Pasárgada

…Cheguei no momento da criação do mundo e resolvi não existir. Cheguei ao zero-espaço, ao nada-tempo, ao eu coincidente com vós-tudo, e conclui: No meio do nevoeiro é preciso conduzir o barco devagar.


Serei o que fui, logo que deixe de ser o que sou; porque quando fui forçado a ser o que sou, foi porque era o que fui.

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domingo, 17 de outubro de 2021

O Amboim

 

 

Caixa de texto:   O AMBOIM

     BOLETIM PAROQUIAL DA GABELA

     Série IV – Ano I – N.º 3 – Outubro - Dezembro de 2021

 

 

Dia Mundial das Missões

O Dia Mundial das Missões comemora-se no penúltimo domingo de Outubro, no mês das missões.

Com este dia de oração e de evangelização dos povos deseja-se incentivar a cooperação missionária pelo mundo e agradecer o contributo dos missionários na construção de um mundo melhor.

O Dia Mundial das Missões, data criada em 1926 pelo Papa Pio XI, é celebrado anualmente em todos os países onde há católicos comprometidos com a construção de um mundo mais justo, digno e gratificante, onde todos têm aquilo que precisam para viver.

É o dia do ano em que se reflecte sobre a urgência e o dever de ajudar o próximo. A cooperação missionária pode ser realizada pela oração, sacrifício e testemunho de vida, por meio da ajuda material aos projectos missionários, ou colocando-se à disposição para servir em missões.

O tema - “O tema escolhido pelo Papa Francisco para este ano é extraído dos Actos dos Apóstolos: "Não podemos deixar de afirmar o que vimos e ouvimos" (Act 4,20). O Santo Padre escreve: "Como os Apóstolos e os primeiros cristãos, também nós exclamamos com todas as nossas forças: 'Não podemos deixar de afirmar o que vimos e ouvimos' (Actos 4, 20). Tudo o que recebemos, tudo aquilo que o Senhor nos tem concedido, ofereceu-nos para o pormos a render doando-o gratuitamente aos outros. Como os Apóstolos viram, ouviram e tocaram a salvação de Jesus (cf. 1 Jo 1,1-4), também nós, hoje, podemos tocar a carne sofredora e gloriosa de Cristo na história de cada dia e encontrar a coragem para partilhar com todos um destino de esperança, esse traço indubitável que provém de saber que estamos acompanhados pelo Senhor”.

Testemunho - Ainda, segundo o comunicado, “testemunho é a motivação da mensagem, cujo tema é retirado do que o Papa Francisco chama de "o livro que os discípulos missionários têm sempre à mão". "Celebrar o Mês da Missão e o Dia Mundial das Missões a cada ano significa lembrar que a nossa fé é sempre missionária". Não podemos ficar em silêncio sobre o que ouvimos, vimos e vivemos no nosso encontro com o Senhor, “o evangelizado, evangeliza” (lema da Diocese de Sumbe). O testemunho anda de mãos dadas com a memória porque no Dia Mundial das Missões, que é celebrado todos os anos no penúltimo domingo de Outubro, o Papa afirma: '”Recordamos com gratidão todas as pessoas, cujo testemunho de vida nos ajuda a renovar o nosso compromisso baptismal de ser apóstolos generosos e jubilosos do Evangelho. Lembramos especialmente aqueles que foram capazes de partir, deixar terra e família para que o Evangelho pudesse atingir sem demora e sem medo aqueles ângulos de aldeias e cidades onde tantas vidas estão sedentas de bênção'”.

Ninguém é excluído da misericórdia de Deus.

KD

 

TESTEMUNHO MISSIONÁRIO

50 ANOS EM MISSÃO

Há 50 anos fui ordenado sacedote. Os superiores da Sociedade Missionária indicaram-me Angola como o meu primeiro campo de Missão. Estava a começar a nossa presença neste país. Nada conhecia do povo, história e cultura local. Por isso, cheguei aqui sem projetos e esqemas de ação. Somente me movia a vontade de conhecer este povo e a sua cultura e de, em comunhão com a equipa que me acolheu, colaborar na elaboração dum plano pastoral que viesse a ser definido.

Tínhamos tomado conta da Missão do Dumbi a 25 de Março desse ano. Todos vínhamos de fora. Portanto, todos aprendizes da Missão em Angola.  P. Manuel Fernandes, o supeior local e também Regional de Angola, veterno das Missões em Moçambique, e com a experiência acumulada de Superior Geral da Sociedade Missionária, acolheu-me como um verdadeiro pai. P. Fernando Eiras tinha chegado em Janeiro desse ano, vindo da área da formação nos seminários em Portugal. Foi para mim um verdadeiro irmão. Esta foi para mim a equipa de referência para toda a minha vida missionária ao longo destes 50 anos. E a Missão do Dumbi a Missão do meu primeiro amor. Como éramos todos recém chegados, estávamos todos em atitude de escuta e aprendizagem.

Passados alguns meses os catequistas gerais da Missão do Dumbi, com quem nos reuníamos tdos os meses para estudo e programação pastoral, apercebeu-se do nosso desconhecimento, mas da vontade grande de aprender  e, por isso, ajudou-nos a dar os nossos primeiros passos em ordem a uma pastoral mais inculturada e próxima do povo.

Percebemos imediatamente que era necessário apostar na formação dos líderes das comunidades e a todos os níveis. A essa tarefa nos dedicámos de alma e coração. Foi talvez a melhor opção pastoral cujos frutos mais tarde se tornaram visíveis.

Ao fim de um ano no Dumbi, com o novo reforço chegado de Portugal, a quipa missionária foi refeita. Ficaram no Dumbi os Padres Manuel Fernandes, Augusto Farias e Aníbal Morgado, acabado de chegar. Foi assumida a Paróquia do Seles para onde foram enviados os Padres Fernando Eiras e Laurindo Neto, também recém chegado. Neste trabalho de formação assumido pelas duas equipas  muito colaboraram as Irmãs Reparadoras do Sagrado Coração de Jesus no Dumbi, e as Irmãs do Amor de Deus no Seles com quem criámos laços de muita amizade e colaboração.

Esta colaboração com as Irmãs e a interação com os catequistas gerais e locais ficou como nota distintiva da nossa ação pastoral por estas terras do Kuanza Sul. Isso foi notado por D. Zacarias Kamuenho aquando da sua primeira visita pastroral como bispo auxiliar de Luanda, quinze dias após a sua sagração episcopal à Missão do Dumbi, de 9 a 14 de Dezembro de 1974. Foi no encontro de avaliação da visita pastoral na tarde do dia 14 de Dezembro, só com os padres e as irmãs, que D. Zacarias nos revelou pela primeira vez, que estavam reunidas todas as condições para iniciarmos o grande projeto do Ondjango já estudado por alguns missionários no Huambo, mas que ficou inconclusivo.

A ideia inicial e os elementos basilares do Ondjango devem-se a D. Zacarias. A sua estruturação, divulgação e experiència nas comunidades foi tarefa a nós confiada. Foi este o projeto pastoral mais audacioso e envolvente da minha vida missionária. Só por isso já valeu a pena ter sido missionário em Angola.

Infelizmente tive de dedicar muito tempo e energias à construção de estruturas materiais mínimas para a atividade pastoral pelos vários locais por onde passei. Mas esta não foi a atividade mais significativa da minha vida. Sempre me preocupei por colocar novidade e criar inovação em todos os projetos pastorais que tive de orientar, nunca me limitando à repetição de ritos e tradições.  Nem sempre consegui o que desejava, mas era movido por este desejo grande de inculturação da fé na cultura do povo que me acolheu.

Passei por quase todas as Paróquias/Missões do Kuanza Sul, pelo menos em cursos de formação a líderes comunitários. Por isso, estou muito vinculado à Diocese do Sumbe que, na celebração deste jubileu de 50 anos de Missão, me acolheu com imensa alegria, e a quem agradeço toda a amizade e carinho dispensados. Foi uma festa comum, porque todos nos unimos no comum louvor ao Senhor por tudo quanto de bom Ele operou através de nós, apesar das nossas limitações e fragilidades. Que Ele para sempre seja louvado

P. Augusto Farias, Missionário da Boa Nova

 



Caixa de texto:
 

 


SÍNODO - A voz do povo

Um sínodo para tratar a sinodalidade não deve ser entendido como mera metalinguagem. O Sumo Pontífice mostra mais uma vez, e de modo contundente, que acredita numa Igreja que ouça os anseios dos cristãos. De todo o mundo.

Este futuro encontro dos bispos, portanto, não irá se restringir às conferências encabeçadas por religiosos dentro dos muros do Vaticano. O que começa agora é um processo de sinodalidade que pretende estar aberto a ouvir todos os católicos que queiram se expressar nos próximos dois anos. Isso significa 1,3 bilhão de pessoas, metade de todos os habitantes da Terra, que se declaram cristãos.

Radical? "É o mais amplo sínodo, a maior experiência de sinodalidade que já foi feita na Igreja" de todos os tempos. "A proposta é ampla, pretende que todos os fiéis baptizados tenham a chance de, em alguma parte do processo, serem consultados. Isso nunca existiu na história da Igreja: uma tentativa de consultar todos os católicos do mundo."

"É claro que ninguém vai bater de porta em porta para falar com todos. Mas reuniões e assembleias devem ocorrer em paróquias e em grupos, questionários devem ser aplicados. A ideia é que todos se sintam tocados a participar".

"É a tentativa mais ampla de enraizar a sinodalidade não mais como um processo e uma forma de fazer as coisas, mas como uma mentalidade da Igreja."

O que é - A palavra sínodo vem da junção de dois termos gregos, synodos (reunião ou conselho) e hodós (caminho). Sinodalidade, portanto, é uma maneira de acreditar que o caminho depende do entendimento conjunto. Que as decisões não devem ser impostas por uma autoridade, mas precisam brotar das bases.

Desde que assumiu o comando da Igreja e se tornou papa Francisco, em 2013, o argentino Jorge Bergoglio tem demonstrado que é assim que acredita um futuro possível. De certa forma, recupera o modus operandi das primeiras comunidades cristãs, antes de a instituição se tornar poderosa e influente. Naqueles primórdios, toda e qualquer decisão era colegiada.

