “encruzilhadas dos caminhos” das cidades e dos campos. “Todos os que encontrardes”, diz o texto, fazendo questão de precisar, “maus e bons”. O que pode surpreender! Mas, no fundo, a questão não está em ser bom ou ser mau: quem verdadeiramente pode pretender-se bom? De fato, a questão está em responder ou não responder ao convite: convite que é endereçado a todo o mundo. Recusar corresponde a desprezar o dom de Deus: dom de Si mesmo. Os primeiros convidados não se interessaram pelas núpcias propostas. Chegaram até mesmo a matar os que lhes transmitiram o convite. Prelúdio ao homicídio do Filho e de muitos que, mais tarde, irão anunciar o seu Evangelho.

O traje de festa

Surpreendente este Jesus. Poderíamos crer que a parábola terminaria com o convite aos que não têm nenhum título a fazer valer, para participarem do banquete de núpcias. E, no entanto, eis que se abre um novo capítulo; o da expulsão do homem que não se encontra vestido com o traje de festa! Alguns comentaristas falaram em “estado de graça”, em rectidão moral, etc.

Penso que, de novo, é preciso evocar o tema das vestes no conjunto da Bíblia, sem mais inconvenientes que os de omissão e de resumo. É um tema que começa logo no início: em Gênesis 3, fala-se da vergonha de Adão e de Eva quando descobrem estarem nus. Nudez simbólica, com certeza: haviam projectado fazerem-se “como Deus” (Gen. 3,5), e eis que se descobrem como a serpente (o “astuto”, do versículo 1, pode também ser traduzido por “nu”.) Despojados e sem defesa. É Deus quem finalmente os vestirá com “túnicas de pele” de animal: ei-los assim de volta à imagem desta animalidade que deveriam dominar. No outro extremo do relato bíblico, pregado na cruz, vamos encontrar o homem nu: seus algozes o haviam desnudado e repartiram entre si as suas vestes. A nudez, portanto, é o traje de festa que o Cristo usa em seu leito de núpcias com a humanidade.

Penso ser a partir daí que devemos interpretar a imagem do homem excluído do banquete, nesta parábola. Não podemos alcançar a unidade com Deus a não ser se desprovidos de tudo, despojados, sem nenhum título de fazer valer. O dom de Deus não pode ser senão totalmente gratuito.

Vozes do natal

“Dominada pelos tiranos e prepotentes, as relações socioeconómicas e político-culturais destilam opressão, miséria e sofrimento. O povo caminha com os olhos baixos e os ombros vergados sob o peso de um fardo maior que suas forças. Uma vez mais, Deus vem abrir os horizontes do percurso histórico. Vem apontar distintas veredas, outras possibilidades, alternativas inovadoras”.

Advento é o tempo litúrgico em que somos convidados a escutar as vozes dos protagonistas que nos acompanham no percurso de preparação para o Natal. Entre tais vozes, provindas dos relatos evangélicos da infância de Jesus, deparamos com anjos e pastores, profetas e profetizas, soberanos e gente comum. Aqui centramos a atenção em quatro desses protagonistas: Isaías, João Batista, Maria e José.

Voz de Isaías. O grande profeta do Antigo Testamento. São dele muitos poemas sobre a vinda do Messias, quando todas as pessoas e todas as nações formarão um só povo. Em particular, os que percorreram os caminhos do êxodo e do deserto, do exílio e da diáspora, terão acesso ao pão, à paz e à pátria. Porque “o povo que andava nas trevas viu uma grande luz, e uma luz brilhou para os que habitavam um país tenebroso” (Is 9,1). Dele Jesus extrairá a expressão que representa o programa de sua actividade evangelizadora: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque Ele me ungiu. Enviou-me para dar a boa notícia aos pobres, para curar os corações feridos, para proclamar a libertação aos escravos e por em liberdade os prisioneiros; para proclamar o ano de graça do Senhor (Is 61,1-2; citado em Lc 4,18-19). A Boa Nova do Reino de Deus haverá de ser central em toda a mensagem do profeta itinerante de Nazaré – uma viga mestre de todo o edifício.

Voz de João Baptista. O cavalo entre o Antigo e o Novo testamentos, simboliza a passagem da antiga para a nova aliança. Vem como precursor de Jesus. “Preparai os caminhos do Senhor”, diz sua voz rude, sisuda e solitária, que clama no deserto. O baptismo e a conversão, segundo ele, são a melhor forma de preparar-se para a novidade.

Preparar o Natal e preparar-se para o Natal!