Nesse percurso, Francisco também aprofunda uma ideia trazida no Concílio Vaticano II. Como resposta aos anseios expressos pelos padres conciliares, o então papa Paulo VI (1897-1978) criou em 1965 o Sínodo dos Bispos, esse encontro periódico a reunir representantes episcopais de todo o mundo para tratar de temas específicos.

De lá para cá, já foram 29 encontros, entre ordinários, extraordinários e regionais. Ao abrir o próximo, cuja reunião final será em 2023, em evento na Sala Nova do Sínodo, no Vaticano, no sábado (9 de Outubro) e, oficialmente, em missa na Basílica de São Pedro no domingo (10 de Outubro), Francisco radicalizou algo que vinha buscando desde o primeiro dos cinco sínodos já convocados por ele: a participação das comunidades.

"Nesta nova assembleia do sínodo, o mais importante não serão as conclusões, mas o processo de escuta e de participação eclesial que ela deflagra".

"Além disso, tem uma grande possibilidade de Francisco encerrar seu pontificado, por aposentadoria ou morte, antes do sínodo terminar. Assim, o processo sinodal se torna um meio para garantir a continuidade do processo de mudanças iniciado por Bergoglio, independentemente de quem seja o novo papa".

"O ponto crucial é a ampla consulta à comunidade católica, que começará em nível local, nas dioceses e paróquias, para culminar na assembleia dos bispos". "Essas consultas se tornaram características de um 'modo Francisco' de governar a Igreja, ainda que processos semelhantes possam ser encontrados em várias experiências anteriores."

Este sínodo deve imprimir a sinodalidade como o jeito de organizar as decisões. "A ideia é de que antes de cada grande decisão, antes de dar os rumos da Igreja, as pessoas sejam consultadas. E que os bispos também façam isso, e que isso seja feito dentro das paróquias, que a gente parta do princípio de que o normal é ouvir as pessoas".

"No fim, a Igreja mantém sua estrutura hierárquica e tudo o mais. Sempre uma autoridade vai tomar a decisão. Mas ela [a decisão] é iluminada por essas experiências da base e de todos os que são consultados. Para quem acredita, o Espírito Santo fala também pelo povo, não flui só entre as autoridades da Igreja, mas sim nas pequenas comunidades, nas famílias e em todos aqueles que acabam sendo consultados no processo sinodal".

 KD

O Tempo do Advento

O que é? - O Advento é o tempo litúrgico que decorre desde o início do novo ano litúrgico até ao Natal – mais precisamente, começa nas vésperas do Domingo mais próximo do dia 30 de Novembro (festa de Santo André Apóstolo) e vai até às vésperas do Natal, no dia 24 de Dezembro.

A palavra advento, na sua origem, significa acontecimento, chegada solene ou vinda. No Cristianismo, o Advento prepara espiritualmente o Natal. O Advento é um tempo de esperança, “marcado pela recordação do nascimento de Jesus e pela expectativa da Sua vinda gloriosa no fim dos tempos”.

Imprimindo fortemente o sentimento de espera, a liturgia suprime durante o Advento uma série de elementos festivos. Desta forma, na Missa, não é rezado o Glória, as vestes são de cor roxa, as decorações das igrejas são mais sóbrias, menos festivas, entre outras. Tudo isso é uma maneira de expressar, de forma tangível, que, durante a nossa caminhada, falta algo para que ela esteja completa – algo por que nós esperamos.

A origem e história do Advento - Não se sabe com exactidão quando é que o período de preparação para o Natal que agora se chama Advento começou – mesmo sabendo-se que já existia no ano de 480, os estudiosos concordam que é impossível afirmar com confiança uma explicação credível para a origem deste tempo.

De acordo com São Gregório de Tours, a celebração do Advento começou no século V quando São Perpétuo, na altura bispo de Tours, ordenou que, começando no Dia de São Martinho (11 de Novembro) e até ao Natal, os cristãos deveriam jejuar três vezes por semana.

Essa prática espalhou-se por toda a França no final do século VI, sendo que alguns cristãos excediam os três dias e jejuavam todos os dias do Advento. As homilias do Papa Gregório I, também no final do século VI, mencionam apenas quatro semanas de Advento, mas sem jejum. No entanto, escritos do tempo de Carlos Magno – imperador do Sacro Império Romano no século IX – afirmam que a prática do jejum no Advento era bastante alargada. Somente no final do século VII, em Roma, é acrescentado o aspecto escatológico do Advento, recordando a segunda vinda do Senhor e passando a ser celebrado durante 5 domingos.

Com o Papa Urbano V, em 1362, a corte papal era forçada à abstinência, mas não ao jejum. A liturgia do Advento foi-se mantendo inalterada até ao Concílio Vaticano II, em 1963, introduzir alterações menores, principalmente com a intenção de diferenciar o espírito do Advento do espírito da Quaresma, dando ênfase ao Advento como uma época de esperança para a vinda de Cristo.

O que se celebra?  - No Advento, a Igreja celebra não só apreparação para a celebração do nascimento do Filho de Deus em Belém como a presença de Cristo no meio de nós – sobretudo através dos sacramentos mas também através da Palavra, entre outras coisas –, e projecta os cristãos para “a vinda gloriosa de Cristo no fim dos tempos”.

Assim, podemos falar em duas partes do Advento. Numa primeira parte, do primeiro Domingo ao dia 16 de Dezembro, o Advento tem um carácter escatológico, focando-se na vinda do Senhor no fim dos tempos; na segunda, os dias estão focados mais explicitamente na preparação para o nascimento de Jesus – a primeira vinda de Cristo.

Neste período, as leituras da Missa convidam a viver a esperança na vinda do Senhor em todos os seus aspectos: a Sua vinda no fim dos tempos, a Sua vinda agora, a cada dia, e a Sua vinda há dois mil anos.

A segunda parte, de 17 a 24 de Dezembro, inclusive, está mais directamente orientada à preparação do Natal. Somos convidados a viver com mais alegria, porque estamos próximos do cumprimento do que Deus prometera: os evangelhos destes dias preparam-nos directamente para a celebração do nascimento de Jesus – a primeira vinda de Cristo.

Os Domingos - No rito romano da Igreja Católica, os Domingos do Advento têm temas distintos. O primeiro Domingo sublinha a última vinda do Senhor e marca a espera pela segunda vinda de Jesus. No segundo Domingo, João Baptista manda preparar os caminhos do Senhor. O terceiro Domingo – Domingo da Alegria – manifesta Cristo “já presente”. No quarto Domingo é colocada em relevo a figura de Maria, assim como os eventos que levaram ao nascimento de Jesus.

E a coroa de Advento? - Existem vários símbolos do Advento que nos ajudam a mergulhar no mistério da encarnação e a viver melhor este tempo, mas talvez nenhum deles seja mais reconhecível do que a coroa de Advento, com origem numa tradição pagã europeia. No Inverno, acendiam-se algumas velas que representavam ao “fogo do deus sol”, na esperança de que a sua luz e o seu calor voltassem. Os primeiros missionários aproveitaram esta tradição para evangelizar as pessoas, partindo dos seus próprios costumes para ensinar a fé. Assim, a coroa está formada por uma grande quantidade de símbolos: A forma circular: O círculo não tem princípio nem fim, sinalizando assim o amor de Deus que é eterno, sem princípio e sem fim, e também o nosso amor a Deus e ao próximo que nunca deve terminar. Além disso, o círculo dá uma ideia de “elo”, de união entre Deus e as pessoas, como uma grande “aliança”.

As ramas verdes: O verde é a cor da esperança e da vida. Simbolizam a vontade de Deus de Quem esperamos a sua graça, o seu perdão misericordioso e a glória da vida eterna no final da nossa vida. Usam-se ramos de pinheiros porque estes permanecem verdes apesar do Inverno, assim como os cristãos devem manter a fé e a esperança apesar das tribulações da vida.

As quatro velas: As quatro velas da coroa simbolizam, cada uma delas, uma das quatro semanas do Advento. No início, vemos uma coroa sem luz e sem brilho, recordando a experiência de escuridão do pecado. À medida que se vai aproximando o Natal vamos, ao passo dos Domingos do Advento, acendendo uma a uma as quatro velas, representando assim a chegada de Jesus, luz do mundo, que dissipa toda a escuridão, trazendo aos nossos corações a tão esperada reconciliação.

 

                                                                                                         KD

Notícias, Artigos, Vídeos, Comentários, Coberturas e Opiniões sobre a Igreja Católica no Brasil e no Mundo

 

1 - “Deus tinha-me dado um coração recto e fácil de in-amar-se pelas necessidades dos outros” (Pauline Jaricot)

As OMP (Obras Missionárias Pontifícias) são uma rede mundial de oração e solidariedade a serviço do Papa. Sua fundação tem origem no fervor missionário expresso por Pauline Jaricot que, na França, em 1822, instituiu a Obra da Propagação da Fé. Ela descobriu uma forma concreta para envolver os fiéis na missão universal da Igreja, através da oração e da arrecadação de fundos.

A iniciativa começou com um pequeno círculo de operárias que rezavam pela missão ad gentes e faziam uma pequena doação para sustentar os missionários franceses que estavam na China.

Hoje essa rede de oração e solidariedade se espalhou por todo o mundo, sendo fonte inspiradora para as obras pontifícias. As doações dos cristãos compõem o Fundo Mundial de Solidariedade, que existe para financiar diversos projectos ordinários e extraordinários aprovados durante a Assembleia Geral em Roma, formada por directores das OMP de diversos países.

2 - No fim de semana (9-10 de Outubro), o Papa Francisco abriu o que pretende ser o maior movimento de consulta democrática da história da Igreja Católica, uma religião que, ao longo dos séculos, se tornou símbolo de hierarquia rígida, conservadorismo e pouca transparência — e, de quebra, comanda um Estado, o Vaticano, de forma teocrática.

Nos próximos dois anos, Francisco quer que a imensa maioria dos católicos — idealmente, todos os 1,3 bilhão que se declaram assim — sejam ouvidos sobre o futuro da Igreja.

3 - Angola - D. Luzizila Kiala, novo Arcebispo de Malanje ­ O Papa Francisco nomeou, a 29 de Setembro de 2021, D. Luzizila Kiala como novo arcebispo de Malanje. A Conferência Episcopal de Angola e São Tomé e Príncipe (CEAST), congratula-se com a escolha do Santo Padre.

“Procurei fazer o possível na Diocese do Sumbe, agora por orientação do Papa Francisco vou para Malanje cumprir uma nova missão”, disse D. Luzizila kiala em reacção à sua nomeação.

D. Luzízila esteve à frente da Diocese do Sumbe por oito anos, foi nomeado Bispo desta Diocese a 21 de Maio de 2013, substitui na altura, D. Benedito Roberto.

4 - Malanje - O Vaticano nomeou Dom Luzizila Kiala, de 58 anos de idade e natural da Damba, província do Uíge, para arcebispo de Malanje confirmu o administrador da Arquidiocese, Padre Adão António (Kawenda).

Kiala ocupa o cargo deixado vago pela morte de Dom Benedito Roberto, aos 74 anos de idade, em Novembro de 2020.

5 - Papa faz apelo por 'leis urgentes e sábias' em favor do clima - O papa Francisco fez um apelo no sábado (9 de Outubro) para a criação de "leis urgentes, sábias e justas" em favor do meio ambiente, ao receber os participantes da reunião preparatória para a Cúpula do Clima de Glasgow (COP26) que aconteceu em Roma.

"Espero que o vosso trabalho exigente, tendo em vista a COP26, e mesmo depois dela, seja iluminado por dois 'faróis' importantes: o farol da responsabilidade e o farol da solidariedade", alertou o Pontífice aos diversos líderes religiosos, parlamentares e cientistas.

6 - Papa Francisco fez um discurso contra armas: ‘mais vacinas e menos fuzis’ - Em cerimónia, o líder da igreja católica criticou o investimento dos governos mundiais em armamentos e guerras - Na quinta-feira, 7 de Outubro, o papa Francisco participou de um encontro inter-religioso no Coliseu, em Roma, na Itália. No evento que busca pela paz da Comunidade Sant'Egidio, o líder católico realizou um discurso incisivo contra armas.

Na ocasião, o santo padre pediu para que todos os participantes da cerimónia ajudassem a “extirpar dos corações o ódio e condenar todas as formas de violência”.

7 - África do Sul – Eleições -  Arcebispo Phalana: encorajou as pessoas a votar - No próximo dia 1 de Novembro o povo sul-africano será chamado às urnas para as eleições municipais. Já por ocasião das eleições anteriores, em 2019, informa o site da Conferência Episcopal da África do Sul, os Bispos haviam feito um apelo a cada cidadão, recordando a “grave responsabilidade de criar um ambiente de tolerância e aceitação que permita a cada sul-africano de apoiar e votar no partido que escolher, sem medo de violência e intimidações”.

8 - Cidade do Vaticano - Por ocasião da rodada eleitoral, e para avaliar a prontidão da Comissão Eleitoral Independente, o Departamento de Justiça e Paz dos Bispos da África do Sul convidou o Chefe Eleitoral Sy Mamabolo, que também é diácono permanente na Arquidiocese Católica de Joanesburgo, para um encontro que também tocou o tema do papel da Igreja como observadora na actual situação pandémica.

No seu discurso de abertura, Dom Victor Phalana, presidente da Comissão de Justiça e Paz, observou que a Comissão Eleitoral está sob um estrito controle e acrescentou que, enquanto os sul-africanos procuram reconhecê-la e respeitá-la, o dever da Comissão é corrigir os seus próprios erros o mais rápido possível e restaurar a confiança na nação.

O prelado afirmou que, como Justiça e Paz, vão encorajar as pessoas a votar, mas que poderiam não ter respostas às perguntas das pessoas sobre algumas situações relacionadas com as eleições: daí a importância de a Comissão Eleitoral esclarecer as questões pendentes.

9 - Costa do Marfim. 9-10  de  Outubro “Noite do Rosário” no Santuário Mariano de Abidjan - Vigília e oração: são os elementos que caracterizaram a “Noite do Rosário”, marcada para os dias 9 e 10 de Outubro, no Santuário Mariano de Abidjan, na Costa do Marfim, evento organizado pelo movimento “Equipas do Rosário”.

 

KD

 

NOTÍCIAS DA NOSSA PARÓQUIA

1 – Realizaram-se, em tempo previsto, as jornadas juvenis da Diocese em nossa Paróquia. O balanço foi positivo.

2 – Esteve entre nós o Pe. Augusto farias celebrando os seus 50 anos de Missão – passou pelas paróquias de Porto Amboim, Seles, Gabela e Missão do Dumbi entre outras localidades.

3 – Partiram da nossa Paróquia o Pe. José Pedro Carlos, a Ir. Hermelinda e o seminarista Martinho Huambo Patele e Chegaram para a nossa Paróquia o Diácono Luciano (SMBN) e a Ir. Luzia (FVM)

 

KD

AO RITMO DA LITURGIA

 

24 de Outubro – XXX Domingo Comum – Cristo Rei do Universo

L1 - Jer 31,7-9  - Vou trazer de novo o cego e o coxo entre lágrimas e preces - Da celebração fazem parte todos os que têm fé. Porém Deus privilegia os cegos, aleijados e indefesos como seus filhos primogénitos, organizando-os, reunindo-os e reconduzindo-os à vida.

L2 - Hebr 5,1-6 – Tu és sacerdote para sempre segundo a ordem de Melquisedec - A comunidade cristã se reúne para celebrar a vida e a fé em Cristo, único mediador entre Deus e as pessoas humanas. Celebrar a Eucaristia é fazer memória do sacerdócio de Cristo que, mediante o sofrimento e a morte, trouxe o perdão e a salvação para todos. Ev. - Mac 10,46-52 - Mestre, que eu veja - Celebrar a Eucaristia, pois, é professar a própria fé, abrir os olhos, romper com a sociedade que marginaliza, para seguir Jesus, formando com ele uma só realidade, construindo com ele a sociedade justa e fraterna.

31 de Outubro - XXXI Domingo do Tempo Comum

L1: Dt 6,2-6 – Amarás o Senhor com todo o teu coração - O amor está no centro da experiência cristã. O caminho da fé que, dia a dia, somos convidados a percorrer, resume-se no amor Deus e no amor aos irmãos - duas vertentes que não se excluem, antes se complementam mutuamente. A primeira leitura apresenta-nos o início do "Shema' Israel" - a solene proclamação de fé que todo o israelita devia fazer diariamente. É uma afirmação da unicidade de Deus e um convite a amar a Deus com todo o coração, com toda a alma e com todas as forças.

L2: Heb 7,23-28 – Porque permanece para sempre, possui um sacerdócio eterno - A segunda leitura apresenta-nos Jesus Cristo como o sumo-sacerdote que veio ao mundo para cumprir o projecto salvador do Pai e para oferecer a sua vida em doação de amor aos homens. Cristo, com a sua obediência ao Pai e com a sua entrega em favor dos homens, diz-nos qual a melhor forma de expressarmos o nosso amor a Deus.

Ev.Mc 12,28-34 – Amarás o Senhor teu Deus. Amarás o teu próximo - diz-nos, de forma clara e inquestionável, que toda a experiência de fé do discípulo de Jesus se resume no amor - amor a Deus e amor aos irmãos. Os dois mandamentos não podem separar-se: "amar a Deus" é cumprir a sua vontade e estabelecer com os irmãos relações de amor, de solidariedade, de partilha, de serviço, até ao dom total da vida. Tudo o resto é explicação, desenvolvimento, aplicação à vida prática dessas duas coordenadas fundamentais da vida cristã.

2 De Novembro – Fiéis defuntos - "Nele (Jesus) brilhou para nós a esperança da feliz ressurreição. E, aos que a certeza da morte entristece, a promessa da imortalidade consola!".

No dia em que celebramos os mortos, tudo fala de vida, de modo que podemos afirmar, com toda a certeza e alegria, que morrer é viver. A razão disso tudo é a pessoa de Jesus Cristo, morto e ressuscitado, primeiro fruto de entre os que ressuscitam dos mortos, nosso irmão mais velho e vencedor da morte.

L1: - Sb 3,1-9 – O Justo é imortal - De algum modo, a ressurreição de Jesus foi sendo preparada na fé e na esperança do povo, no meio do qual está o autor do livro da Sabedoria. Ele afirma que a luta do justo pela justiça é cheia de imortalidade (I leitura).

L2: - Rm 8,14-23 – No Espírito Rumo ao mundo novo - Paulo, na II leitura, rompe o circuito fechado do fatalismo, apontando para o horizonte luminoso para onde caminha toda a humanidade.

Ev: - Jo 11,32-45 – O amor que vence a morte - Jesus, aquele para quem a morte não interrompe o amor, por amar sem limites e sem barreiras toda a humanidade representada por Lázaro, ressuscita: “Lázaro, saia para fora!” E nos convida a entrarmos nessa ciranda da vida que vence a morte, desamarrando todos os que estão impedidos de viver.

7 de Novembro - XXXII Domingo do Tempo Comum - O verdadeiro culto, que devemos prestar a Deus. A Deus não interessam grandes manifestações religiosas ou ritos externos mais ou menos sumptuosos, mas uma atitude permanente de entrega nas suas mãos, de disponibilidade para os seus projectos, de acolhimento generoso dos seus desafios, de generosidade para doarmos a nossa vida em benefício dos nossos irmãos.

L1: 1 Re 17,10-16 – Do seu pouco de farinha, a viúva fez pãozinho - A primeira leitura apresenta-nos o exemplo de uma mulher pobre de Sarepta, que, apesar da sua pobreza e necessidade, está disponível para acolher os apelos, os desafios e os dons de Deus. A história dessa viúva que reparte com o profeta os poucos alimentos que tem, garante-nos que a generosidade, a partilha e a solidariedade não empobrecem, mas são geradoras de vida e de vida em abundância.

L2: Heb 9,24-28 – Cristo ofereceu-se uma só ve para tomar sobre si os pecados de muitos - A segunda leitura oferece-nos o exemplo de Cristo, o sumo-sacerdote que entregou a sua vida em favor dos homens. Ele mostrou-nos, com o seu sacrifício, qual é o dom perfeito que Deus quer e que espera de cada um dos seus filhos. Mais do que dinheiro ou outros bens materiais, Deus espera de nós o dom da nossa vida, ao serviço desse projecto de salvação que Ele tem para os homens e para o mundo.