Diferentemente do discurso das bem-aventuranças ou da linguagem do perdão e da misericórdia do Mestre, entretanto, João não hesita em esgrimir a palavra como uma verdadeira arma, para falar do julgamento que se avizinha: “o machado já está posto na raiz das árvores. E toda a árvore que não der bom fruto, será cortada e jogada ao fogo” (Lc 3,9). Mas reconhece que “no meio de vós existe alguém que vós não conheceis e que vem depois de mim. Eu não sou digno de desamarrar a correia de suas sandálias” (Jo 1,26-27). Ele mesmo apontará o Messias a seus próprios discípulos, alguns dos quais o deixarão para seguir Jesus.

Voz de Maria. Perturbada pela inesperada visita do anjo Gabriel e por suas palavras iniciais, igualmente inesperadas – “Alegra-te, cheia de graça, o Senhor está contigo” – Maria pede explicação sobre a notícia de que deverá ser mãe. Depois do diálogo entre ela e o visitante, sua resposta não deixa dúvidas: “Eis a escrava do Senhor: faça-se em mim segundo a tua palavra” (Lc 1,26-38). O Senhor Deus, aquele que havia libertado os escravos das garras do Faraó, no Egipto, irrompe novamente na história humana.

Dominada pelos tiranos e prepotentes, as relações socioeconómicas e político-culturais destilam opressão, miséria e sofrimento. O povo caminha com os olhos baixos e os ombros vergados sob o peso de um fardo maior que suas forças. Uma vez mais, Deus vem abrir os horizontes do percurso histórico. Vem apontar distintas veredas, outras possibilidades, alternativas inovadoras. A jovem de Nazaré, imediata e inteiramente, dispõe-se a contribuir com o projecto de Deus. “De agora em diante todas as gerações me chamarão bem-aventurada”, canta Maria, sem orgulho e sem falsa humildade (Lc 1,48b).

Voz de José. Nos relatos evangélicos, é uma das personagens que jamais faz ouvir sua voz. Como Maria, também ele aprendeu a silenciar e a prestar atenção à voz dos anjos, voz que sussurra no meio do mistério das coisas, das pessoas, da história, do universo e de Deus. Talvez, como diria Santo Agostinho, seja a voz que “dentro de mim sabe mais sobre mim que eu mesmo”. Por isso, José é chamado “homem justo, e não queria denunciar Maria” (Mt 1,19). Representa a voz de quem não fala, do silêncio pleno de sabedoria. Porém, será sempre o homem certo, no lugar certo e na hora certa. Voz de quem se dispõe a agir, voz de quem coloca em prática o projecto de Deus. Descoberto o segredo do mistério, põe-se logo em movimento e, qual guardião desse grande tesouro, passa a defender a família das adversidades. Verdadeira personificação do serviço ao próximo e a Deus.

Epifania de “viver em saída…”(Mt 2,1-13)

 “E a estrela, que tinham visto no Oriente, ia adiante deles, até parar sobre o lugar onde estava o menino” (Mateus 2,9).

A “travessia” vivida pelos Magos é a mesma que todos experimentamos. Somos seres “em saída”, em contínua busca.

Quem busca não permanece sentado olhando o tecto ou paralisado com o controle remoto da TV na mão ou em redes sociais. Hoje, somos milhões de pessoas buscando permanentemente no Google, no Facebook, no WhatsApp…, sentados, parados, anestesiados…

Quem “sai” está deixando sua acomodada segurança, expondo-se ao que não conhece ou que lhe dá medo conhecer. Há milhões de pessoas saindo sem pôr os pés na rua, de garagem em garagem, de centro comercial em centro comercial, viajando de metrô com os olhos fixos no celular, transitando por circuitos perfeitamente estabelecidos para não ver o que há mais além do “parque temático” que lhe é apresentado. Há muitos milhões que vivem com uma venda nos olhos, quer estejam em casa ou saiam para fazer exercícios. Que buscam? O que as anima a sair? O que encontram?

O relato dos Magos não faz referência a pessoas concretas, mas a personagens. Não eram reis, mas “magos”, ou seja, sábios que investigavam os céus para entender melhor o que se passava na terra. Porque estavam buscando, descobriram, encontraram. Notemos que são os que estavam longe que descobriram, enquanto que aqueles que estavam próximos do Menino não se inteiraram de nada.

Para descobrir a presença de Deus, o único definitivo é a atitude. Ao descobrir algo surpreendente, puseram-se a caminho. Não sabiam para onde iam, mas arriscaram.