Ev: Mc 12,38-44 – Esta pobre viúva deu mais do que todos os outros - Através do exemplo de outra mulher pobre, de outra viúva, o Evangelho mostra qual é o verdadeiro culto que Deus quer dos seus filhos: que eles sejam capazes de Lhe oferecer tudo, numa completa doação, numa pobreza humilde e generosa (que é sempre fecunda), num despojamento de si que brota de um amor sem limites e sem condições. Só os pobres, isto é, aqueles que não têm o coração cheio de si próprios, são capazes de oferecer a Deus o culto verdadeiro que Ele espera.

14 de Novembro - XXXIII Domingo do Tempo Comum – a Liturgia apresenta-nos, fundamentalmente, um convite à esperança. Convida-nos a confiar nesse Deus libertador, Senhor da história, que tem um projecto de vida definitiva para os homens. Ele vai mudar a noite do mundo numa aurora de vida sem fim.

L1: Dan 12,1-3 – Nesse tempo virá a salvação para o teu povo - A primeira leitura anuncia aos crentes perseguidos e desanimados a chegada iminente do tempo da intervenção libertadora de Deus para salvar o Povo fiel. É esta a esperança que deve sustentar os justos, chamados a permanecerem fiéis a Deus, apesar da perseguição e da prova. A sua constância e fidelidade serão recompensadas com a vida eterna.

L2: Heb 10,11-14.18 – Por uma única oblação, tornou perfeitos para sempre os que foram santificados - A segunda leitura lembra que Jesus veio ao mundo para concretizar o projecto de Deus no sentido de libertar o homem do pecado e de o inserir numa dinâmica de vida eterna. Com a sua vida e com o seu testemunho, Ele ensinou-nos a vencer o egoísmo e o pecado e a fazer da vida um dom de amor a Deus e aos irmãos. É esse o caminho do mundo novo e da vida definitiva.

Ev: Mc 13,24-32 – Reunirá os seus eleitos dos quatro pontos cardeais - Jesus garante-nos que, num futuro sem data marcada, o mundo velho do egoísmo e do pecado vai cair e que, em seu lugar, Deus vai fazer aparecer um mundo novo, de vida e de felicidade sem fim. Aos seus discípulos, Jesus pede que estejam atentos aos sinais que anunciam essa nova realidade e disponíveis para acolher os projectos, os apelos e os desafios de Deus.

21 de Novembro – XXXIV Domingo do tempo comum – Cristo Rei do Universo

L1: - Dn 7,13-14 – O Poder do Senhor é eterno.

L2: Ap 1,5-8 – O Príncipe dos reis da terra fez de nós um reino de sacerdotes para Deus.

Ev: - Jo 18,33b-37 – É como dizes, sou rei.

A solenidade de Cristo Rei encerra o Ano Litúrgico. Por isso a celebração deste dia é uma grande profissão de fé no Senhor da história que caminha com seu povo. É também momento privilegiado para que a comunidade cristã descubra seu lugar e papel na sociedade. Pertencer à verdade e ouvir a voz daquele que é rei porque dá gratuitamente a vida pelos seus, é ser reino e sacerdotes para Deus. Cristo, a testemunha fiel, o primogénito dentre os mortos, é aquele que nos comunica e realiza em nosso favor o plano do Pai. É nosso irmão. A Eucaristia que celebramos é memorial daquele que nos ama e nos libertou dos pecados em seu sangue.

TEMPO DO ADVENTO

28 de Novembro – I Domingo do Advento

L1: - I leitura Jr 33,14-16 - Advento é tempo de grande compromisso com o projecto de Deus. Olhando a realidade do povo em nosso país, constatamos que há um abismo entre o que o Senhor quer e a situação em que se encontra a maioria da nossa gente. Contudo, os anseios do povo coincidem profundamente com o plano divino: a paz que é fruto da justiça. O povo quer dirigentes e governantes legítimos, dos quais possa cobrar seus direitos e justiça.

L2: II leitura 1Ts 3,12-4,2. – O Senhor confirme os vossos corações no dia de Cristo - O amo prepara a vinda de Jesus - Celebrar é actualizar o amor de Cristo por nós, traduzindo-o em fraternidade e solidariedade, de modo que o mundo inteiro conheça e participe do projecto de Deus, pois o amor prepara a vinda de Jesus.

Ev: - Lc 21,25-28.34-36 – A vossa libertação está próxima - A celebração eucarística é lugar onde o povo oprimido pode ficar de pé e levantar a cabeça, porque a libertação está próxima. A morte e ressurreição de Jesus, celebradas na Eucaristia, são a presença do Deus que age na história, julgando e libertando.

5 de Dezembro – II Domingo do Advento

L1: Br 5,1-9 – Deus mostrará o teu esplendor - Advento é tomada de consciência: Deus é Pai e libertador. Ele convida seus filhos, as comunidades cristãs, a se levantar e perceber que a libertação está próxima

L2: - Fl 1,4-6.8-11 – Puros e irrepreensíveis para o dia de Cristo - Celebrar a Eucaristia é reviver a presença do Deus que é Pai libertador, que salva em Cristo Jesus. A comunidade cristã que celebra o memorial da morte e ressurreição de Cristo é convidada ao discernimento: só o amor dinâmico que conduz à prática da solidariedade e da justiça é capaz de actualizar a vinda de Jesus.

EV: evangelho - Lc 3,1-6 – toda a criatura verá a salvação de Deus - O nascimento de Cristo, e sua missão, marcam o acontecimento central da história da salvação. O caminho de Jesus é proposta aberta a todos. Mas não nos iludamos: o caminho de Jesus não é o dos poderosos, e a história da salvação não passa pela “história oficial” dos que dominam e oprimem.

12 de Dezembro – III Domingo do Advento

L1: - Sof 3,14-18a – O Senhor exulta de alegria por tua causa - “O que devemos fazer?” Essa pergunta aparece três vezes no evangelho deste domingo. Sua resposta traça um programa de vida para os cristãos em suas comunidades. O Natal que está para chegar marca a presença de Deus no meio de nós, “pequeno resto” que procura manter-se fiel ao Senhor. Connosco Deus quer construir nova história e nova sociedade.

L2: - Filip 4,4-7 – O Senhor está próximo - A celebração eucarística é o momento em que damos graças ao Pai, por meio de Jesus, no Espírito. Nossa oração, feita de agradecimento e súplica, é momento de discernimento e de compromisso com Jesus e seu projecto.

 

Ev: - Lc 3,10-18 – Que devemos fazer - Pois Ele vai pôr às claras quem somos e o que fazemos para construir sociedade e história novas. A partilha do Pão da vida nos ensina a partilhar os bens da criação, na justiça e no serviço aos marginalizados.

19 de Dezembro – IV Domingo do Advento

L1: - Miq 5,1-4 - Celebrar a Eucaristia é sentir que a salvação nasce dos pobres. É nos pequenos das roças e periferias que hoje Jesus se encarna, devolvendo-lhes a esperança e a paz.

L2: - Hb 10,5-10. As comunidades cristãs, pequeno resto, se reúnem para celebrar esse evento libertador: o nascimento, morte e ressurreição de Jesus que, em seu corpo, nos santificou e libertou, perdoando nossos pecados. A melhor resposta que podemos dar-lhe, neste tempo de Advento, é esta: “Estamos aqui para fazer a tua vontade”.

Ev: - Lc1,39-45 – Donde me é dado que venha ter comigo a Mãe do meu Senhor? - A comunidade reunida, o pão partilhado, são sinais visíveis de que o mundo novo está começando a partir dos que se comprometem com o Reino de Deus. Na celebração sentimos que a realeza de Cristo se traduz na partilha do seu ser com os empobrecidos, criando a paz. Como Isabel, nós também perguntamos: “Como posso merecer que… o meu Senhor me venha visitar?” A proximidade do Deus que se faz pão e palavra de vida nos leva a exultar como João Batista no seio de sua mãe. Deus veio morar entre os empobrecidos. Encarnou-se neles para salvá-los!

Natal do Senhor – Noite – Hoje nasceu para vós um Salvador, que é o Messias, Senhor!

Deus entra na história do ser humano por meio de uma mulher marginalizada. Celebrar o Natal é fazer memória dos eventos libertadores do nosso Salvador, Messias e Senhor. Jesus nasce no meio dos pobres, migrantes, pastores, enfim, encarna-se na realidade dos que sofrem, para remi-los liturgia é comunicação do Deus que optou pelos pobres, falando a linguagem deles, resgatando-os definitivamente, para que ninguém venha de novo oprimi-los. Nasce para nós o Salvador. Hoje é dia de boas notícias, pois a história toma rumo novo, manifestando a solidariedade do Deus fiel. Glória a Deus no mais alto dos céus! Sua glória é acção concreta repercutindo na terra, trazendo para todos a paz. Envolto em faixas e colocado na manjedoura; envolto num lençol e colocado num sepulcro; feito pão e vinho e posto a serviço dos que ele ama: assim é o nosso Salvador, o Messias, o Senhor, aquele que não reservou para si sua vida, mas a entregou a fim de nos resgatar e purificar, tornando-nos seu povo, dedicado a praticar a justiça.

Natal do Sr - Dia – A palavra se encarnou e fez sua tenda entre nós

L1: – Is 52,7-10 – Seu Deus Reina

L2: – Hb 1,1-6 – Falou-nos por meio do Filho

Ev: - Jo 1,1-18 – A Palavra se encarnou e armou sua tenda entre nós

Que bom seria se o espírito natalino tomasse conta de todos os dias da vida. Viveríamos continuamente agradecidos, pois o Natal – início de nossa redenção – é o ponto alto da comunicação amorosa do nosso Deus. Hoje é dia de boas notícias: o nosso Deus vem para reinar, para fazer estremecer de júbilo as ruínas de Jerusalém e as nossas ruínas; na pessoa do Filho – Palavra encarnada que armou sua tenda no meio de nós –, Deus nos fala e nos contempla face a face, e nós podemos contemplá-lo como um de nós. A eucaristia coroa nossa celebração e nela somos gratos ao Pai, pois, na Palavra feita gente, nós, que acolhemos Jesus e acreditamos em seu nome, recebemos o poder de nos tornar filhos de Deus.