No caminho que os Magos percorreram para aproximar-se de Jesus, estão as atitudes daqueles que buscavam a Jesus e se aproximavam das primeiras comunidades cristãs para conhecê-lo. Nele, está também representada nossa busca.

O importante, no texto de Mateus, não é deter-nos na veracidade histórica dos Magos, mas descobrir a “pérola preciosa” que o evangelista oferece, tanto para as primeiras comunidades cristãs como para os judeus que se aproximavam para conhecer Jesus através de seu testemunho.

Como eles poderiam situar-se diante do nascimento do menino em Belém? Segundo o Evangelista, diante de Jesus podem ser adoptadas atitudes muito diferentes.

O relato dos magos nos fala da reacção de três grupos de pessoas. Um grupo é formado pelas autoridades religiosas, que conheciam muito bem a lei judaica e sabiam o que significava Belém para a corrente profética. Eles, porém, não souberam ler os sinais dos tempos e não encontraram Jesus. A religião, quando se reduz a simples práticas rituais, atrofia a sensibilidade das pessoas, impedindo-as a abrirem-se às surpresas de Deus.

Outro grupo é representado pelo poderoso rei Herodes. Preocupado em preservar seu poder, ele só vê perigo diante de qualquer situação que o ameace.

Nenhum poder é mediação para deixar-se provocar pelo novo. (Mt 2,1-13)

O terceiro grupo é formado por alguns pagãos, guiados pela pequena luz de uma estrela. Buscaram, puseram-se em marcha e encontraram Jesus.

O relato é desconcertante. Deus, escondido na fragilidade humana, não é encontrado pelos que vivem instalados em seu poder ou fechados em sua segurança religiosa. Revela-se, porém, àqueles que, guiados por pequenas luzes, buscam incansavelmente uma esperança para o ser humano, na ternura e na pobreza da vida.

Os Magos não pertenciam ao povo eleito, não conheciam o Deus vivo de Israel. Nada sabemos de sua religião nem de seu povo de origem. Só sabemos que eles viviam atentos ao mistério que se encerra no cosmos. Seu coração buscava verdade.

Em algum momento acreditaram ver uma pequena luz que apontava para um Salvador. Precisavam saber quem era e onde estava.

Abriram-se à luz da estrela e, rapidamente, puseram-se a caminho. Seria uma perda de tempo? Valia a pena fazer a travessia?

Não conheciam o itinerário preciso que deveriam seguir. Não sabiam para onde a estrela os conduziria, e o caminho implicava riscos. Mas, em seu interior, ardia a esperança de encontrar uma Luz para o mundo.

No momento em que os Magos desviaram-se da rota de Belém e entraram em Jerusalém para perguntar onde é que estava o rei dos judeus recém-nascido, a estrela desapareceu de suas vistas, como que indicando que não é na riqueza e no luxo das cortes que a Luz de Deus brilha para os corações.

A estrela também moveu os magos a que deixassem de olhar para ela. Moveu-os a olharem antes para o lugar, na Terra, para onde ela apontava. Pois é na simplicidade e pobreza de uma criança que resplandece a luz de Deus.

Reflectindo o evangelho (Mt 2,1-13)

Os magos não caem de joelhos diante de Herodes. Não encontram nele nada digno de adoração. Nem entram no Templo grandioso de Jerusalém, pois o acesso lhes é proibido. A pequena luz da estrela os atrai para o pequeno povoado de Belém, longe do centro de poder.

Assim que chegam ao lugar indicado, vêem somente o “menino com Maria, sua mãe”. Nada mais. Um menino sem esplendor nem poder algum.

Uma vida frágil que necessita dos cuidados de uma mãe. É suficiente para despertar nos magos o assombro.

Eles prostram-se e adoram o Menino Jesus. Cena poética onde Mateus nos ajuda a romper nossos esquemas mentais. Aqueles que conheciam as escrituras de memória e sabiam interpretá-las não vão ao encontro de Jesus. Aqueles que sabem ler as estrelas são capazes de ver mais além das aparências. E o que vêem nesse Menino é tão profundo que caem prostrados, tiram seus tesouros, esvaziam-se e enchem-se da nova Luz descoberta.

Foi assim que a longa jornada dos Magos começou, seguindo o caminho que a luz da estrela indicava. E ao final de longa peregrinação, chegaram ao lugar procurado. Banhado pela suave luz da estrela, no meio das vacas, jumentos e palha, se encontrava um menino. Eles, então, foram iluminados. Não pela luz da estrela, mas pela luz de uma criança – a Luz das luzes.