26/12/2021 – Sagrada Família

O mundo é a família de Deus, pois Jesus se encarnou em nossa realidade, experimentando o drama de todas as famílias humanas, conduzindo seu povo para a vida em plenitude. Toda celebração eucarística é catequese permanente da ação de Deus em nossa vida. Por isso, com a festa da Sagrada Família, celebramos não só o sofrimento das famílias brasileiras, mas sobretudo a certeza de que estamos sendo guiados por Deus no caminho que conduz à vida e liberdade para todos. Encerramos mais um ano de caminhada. Agradecemos a Deus a alegria das esperanças realizadas. E celebramos desde já as expectativas, pois a maioria das comunidades e famílias ainda não viu brilhar no horizonte a consolação e a libertação iniciadas em Jesus.

Dia 1 de Janeiro - Santa Maria Mãe de Deus - Num 6,22-27; Gal 4,4-7; Lc 2, 16-21

Neste dia, a liturgia coloca-nos diante de evocações diversas, ainda que todas importantes. Celebra-se, em primeiro lugar, a Solenidade da Mãe de Deus: somos convidados a olhar a figura de Maria, aquela que, com o seu sim ao projecto de Deus, nos ofereceu a figura de Jesus, o nosso libertador. Celebra-se, em segundo lugar, o Dia Mundial da Paz: em 1968, o Papa Paulo VI quis que, neste dia, os cristãos rezassem pela paz. Celebra-se, finalmente, o primeiro dia do ano civil: é o início de uma caminhada percorrida de mãos dadas com esse Deus que nunca nos deixa sozinhos, mas que em cada dia nos cumula da sua bênção e nos oferece a vida em plenitude. As leituras de hoje exploram, portanto, diversas coordenadas. Elas têm a ver com esta multiplicidade de evocações. Na primeira leitura, sublinha-se a dimensão da presença contínua de Deus na nossa caminhada, como bênção que nos proporciona a vida em plenitude. Na segunda leitura, a liturgia evoca outra vez o amor de Deus, que enviou o seu “Filho” ao nosso encontro, a fim de nos libertar da escravidão da Lei e nos tornar seus “filhos”. É nessa situação privilegiada de “filhos” livres e amados que podemos dirigir-nos a Deus e  chamar-Lhe “papá”. O Evangelho mostra como a chegada do projecto libertador de Deus (que veio ao nosso encontro em Jesus) provoca alegria e contentamento por parte daqueles que não têm outra possibilidade de acesso à salvação: os pobres e os débeis. Convida-nos, também, a louvar a Deus pelo seu cuidado e amor e a testemunhar a libertação de Deus aos homens. Maria, a mulher que proporcionou o nosso encontro com Jesus, é o modelo do crente que é sensível ao projecto de Deus, que sabe ler os seus sinais na história, que aceita acolher a proposta de Deus no coração e que colabora com Deus na concretização do projecto divino de salvação para o mundo.

 


Prevenção Covid – 19  -  Informe-se sobre os factos e tome as precauções adequadas para se proteger a si e às pessoas à sua volta. Siga os conselhos partilhados pela sua autoridade de saúde local.

Para evitar a propagação da COVID-19:

Lave frequentemente as mãos. Utilize água e sabão, ou uma solução à base de álcool.

Mantenha uma distância segura de qualquer pessoa que estiver a espirrar ou tossir.

Use máscara sempre que o distanciamento físico não for possível.

Não toque nos olhos, no nariz ou na boca.

Cubra o nariz e a boca com o cotovelo flectido ou um lenço quando tossir ou espirrar. Fique em casa.

Se tiver febre, tosse e dificuldade respiratória, procure assistência médica.

Máscaras

As máscaras podem ajudar a evitar a propagação do vírus entre o respectivo portador e outras pessoas. O uso de máscara, por si só, não protege contra a COVID-19 e deve ser combinado com o distanciamento físico e a higiene das mãos. Caso se sinta doente, vá ao posto médico mais próximo. Siga os conselhos partilhados pela sua autoridade de saúde local.

Estes actos de prevenção são de responsabilidade individual e colectiva.

KD          LE: www.Kaquinda.blogspot.com

 

O AMBOIM - Boletim Paroquial da Gabela. Série IV– Ano I – Nº 3 – Outubro – Dezembro de 2021;  . Propriedade e Edição da Paróquia da Gabela – Tel. (00 244) 236220235

C.P. 95 – ANGOLA; Director: Pároco; Redacção: Equipa Missionária – Com aprovação eclesiástica.