Perceberam que sua busca havia chegado ao fim. Aquilo que os adultos esqueceram e que a sabedoria busca – as crianças sabem. Ser sábio é ser criança. O universo é um berço onde dorme uma criança. E, desde aquele dia, eles deixaram de olhar para as estrelas e passaram a olhar para as crianças.

Os sábios vêem o avesso. O avesso é esse: os adultos são os alunos, e as crianças são os mestres. Por isso, ao encontrarem um menino numa estrebaria, os magos, os sábios deram por encerrada a sua jornada…começa a jornada do Sábio dos sábios, o Mestre dos mestres.

Para meditar

Inspirados nos Magos, que descobriram sinais e começaram um caminho de busca (Mt 2,1-13), podemos perguntar:

·         Que sinais descobrimos durante este ano?

·         Para onde nos conduzem esses sinais, como se fossem estrelas a nos guiar?

·         Em que sentido nos fazem sair da “zona de conforto”, de nossas seguranças?

·         Eles nos ajudam a priorizar a viagem ao interior de nós mesmos?

·         A estrela que seguimos nos mobiliza a termos acesso à nossa “gruta” interna, onde nova vida pulsa por nascer?

·         Ou preferimos alimentar uma multidão de contactos superficiais através das redes sociais, afogando-nos nas experiências de solidão?

·         Nossas “viagens” despertam o espírito solidário e nos comprometem a responder às necessidades dos mais frágeis ou permanecemos confinados em nós mesmos, “adorando” nosso “ego”?

 

Gabela, 30 de Novembro, festa de Santo André de, 2021

KD

domingo, 17 de outubro de 2021

Missões

 

Mensagem do Papa Francisco para o dia mundial das Missões

 

Queridos irmãos e irmãs!

Quando experimentamos a força do amor de Deus, quando reconhecemos a sua presença de Pai na nossa vida pessoal e comunitária, não podemos deixar de anunciar e partilhar o que vimos e ouvimos. A relação de Jesus com os seus discípulos, a sua humanidade que se revela no mistério da Encarnação, no seu Evangelho e na sua Páscoa nos mostram até que ponto Deus ama a nossa humanidade e faz Suas as nossas alegrias e sofrimentos, nossos anseios e angústias (cf. Conc. Ecum. Vat II, Const. past. Gaudium et spes, 22). Tudo em Cristo lembra que Ele conhece bem o mundo em que vivemos e sua necessidade de redenção, e convida a sermos parte activa nesta missão: “Vá às estradas e caminhos e convide a todos que encontrar” (cf. Mt 22, 9). Ninguém é estranho, ninguém pode sentir-se estranho ou afastado do Seu amor compassivo.

A experiência dos Apóstolos

A história da Evangelização começa com uma busca apaixonada do Senhor que chama e quer estabelecer um diálogo de amizade com cada pessoa, onde quer que ela esteja (cf. Jo 15, 12-17). Os Apóstolos são os primeiros a relatar isso ao lembrar dia e hora que O encontraram: “Eram cerca de quatro horas da tarde” (Jo 1, 39). A experiência da amizade com o Senhor ao vê-lo curar os doentes, comer com os pecadores, alimentar os famintos, aproximar-se dos excluídos, tocar os impuros, identificar-se com os necessitados, propor as bem-aventuranças, ensinar de maneira nova e cheia de autoridade deixou neles uma marca indelével que suscitou admiração, espanto e alegria incontida. Como disse o profeta Jeremias, essa experiência é o fogo ardente da Sua presença activa no nosso coração que nos impele à missão, mesmo que às vezes impliquem sacrifícios e incompreensões (cf. 20, 7-9). O amor está sempre em movimento e nos põe em movimento para partilhar o anúncio mais belo e promissor: “Encontramos o Messias” (Jo 1, 41).