sábado, 30 de janeiro de 2021

FRATELLI TUTTI E CONSAGRADOS DA Diocese de Sumbe 2921 O Papa Francisco assinou (junto ao túmulo de São Francisco de Assis) a 3 de Outubro de 2020 em Assis a encíclica ‘Fratelli Tutti’, 299º documento do género na história da Igreja Católica, foi publicado no domingo (4/10/2020) às 12h15 de Roma, após a oração do ângelus. A encíclica – tradicionalmente assinada no Vaticano – é o grau máximo das cartas que um Papa escreve e a expressão ‘Fratelli Tutti ‘ (aos irmãos todos, em tradução livre) remete para os escritos de São Francisco de Assis, o religioso que inspirou o pontífice na escolha do seu nome. É a terceira Encíclica, depois das duas anteriores (a ‘Lumen Fidei’ - A luz da Fé, de 2013, que recolhe reflexões de Bento XVI, Papa emérito; e a Laudato Si’, de 2015, sobre a ecologia integral) do actual pontificado. “FRATELLI TUTTI”, A ENCÍCLICA SOCIAL DO PAPA FRANCISCO Fraternidade e amizade social são os caminhos indicados pelo Pontífice para construir um mundo melhor, mais justo e pacífico, com o compromisso de todos: pessoas e instituições, reafirmado com vigor o não à guerra e à globalização da indiferença. Quais são os grandes ideais mas também os caminhos concretos para aqueles que querem construir um mundo mais justo e fraterno nas suas relações der, principalmente, “Fratelli tutti”: o Papa define-a como uma “Encíclica Social” (6) que toma o seu título das “Admoestações” de São Francisco de Assis, que usava essas palavras “para se dirigir a todos os irmãos e irmãs e lhes propor uma forma de vida com sabor do Evangelho” (1). A Encíclica tem como objectivo promover uma aspiração mundial à fraternidade e à amizade social. No pano de fundo, há a pandemia da Covid-19 que – revela Francisco – “irrompeu quotidianas, na vida social, na política e nas instituições? Esta é a pergunta à qual pretende responde forma inesperada quando eu estava escrevendo esta carta”. Mas a emergência sanitária global mostrou que “ninguém se salva sozinho” e que chegou realmente o momento de “sonhar como uma única humanidade”, na qual somos “todos irmãos”. (7-8). 1 – A ESTRUTURA DO TEXTO Se observarmos a estrutura do documento vemos que, após uma introdução marcada pela luz que vem do modelo de São Francisco - que inspirou, além desse texto, o texto da Laudato Si' e o próprio nome do Papa Francisco - o movimento do texto procede de maneira semelhante a Amoris Laetitia. Lê a realidade com suas sombras (cap. 1), se deixa inspirar por um texto bíblico (cap. 2) e depois formula o coração do documento de amicitia et de fraternitate no cap. 3. Disso derivam uma série de consequências importantes que ocupam o restante do texto (capítulos 4-8). Por uma questão de utilidade, vai aqui o índice: • Introdução (1-8) • Capítulo Um: As sombras de um mundo fechado (9-55) • Capítulo Dois: Um estranho no caminho (56-86) • Capítulo Três: Pensar e gerar um mundo aberto (87-127) • Capítulo Quatro: Um coração aberto ao mundo inteiro (128-153) • Capítulo Cinco: A política melhor (154-197) • Capítulo Seis: Diálogo e amizade social (198-224) • Capítulo Sete: Percursos de um novo encontro (225-270) • Capítulo Oito: As religiões ao serviço da fraternidade no mundo (271-287) a) No primeiro de oito capítulos, intitulado “As sombras dum mundo fechado”, o documento debruça-se sobre as muitas distorções da época contemporânea: a manipulação e a deformação de conceitos como democracia, liberdade, e justiça; o egoísmo e a falta de interesse pelo bem comum; a prevalência de uma lógica de mercado baseada no lucro e na cultura do descarte; o desemprego, o racismo, a pobreza; a desigualdade de direitos e as suas aberrações como a escravatura, o tráfico de pessoas, as mulheres subjugadas e depois forçadas a abortar, o tráfico de órgãos (10-24). Estes são problemas globais que requerem acções globais, sublinha o Papa, apontando o dedo também contra uma “cultura de muros” que favorece a proliferação de máfias, alimentadas pelo medo e pela solidão (27-28). b) A muitas sombras, porém, a Encíclica responde com um exemplo luminoso, o do bom samaritano, a quem é dedicado o segundo capítulo, “Um estranho no caminho”. Nele, o Papa assinala que, numa sociedade doente que vira as costas à dor e é “analfabeta” no cuidado dos mais frágeis e vulneráveis (64-65), somos todos chamados a estar próximos uns dos outros (81), superando preconceitos e interesses pessoais. De facto, todos nós somos co-responsáveis na construção de uma sociedade que saiba incluir, integrar e levantar aqueles que sofrem (77). O amor constrói pontes e nós “somos feitos para o amor” (88), acrescenta o Papa, exortando em particular os cristãos a reconhecerem Cristo no rosto de cada pessoa excluída (85). A “não indiferença” é o único berço da fraternidade social e universal. Na parábola, a "não indiferença" surge de um "samaritano" (um homem discriminado e marginalizado) em comparação com um judeu ferido e abandonado. A universalidade da fraternidade se escreve numa proximidade que supera qualquer "comunidade restrita" e que, portanto, delineia uma "sociedade aberta". Nas últimas linhas desse segundo capítulo, o universalismo da fraternidade encontra uma âncora teológica na identificação de Cristo com os pobres, com os sedentos, com os enfermos e com o reconhecimento, para cada cristão, que pode encontrar nos outros “a sua própria carne". É por isso que se extrai uma conclusão singularmente franca, em termos de uma "autocrítica" da tradição, muito semelhante às passagens paralelas de Amoris Laetitia (AL 35-37) e com isso se conclui o capítulo 2: "Às vezes deixa-me triste o facto de, apesar de estar dotada de tais motivações, a Igreja ter demorado tanto tempo a condenar energicamente a escravatura e várias formas de violência. Hoje, com o desenvolvimento da espiritualidade e da teologia, não temos desculpas. Todavia, ainda há aqueles que parecem sentir-se encorajados ou pelo menos autorizados pela sua fé a defender várias formas de nacionalismo fechado e violento, atitudes xenófobas, desprezo e até maus-tratos àqueles que são diferentes. A fé, com o humanismo que inspira, deve manter vivo um sentido crítico perante estas tendências e ajudar a reagir rapidamente quando começam a insinuar-se. Para isso, é importante que a catequese e a pregação incluam, de forma mais directa e clara, o sentido social da existência, a dimensão fraterna da espiritualidade, a convicção sobre a dignidade inalienável de cada pessoa e as motivações para amar e acolher a todos.”(FT 86 ) c) O princípio da capacidade de amar segundo “uma dimensão universal” (83) é também retomado no terceiro capítulo, “Pensar e gerar um mundo aberto”: nele, Francisco exorta cada um de nós a “sair de si mesmo” para encontrar nos outros “um acrescentamento de ser” (88), abrindo-nos ao próximo segundo o dinamismo da caridade que nos faz tender para a “comunhão universal” (95). Afinal – recorda a Encíclica – a estatura espiritual da vida humana é medida pelo amor que nos leva a procurar o melhor para a vida do outro (92-93). O sentido da solidariedade e da fraternidade nasce nas famílias que devem ser protegidas e respeitadas na sua “missão educativa primária e imprescindível” (114). O direito a viver com dignidade não pode ser negado a ninguém, afirma ainda o Papa, e uma vez que os direitos são sem fronteiras, ninguém pode ser excluído, independentemente do local onde nasceu (121). Deste ponto de vista, o Papa lembra também que é preciso pensar numa “ética das relações internacionais” (126), porque cada país é também do estrangeiro e os bens do território não podem ser negados àqueles que têm necessidade e vêm de outro lugar. O direito natural à propriedade privada será, portanto, secundário em relação ao princípio do destino universal dos bens criados (120). A Encíclica também coloca uma ênfase específica na questão da dívida externa: embora se mantenha o princípio de que toda a dívida legitimamente contraída deve ser paga, espera-se, no entanto, que isto não comprometa o crescimento e a subsistência dos países mais pobres (126). d) Ao tema das migrações é dedicado em parte o segundo e todo o quarto capítulo, “Um coração aberto ao mundo inteiro”: com as suas “vidas dilaceradas” (37), em fuga das guerras, perseguições, catástrofes naturais, traficantes sem escrúpulos, arrancados das suas comunidades de origem, os migrantes devem ser acolhidos, protegidos, promovidos e integrados. Nos países destinatários, o justo equilíbrio será entre a protecção dos direitos dos cidadãos e a garantia de acolhimento e assistência aos migrantes (38-40). Especificamente, o Papa aponta algumas “respostas indispensáveis” especialmente para aqueles que fogem de “graves crises humanitárias”: incrementar e simplificar a concessão de vistos; abrir corredores humanitários; oferecer alojamento, segurança e serviços essenciais; oferecer possibilidade de trabalho e formação; favorecer a reunificação familiar; proteger os menores; garantir a liberdade religiosa. O que é necessário acima de tudo” – lê-se no documento -, é uma legislação (governance) global para as migrações que inicie projectos a longo prazo, indo além das emergências individuais, em nome de um desenvolvimento solidário de todos os povos (129-132). e) O tema do quinto capítulo é “A política melhor”, ou seja, a que representa uma das formas mais preciosas da caridade porque está ao serviço do bem comum (180) e conhece a importância do povo, entendido como uma categoria aberta, disponível ao confronto e ao diálogo (160). Este é o popularismo indicado por Francisco, que se contrapõe ao “populismo” que ignora a legitimidade da noção de “povo”, atraindo consensos a fim de instrumentalizar ao serviço do seu projecto pessoal (159). Mas a melhor política é também a que protege o trabalho, “uma dimensão indispensável da vida social” e procura assegurar que cada um tenha a possibilidade de desenvolver as suas próprias capacidades (162). A verdadeira estratégia contra a pobreza, afirma a Encíclica, não visa simplesmente a conter os necessitados, mas a promovê-los na perspectiva da solidariedade e da subsidiariedade (187). A tarefa da política, além disso, é encontrar uma solução para tudo o que atenta contra os direitos humanos fundamentais, tais como a exclusão social; tráfico de órgãos, e tecidos humanos, armas e drogas; exploração sexual; trabalho escravo; terrorismo e crime organizado. Forte o apelo do Papa para eliminar definitivamente o tráfico de seres humanos, “vergonha para a humanidade”, e a fome, porque é “criminosa” porque a alimentação é “um direito inalienável” (188-189). A política da qual há necessidade, sublinha ainda Francisco, é aquela centrada na dignidade humana e que não está sujeita à finança porque “o mercado por si só, não resolve tudo”: os “estragos” provocados pela especulação financeira mostraram-no (168). Assumem, portanto, particular relevância os movimentos populares: verdadeiros “torrentes de energia moral”, devem ser envolvidos na sociedade, de uma forma coordenada. Desta forma – afirma o Papa -, pode-se passar de uma política “para” os pobres para uma política “com” e “dos” pobres (169). Outro desejo presente na Encíclica diz respeito à reforma da ONU: perante o predomínio da dimensão económica, de facto, a tarefa das Nações Unidas será dar uma real concretização ao conceito de “família de nações”, trabalhando para o bem comum, a erradicação da pobreza e a protecção dos direitos humanos. Recorrendo incansavelmente à “negociação, aos mediadores e à arbitragem” – afirma o documento pontifício – a ONU deve promover a força da lei sobre a lei da força (173-175). f) Do sexto capítulo, “Diálogo e amizade social”, emerge também o conceito de vida como “a arte do encontro” com todos, também com as periferias do mundo e com os povos originais, porque “de todos se pode aprender alguma coisa, ninguém é inútil, ninguém é supérfluo” (215). Particular, então, a referência do Papa ao “milagre da amabilidade”, uma atitude a ser recuperada porque é “uma estrela na escuridão” e uma “libertação da crueldade, da ansiedade que não nos deixa pensar nos outros, da urgência distraída” que prevalecem em época contemporânea (222-224). g) Reflecte sobre o valor e a promoção da paz, o sétimo capítulo, intitulado “Percursos dum novo encontro”, no qual o Papa sublinha que a paz é “proactiva” e visa formar uma sociedade baseada no serviço aos outros e na busca da reconciliação e do desenvolvimento mútuo. A paz é uma “arte” em que cada um deve desempenhar o seu papel e cuja tarefa nunca termina (227-232). Ligado à paz está o perdão: devemos amar todos sem excepção – lê-se na Encíclica -, mas amar um opressor significa ajudá-lo a mudar e não permitir que ele continue a oprimir o seu próximo (241-242). Perdão não significa impunidade, mas justiça e memória, porque perdoar não significa esquecer, mas renunciar à força destrutiva do mal e da vingança. Nunca esquecer “horrores” como a Shoah, os bombardeamentos atómicos em Hiroshima e Nagasaki, perseguições e massacres étnicos – exorta o Papa – devem ser sempre recordados, novamente, para não nos anestesiarmos e manterem viva a chama da consciência colectiva. E também é importante fazer memória do bem. (246-252). Parte do sétimo capítulo se detém, então, sobre a guerra: “uma ameaça constante”, que representa a “negação de todos os direitos”, “o fracasso da política e da humanidade”, “a vergonhosa rendição às forças do mal”. Além disso, devido às armas nucleares, químicas e biológicas que afectam muitos civis inocentes, hoje já não podemos pensar, como no passado, numa possível “guerra justa”, mas temos de reafirmar fortemente “Nunca mais a guerra! A eliminação total das armas nucleares é “um imperativo moral e humanitário”; em vez disso – sugere o Papa – com o dinheiro do armamento deveria ser criado um Fundo Mundial para acabar de vez com a fome (255-262). Francisco expressa uma posição igualmente clara sobre a pena de morte: é inadmissível e deve ser abolida em todo o mundo. “O homicida não perde a sua dignidade pessoal – escreve o Papa – e o próprio Deus Se constitui seu garante” (263-269). Ao mesmo tempo, a necessidade de respeitar “a sacralidade da vida” (283) é reafirmada onde “partes da humanidade parecem sacrificáveis “, tais como os nascituros, os pobres, os deficientes, os idosos (18). h) No oitavo e último capítulo, o Pontífice se detém sobre “Religiões ao serviço da fraternidade no mundo” e reitera que o terrorismo não se deve à religião, mas a interpretações erradas de textos religiosos, bem como a políticas de fome, pobreza, injustiça e opressão (282-283). Um caminho de paz entre as religiões é, portanto, possível; por isso, é necessário garantir a liberdade religiosa, direito humano fundamental para todos os crentes (279). Uma reflexão, em particular, que a Encíclica faz sobre o papel da Igreja: ela não relega a sua missão à esfera privada e, embora não fazendo política, não renuncia à dimensão política da existência, à atenção ao bem comum e à preocupação pelo desenvolvimento humano integral, segundo os princípios evangélicos (276-278). Enfim, Francisco cita o “Documento sobre a fraternidade humana em prol da paz mundial e da convivência comum”, assinado por ele mesmo em 4 de Fevereiro de 2019 em Abu Dhabi, junto com o Grande Imão de Al-Azhar, Ahmad Al-Tayyib: desta pedra miliar do diálogo inter-religioso, o Pontífice retoma o apelo para que, em nome da fraternidade humana, o diálogo seja adoptado como caminho, a colaboração comum como conduta, e o conhecimento mútuo como método e critério (285). 2 – IDEIAS-CHAVE DO DOCUMENTO Esta Encíclica representa o ponto de confluência de uma ampla parte do seu magistério do Papa Francisco (cf. Fratelli tutti, 5) [1]. A fraternidade foi o primeiro tema ao qual Francisco fez referência dando início ao seu pontificado, quando inclinou a cabeça diante das pessoas reunidas na Praça São Pedro. Lá, ele definiu a relação bispo-povo como “caminho de fraternidade” e expressou este desejo: “Rezemos sempre por nós, uns pelos outros. Rezemos por todo o mundo, para que haja uma grande fraternidade” [2]. O título é, como dissemos atrás, uma citação directa das “Admoestações” de São Francisco: Fratelli tutti [Todos Irmãos]. E indica uma fraternidade que se estende não só aos seres humanos, mas imediatamente também à terra, em plena sintonia com a outra encíclica do pontífice, a Laudato si’ [3]. a) Fraternidade e amizade social A Fratelli tutti conjuga, ao mesmo tempo, a fraternidade e a amizade social. Esse é o núcleo central do texto e do seu significado. O realismo que atravessa as páginas dilui todo romantismo vazio, sempre à espreita quando se trata de fraternidade. A fraternidade não é apenas uma emoção, ou um sentimento, ou uma ideia – por mais nobre que seja – para Francisco, mas sim um facto que, depois, implica também a saída, a acção (e a liberdade): “De quem eu me faço irmão?”. A fraternidade assim entendida inverte a lógica do apocalipse hoje predominante; uma lógica que luta contra o mundo porque crê que ele é o oposto de Deus, ou seja, um ídolo, e portanto deve ser destruído o mais rápido possível para acelerar o fim do tempo. Diante do abismo do apocalipse, não há mais irmãos: apenas apóstatas ou “mártires” em uma corrida “contra” o tempo. Não somos militantes ou apóstatas, mas irmãos todos. A fraternidade não queima o tempo, nem cega os olhos e os ânimos. Em vez disso, ocupa o tempo, requer tempo. O do litígio e o da reconciliação. A fraternidade “perde” tempo. O apocalipse o queima. A fraternidade requer o tempo do tédio. O ódio é pura excitação. A fraternidade é aquilo que permite que os iguais sejam pessoas diferentes. O ódio elimina o diferente. A fraternidade salva o tempo da política, da mediação, do encontro, da construção da sociedade civil, do cuidado. O fundamentalismo o anula em um videogame. É por isso que, no dia 4 de Fevereiro de 2019, em Abu Dhabi, Francisco, o papa, e Aḥmad al-Tayyeb, o grão-imã de al- Azhar, assinaram um histórico documento sobre a fraternidade. Os dois líderes se reconheceram como irmãos e, juntos, tentaram olhar para o mundo de hoje. E o que entenderam? Que a única verdadeira alternativa que desafia e detém a solução apocalíptica é a fraternidade. É preciso redescobrir essa poderosa palavra evangélica, retomada no lema da Revolução Francesa, mas que a ordem pós-revolucionária abandonou depois, até o seu apagamento do léxico político-económico. E nós o substituímos por aquela mais fraca da “solidariedade”, que, na Fratelli tutti, se repete 22 vezes (contra 44 de “fraternidade”). Francisco escreveu em uma das suas mensagens: “Enquanto a solidariedade é o princípio de planeamento social que permite que os desiguais se tornem iguais, a fraternidade é aquilo que permite que os iguais sejam pessoas diferentes” [4]. O reconhecimento da fraternidade muda a perspectiva, a inverte e se torna uma forte mensagem de valor político: todos somos irmãos e, portanto, todos somos cidadãos com direitos e deveres iguais, sob cuja sombra todos gozam da justiça. A fraternidade, além disso, é a base sólida para viver a “amizade social”. O Papa Francisco em 2015, falando em Havana, lembrou que uma vez havia visitado uma área muito pobre de Buenos Aires. O pároco do bairro apresentou-o a um grupo de jovens que estavam construindo algumas casas: “Este é o arquitecto, é judeu; este é comunista; este é católico praticante; este é…”. O papa comentou: “Eram todos diferentes, mas todos estavam trabalhando juntos pelo bem comum”. Francisco chama essa atitude de “amizade social”, que sabe conjugar os direitos com a responsabilidade pelo bem comum, as diversidades com o reconhecimento de uma fraternidade radical. b) Uma fraternidade sem fronteiras A Fratelli tutti se abre com a evocação de uma fraternidade aberta, que permite que cada pessoa seja reconhecida, valorizada e amada para além da proximidade física, para além do lugar do universo onde nasceu ou onde vive. A fidelidade ao Senhor é sempre proporcional ao amor pelos irmãos. E essa proporção é um critério fundamental dessa encíclica: não se pode dizer que se ama a Deus se não se ama o irmão. “De facto, quem não ama o próprio irmão a quem vê, não pode amar a Deus que não vê” (1Jo 4,20) [5]. Desde as primeiras frases, destaca-se como Francisco de Assis estendeu a fraternidade não apenas aos seres humanos – e em particular aos abandonados, aos doentes, aos descartados, aos últimos, indo além das distâncias de origem, nacionalidade, cor ou religião – mas também ao sol, ao mar e ao vento (cf. nn. 1-3). O olhar, portanto, é global, universal. E assim é o fôlego das páginas do Papa Francisco. Essa encíclica não podia permanecer alheia à pandemia da Covid-19, que eclodiu inesperadamente. Para além das várias respostas dadas pelos diversos países – escreve o papa –, veio à tona a incapacidade de agir em conjunto, embora possamos nos orgulhar de estar hiperconectados. Escreve Francisco: “Oxalá já não existam ‘os outros’, mas apenas um ‘nós’” (n. 35). c) O cisma entre indivíduo e comunidade O primeiro passo que Francisco dá é o de compilar uma fenomenologia das tendências do mundo actual que são desfavoráveis ao desenvolvimento da fraternidade universal. O ponto de partida das análises de Bergoglio é frequentemente – senão sempre – aquele que ele aprendeu com os Exercícios Espirituais de Santo Inácio de Loyola, que convidava a rezar imaginando como Deus vê o mundo [6]. O pontífice observa o mundo e tem a impressão geral de que está se desenvolvendo um verdadeiro cisma entre o indivíduo e a comunidade humana (cf. n. 30). Um mundo que não aprendeu nada com as tragédias do século XX, sem senso da história (cf. n. 13). Parece haver um retrocesso: os conflitos, os nacionalismos, o senso social perdido (cfr. n. 11), e o bem comum parece ser o menos comum dos bens. Nesse mundo globalizado, estamos sozinhos, e prevalece o indivíduo sobre a dimensão comunitária da existência (cf. n. 12). As pessoas desempenham o papel de consumidores ou de espectadores, e os mais fortes são favorecidos. E assim Francisco monta as peças do quebra-cabeça que ilustra os dramas do nosso tempo. A primeira peça diz respeito à política. Nesse contexto dramático, as grandes palavras como democracia, liberdade, justiça, unidade perdem a plenitude do seu significado, e se tornam liquefeitas a consciência histórica, o pensamento crítico, a luta pela justiça e os caminhos da integração (cf. n. 14 e 110). E é duríssimo o julgamento sobre a política pelo modo como às vezes ela está reduzida hoje: “A política deixou de ser um debate saudável sobre projectos a longo prazo para o desenvolvimento de todos e o bem comum, limitando-se a receitas efémeras de marketing cujo recurso mais eficaz está na destruição do outro” (n. 15). A segunda peça é a cultura do descarte. A política reduzida a marketing favorece o fosso global e da cultura do qual é fruto (cf. n. 19-20). O quadro continua com a inserção de uma reflexão sobre os direitos humanos, cujo respeito é um pré-requisito para o desenvolvimento social e económico de um país (cf. n. 22). A quarta peça é o importante parágrafo dedicado às migrações. Se deve ser reafirmado o direito a não emigrar, também é verdade que uma mentalidade xenófoba esquece que os migrantes devem ser protagonistas do seu próprio resgate. E com força afirma: “É inaceitável que os cristãos partilhem esta mentalidade e estas atitudes” (n. 39). Depois, há a quinta peça: os riscos que a própria comunicação hoje levanta. Com a conexão digital, as distâncias se encurtam, mas se desenvolvem atitudes de fechamento e de intolerância, que alimentam o “espectáculo” encenado pelos movimentos de ódio. Em vez disso, precisamos de “gestos físicos, expressões do rosto, silêncios, linguagem corpórea e até o perfume, o tremor das mãos, o rubor, a transpiração, porque tudo isso fala e faz parte da comunicação humana” (n. 43). O pontífice, no entanto, não se limita a fornecer uma descrição asséptica da realidade e do drama do nosso tempo. A sua leitura está imersa em um espírito de participação e de fé. A visão do papa, embora atenta à dimensão sócio-política e cultural, é radicalmente teológica. A redução ao individualismo que aqui emerge é fruto do pecado. d) Um estranho na rua Apesar das densas sombras descritas nas páginas dessa encíclica, Francisco pretende fazer ecoar muitos percursos de