Com Jesus, vimos, ouvimos e sentimos que as coisas podem mudar. Ele inaugurou, já para hoje, os tempos que virão, recordando-nos de uma característica essencial de nossa humanidade, tantas vezes esquecida: “fomos feitos para a plenitude que só se alcança no amor” (Francisco, Carta enc. Fratelli tutti, 68). Tempos novos a despertar uma fé capaz de estimular iniciativas e moldar comunidades, com homens e mulheres que aprendem a aceitar a própria fragilidade e a dos outros (cf. ibid., 67), promovendo a fraternidade e a amizade social. A comunidade eclesial mostra sua beleza sempre que se lembra, com gratidão, de que o Senhor nos amou primeiro (cf. 1 Jo 4, 19). Essa “predilecção amorosa do Senhor nos surpreende, e o assombro – por sua própria natureza – não se possui nem se impõe (…) Só assim pode florescer o milagre da gratuidade, do dom gratuito de si mesmo. O próprio ardor missionário nunca pode ser obtido como resultado de um raciocínio ou cálculo. Colocarse “em estado de missão” é um reflexo de gratidão” (Francisco, Mensagem às Pontifícias Obras Missionárias, 21 de Maio de 2020). Todavia, os tempos não foram fáceis e os primeiros cristãos começaram suas vidas de fé num ambiente hostil e árduo. Histórias de marginalização e prisão, intercaladas a resistências internas e externas, pareciam contradizer e até negar o que tinham visto e ouvido. No entanto, longe de ser uma dificuldade ou obstáculo que poderia retraí-los ou fazê-los se fechar em si mesmos, levou-os a transformar cada incómodo, contrariedade e dificuldade em oportunidade para a missão. Os próprios limites e impedimentos vieram a ser lugar privilegiado para ungir, tudo e todos, com o Espírito do Senhor. Nada nem ninguém ficaria alheio ao anúncio libertador. Temos o testemunho vivo de tudo isso nos Actos dos Apóstolos, livro que os discípulos missionários têm sempre ao alcance. Nele, lemos como a fragrância do Evangelho se espalhou, suscitando aquela alegria que só o Espírito pode nos dar. O livro dos Actos dos Apóstolos nos ensina a viver as provações unidos a Cristo, a amadurecer nossa “convicção de que Deus pode actuar em qualquer circunstância, mesmo no meio de aparentes fracassos”, na certeza de que “a pessoa que se oferece e entrega a Deus por amor seguramente será fecunda (cf. Jo 15, 5)” (Francisco, Exort. ap. Evangelii Gaudium, 279). Isso também se aplica a nós: o actual momento de nossa história não tem sido fácil. A situação da pandemia evidenciou e ampliou o sofrimento, a solidão, a pobreza e as injustiças de que tantos já padeciam. Desmascarou nossa falsa sensação de segurança e revelou fragmentações e polarizações que nos dilaceram silenciosamente. Os mais frágeis e vulneráveis sentiram ainda mais a própria vulnerabilidade e fragilidade. Temos experimentado o desânimo, a decepção, o cansaço e, até mesmo a amargura conformista, que tira a esperança, tem se apoderado do nosso olhar. Nós, no entanto, “não anunciamos a nós mesmos, mas a Jesus como Cristo e Senhor: quanto a nós, somos seus servos por amor a Sua causa” (2 Cor 4, 5). Por essa razão ouvimos ressoar, em nossas comunidades e famílias, a Palavra de vida que ecoa em nossos corações e diz: “Não está aqui, ressuscitou” (Lc 24, 6). Essa mensagem de esperança rompe com todo o determinismo e, para quem se deixa tocar por ela, propicia a liberdade e a audácia necessárias para se levantar e procurar, criativamente, todas as formas possíveis de viver a compaixão, “sacramento” da proximidade de Deus connosco que não abandona ninguém à beira do caminho. Neste tempo de pandemia, perante a tentação de mascarar e justificar a indiferença e a apatia em nome de um distanciamento social saudável, a missão de compaixão é urgentemente necessária por sua capacidade de fazer desse distanciamento recomendável uma oportunidade de encontro, cuidado e promoção. “O que vimos e ouvimos” (Act 4, 20), a misericórdia que experimentamos, pode se tornar um ponto de referência e fonte de credibilidade, permitindo recuperar a paixão partilhada e criar “uma comunidade de pertença e solidariedade, à qual possamos dedicar nosso tempo, esforço e bens” (Francisco, Carta enc. Fratelli tutti, 36). A Palavra de Deus nos redime diariamente e salva das desculpas que nos levam ao mais vil dos cepticismos: “É tudo igual, nada vai mudar”. E diante da pergunta: “Que adianta me privar das minhas garantias, comodidades e prazeres se não vejo nenhum resultado importante?” A resposta sempre é esta: “Jesus Cristo triunfou sobre o pecado e a morte e possui todo o poder. Jesus Cristo está verdadeiramente vivo” (Francisco, Exort. ap. Evangelii Gaudium, 275) e quer que estejamos vivos, fraternos e capazes de acolher e compartilhar essa esperança. No contexto actual, há urgente necessidade de missionários de esperança que, ungidos pelo Senhor, sejam capazes de lembrar profeticamente que ninguém é salvo por si mesmo. Como os apóstolos e os primeiros cristãos, nós também exclamamos com todas as forças: “Não podemos deixar de falar sobre o que temos visto e ouvido” (Act 4, 20). Tudo o que recebemos, tudo o que o Senhor nos deu, é dado para compartilhar livremente com os outros. Assim como os apóstolos viram, ouviram e tocaram o poder salvífico de Jesus (cf. 1 Jo 1, 1-4), também nós podemos tocar a carne sofredora e gloriosa de Cristo na história de cada dia e encontrar coragem de compartilhar, com todos, um destino de esperança, lembrança assegurada por sabermos que o Senhor sempre nos acompanha. Nós cristãos não podemos guardar o Senhor para nós mesmos: a missão evangelizadora da Igreja encontra realização na transformação do mundo e no cuidado da criação.

Um convite a cada um de nós

O tema do Dia Mundial das Missões deste ano: “Não podemos deixar de falar sobre o que vimos e ouvimos” (Act 4, 20) – é um convite a cada um de nós para “assumir o controle” e tornar conhecido o que temos em nosso coração. Essa missão é e sempre foi a identidade da Igreja: “Ela existe para evangelizar” (São Paulo VI, Exort. ap. Evangelii nuntiandi, 14). Nossa vida de fé enfraquece, perde a profecia, o encantamento e a gratidão caso fi quemos isolados em nós mesmos, fechados em si e em pequenos grupos. Por sua própria natureza, a vida de fé exige crescente abertura, capaz de alcançar e abraçar a todos. Os primeiros cristãos, longe de ceder à tentação de se fecharem a um grupo de elite, sentiram-se inspirados pelo Senhor e Sua oferta de vida nova e saíram, no meio ao povo, para dar testemunho sobre o que tinham visto e ouvido: O Reino de Deus está próximo. Agiram com generosidade, gratidão e nobreza próprias daqueles que semeiam e sabem que outros comerão o fruto de sua dedicação e sacrifício. Por isso, gosto de pensar que “mesmo os mais frágeis, limitados e feridos podem ser missionários à sua maneira, porque sempre devemos permitir que o bem seja comunicado, embora coexista com muitas fragilidades” (Francisco, Exort. ap. pós-sinodal Christus vivit, 239). No Dia Mundial das Missões, celebrado anualmente no penúltimo domingo de Outubro, recordamos com gratidão todas as pessoas que, com o seu testemunho de vida, ajudam-nos a renovar o nosso compromisso baptismal de sermos apóstolos generosos e jubilosos do Evangelho. Lembramos especialmente aqueles que foram capazes de partir, deixar terra e família para que o Evangelho alcance, sem demora e sem medo, lugares e povos onde tantas vidas estejam carentes de bênçãos.

Contemplar o seu testemunho missionário nos anima a ser corajosos e persistentes e a orar insistentemente “ao senhor da messe que mande operários para a sua messe” (Lc 10, 2), porque somos cientes que a vocação para a missão não é algo do passado nem uma recordação romântica de outrora. Hoje, Jesus precisa de corações capazes de viver a vocação como uma verdadeira história de amor, impulsionados a sair para as periferias do mundo como mensageiros e instrumentos de compaixão. E essa chamada é feita para todos nós, de diferentes formas. Lembremos que existem periferias muito próximas a nós, seja no meio da cidade ou entre nossa própria família. Há também o aspecto à abertura universal do amor que não é somente geográfico, mas existencial. Especialmente nestes tempos de pandemia, é importante aumentar a capacidade diária de alargar os nossos círculos, chegar àqueles que, espontaneamente, não se sentiriam parte do “meu mundo de interesses”, embora perto de nós (cf. Francisco, Carta enc. Fratelli tutti, 97). Viver a missão é aventurar-se no cultivo dos mesmos sentimentos de Cristo Jesus e, com Ele, acreditar que a pessoa ao meu lado é também meu irmão, minha irmã. Que o Seu amor compassivo desperte os nossos corações e torne, a todos nós, discípulos missionários.

Maria, a primeira discípula missionária, faça crescer em todos os baptizados o desejo de ser sal e luz na nossa terra (cf. Mt 5, 13-14).

 

Roma, em São João de Latrão,

na Solenidade da Epifania do Senhor, 6 de Janeiro de 2021.