esperança, que nos falam de uma sede de plenitude, de um desejo de tocar aquilo que preenche o coração e eleva o espírito para as grandes coisas (cf. n. 54-55). Na tentativa de buscar uma luz, e antes de indicar algumas linhas de acção, Francisco propõe dedicar um capítulo à parábola do Bom Samaritano. A escuta da Palavra de Deus é uma passagem fundamental para julgar evangelicamente o drama do nosso tempo e encontrar saídas. Assim, o Bom Samaritano se torna um modelo social e civil (cf. n. 66). A inclusão ou a exclusão dos feridos à beira da estrada define todos os projectos económicos, políticos, sociais e religiosos. O Santo Padre, de facto, não se detém no nível das escolhas individuais, mas projecta essas duas opções ao nível das políticas dos Estados. No entanto, volta sempre ao nível pessoal por temor de que nos sintamos desresponsabilizados. e) Pensar e gerar um mundo hospitaleiro: uma visão inclusiva O terceiro passo do itinerário que Francisco nos faz dar é aquele que poderíamos definir com o pontífice como o “além”, isto é, a necessidade de ir além de si mesmo. Se o drama descrito no primeiro capítulo era o da solidão do homem consumidor encerrado no seu individualismo e na passividade do espectador, é preciso encontrar uma saída. E o primeiro facto é que ninguém pode experimentar o valor da vida sem rostos concretos para amar. Aqui está um segredo da autêntica existência humana (cf. n. 86). O amor cria laços e expande a existência. Mas essa “saída” de si não se reduz a uma relação com um pequeno grupo, ou a laços familiares: é impossível entender a si mesmo sem um tecido de relações mais amplo com outros que nos enriquecem (cf. n. 88-91). Esse amor que é abertura ao “além” e “hospitalidade” é o fundamento da acção que permite estabelecer a amizade social e a fraternidade. Amizade social e fraternidade não excluem, mas incluem. Independem dos traços físicos e morais ou, como escreve o papa, das etnias, das sociedades e das culturas (cf. n. 95). A tensão é para uma “comunhão universal” (n. 95), para “uma comunidade feita de irmãos que se acolhem mutuamente e cuidam uns dos outros” (n. 96). Essa abertura é geográfica, mas mais ainda existencial. No entanto, o próprio pontífice percebe, nesse ponto, o risco de um mal-entendido, o do falso universalismo de quem não ama o próprio povo. Também é forte o risco de um universalismo autoritário e abstracto, que visa a homogeneizar, uniformizar, dominar. A protecção das diferenças é o critério da verdadeira fraternidade que não homologa, mas acolhe e faz convergir as diversidades, valorizando-as. Somos irmãos porque, ao mesmo tempo, somos iguais e diferentes: “É preciso se libertar da obrigação de ser iguais” [7]. f) A importância do multilateralismo O papa pede uma mudança de perspectiva radical não só em nível interpessoal ou estatal, mas também nas relações internacionais: a da certeza da destinação comum dos bens da terra. Essa perspectiva muda o panorama, e “podemos dizer que cada país é também do estrangeiro, já que os bens de um território não devem ser negados a uma pessoa necessitada que provenha de outro lugar” (n. 124). Além disso – continua o pontífice –, isso pressupõe outro modo de entender as relações internacionais. É claríssimo, portanto, o apelo à importância do multilateralismo, com uma verdadeira condenação de uma abordagem bilateral em que países poderosos e grandes empresas preferem negociar com outros países menores ou pobres: para obter deles maiores lucros (cf. n. 153). A chave é “nos sabermos responsáveis pela fragilidade dos outros na procura de um destino comum” (n. 115). Cuidar da fragilidade é um ponto-chave dessa encíclica. g) Um coração aberto ao mundo inteiro Francisco também fala dos desafios a serem enfrentados para que a fraternidade não permaneça somente como uma abstracção, mas ganhe corpo. O primeiro é o das migrações, a ser desenvolvido em torno de quatro verbos: acolher, proteger, promover e integrar. Com efeito, não se trata de “impor do alto programas assistenciais, mas de percorrer unidos um caminho através destas quatro acções” (n. 129). Francisco oferece indicações muito precisas (cf. n. 130). Mas, em particular, detém-se sobre o tema da cidadania, assim como havia sido abordado no Documento sobre a Fraternidade Humana para a Paz Mundial e Convivência Comum, assinado em Abu Dhabi. Falar em “cidadania” afasta a ideia de “minoria”, que carrega consigo as sementes do tribalismo e da hostilidade, e que vê no rosto do outro a máscara do inimigo. A abordagem de Francisco é subversiva com respeito às teologias políticas apocalípticas que vão se espalhando. Por outro lado, o papa evidencia o fato de que a chegada de pessoas que provêm de um contexto vital e cultural diferente se transforma em um dom para quem as acolhe: é um encontro entre pessoas e culturas que constitui uma oportunidade de enriquecimento e de desenvolvimento. E isso pode ocorrer se se permite que o outro seja ele mesmo. O critério guia do discurso é sempre o mesmo: fazer crescer a consciência de que ou nos salvamos todos, ou ninguém se salva. Toda atitude de “esterilização” e isolacionismo é um obstáculo ao enriquecimento próprio do encontro. h) Populismo e liberalismo Francisco continua o seu discurso com um capítulo dedicado à melhor política, aquela posta a serviço do verdadeiro bem comum (cf. n. 154). E aqui aborda de frente a questão do confronto entre populismo e liberalismo, que podem usar os frágeis, o “povo”, de maneira demagógica. Francisco pretende esclarecer imediatamente um mal-entendido, usando uma ampla citação duma entrevista que concedeu aquando da publicação dos seus escritos como arcebispo de Buenos Aires: “Povo não é uma categoria lógica, nem uma categoria mística, no sentido de que tudo o que faz o povo é bom, ou no sentido de que o povo seja uma entidade angelical. É uma categoria mítica. (...) Quando explicas o que é um povo, recorres a categorias lógicas porque precisas de o descrever: é verdade, elas são necessárias. Mas, deste modo, não consegues explicar o sentido de pertença a um povo; a palavra povo tem algo mais que não se pode explicar logicamente. Pertencer a um povo é fazer parte de uma identidade comum, formada por vínculos sociais e culturais. E isto não é algo de automático; muito pelo contrário: é um processo lento e difícil... rumo a um projecto comum” (n. 158) [8]. Consequentemente, essa categoria mítica pode indicar uma liderança capaz de se sintonizar com o povo, com a sua dinâmica cultural e as grandes tendências de uma sociedade a serviço do bem comum; ou pode indicar uma degeneração quando se muda na habilidade de atrair consensos para o sucesso eleitoral e para instrumentalizar ideologicamente a cultura do povo, a serviço do próprio projecto pessoal (cf. n. 159). Porém, não é preciso sequer enfatizar a categoria mítica de povo como se ela fosse uma expressão romântica e, portanto, como tal, rejeitada em favor de discursos mais concretos, institucionais, ligados à organização social, à ciência e às instituições da sociedade civil. O que une ambas as dimensões, a mítica e a institucional, é a caridade, que implica um caminho de transformação da história que incorpora tudo: instituições, direito, técnica, experiência, contribuições profissionais, análise científica, procedimentos administrativos. O amor ao próximo, de fato, é realista. Portanto, é necessário fazer crescer tanto a espiritualidade da fraternidade quanto a organização mais eficiente para resolver os problemas: as duas coisas absolutamente não se opõem. E isso sem imaginar que existe uma receita económica que possa ser aplicada igualmente a todos: até a ciência mais rigorosa pode propor caminhos e soluções diferentes (cf. n. 164-165). i) Os movimentos populares e as instituições internacionais Nesse contexto, Francisco fala tanto dos movimentos populares quanto das instituições internacionais. Parecem dois níveis opostos e divergentes de organização, mas, no fim, são convergentes na sua virtuosidade, pois valorizam o local, os primeiros, e global, os segundos, e sempre sob a insígnia do multilateralismo. Os movimentos populares “reúnem desempregados, trabalhadores precários e informais e tantos outros que não entram facilmente nos canais já estabelecidos” (n. 169). Com esses movimentos, supera-se “a ideia das políticas sociais concebidas como uma política para os pobres, mas nunca com os pobres, nunca dos pobres, e muito menos inserida num projecto que reúna os povos” (ibid). Depois, Francisco se detém sobre as instituições internacionais, hoje enfraquecidas, sobretudo porque a dimensão económico-financeira, com características transnacionais, tende a predominar sobre a política. Entre elas, a Organização das Nações Unidas, que deve ser reformada para evitar que seja deslegitimada e para que “seja possível uma real concretização do conceito de família de nações” (n. 173). Ela tem como tarefa a promoção da soberania do direito, porque a justiça é “um requisito indispensável para se realizar o ideal da fraternidade universal” (ibid.). j) A melhor política não está submetida à economia Francisco, então, se detém longamente sobre a política. Várias vezes o pontífice lamentou como ela está submetida à economia, e esta, ao paradigma eficientista da tecnocracia. Pelo contrário, é a política que deve ter uma visão ampla para que a economia seja integrada em um projecto político, social, cultural e popular que tenda ao bem comum (cf. n. 177 e 17). Fraternidade e amizade social não são utopias abstractas. Exigem decisão e a capacidade de encontrar caminhos que assegurem a sua real possibilidade, envolvendo também as ciências sociais. E esse é um “exercício alto da caridade” (n. 180). O amor, portanto, se expressa não só em relações face a face, mas também nas relações sociais, económicas e políticas, buscando construir comunidades nos diversos níveis da vida social. Trata-se daquilo que Francisco chama de amor social (cf. n. 186). Essa caridade política pressupõe o amadurecimento de um senso social em virtude do qual “cada um é plenamente pessoa quando pertence a um povo e, vice-versa, não há um verdadeiro povo sem referência ao rosto de cada pessoa” (n. 182). Em suma: povo e pessoa são termos correlatos. O amor social e a caridade política expressam-se também na plena abertura ao debate e ao diálogo com todos, até mesmo com os adversários políticos, pelo bem comum, para tornar possível a convergência pelo menos sobre alguns temas. Não é preciso temer o conflito gerado pelas diferenças, até porque “a uniformidade gera asfixia e neutraliza-nos culturalmente” (n. 191). E é possível viver isso se o político não deixar de se considerar um ser humano, chamado a viver o amor nas suas relações interpessoais quotidianas (cf. n. 193) e se souber viver, sim, a ternura. Esse vínculo entre política e ternura parece inédito, mas é realmente eficaz, porque a ternura é “o amor que se torna próximo e concreto” (n. 194). No meio da actividade política, os mais frágeis devem provocar ternura e têm o “‘direito’ de arrebatar a nossa alma, o nosso coração” (ibid.). k) Diálogo e cultura do encontro Francisco resume alguns verbos usados nessa encíclica em uma única palavra: diálogo. “Em uma sociedade pluralista”, escreve o pontífice, “o diálogo é o caminho mais adequado para se chegar a reconhecer aquilo que sempre deve ser afirmado e respeitado e que ultrapassa o consenso ocasional” (n. 211). Mais uma vez, expressa-se uma visão peculiar da amizade social, feita a partir do constante encontro das diferenças. O papa observa que este é o tempo do diálogo. Todos trocam mensagens nas Mídias sociais, por exemplo, graças à rede. No entanto, muitas vezes o diálogo se confunde com uma febril troca de opiniões, que, na realidade, é um monólogo no qual predomina a agressividade. Ele também observa com precisão que esse é o estilo que parece prevalecer no contexto político, que, por sua vez, tem um reflexo directo na vida quotidiana das pessoas (cf. 200-202). “O diálogo social autêntico pressupõe a capacidade de respeitar o ponto de vista do outro, aceitando como possível que contenha convicções ou interesses legítimos” (n. 203) [9]. Essa é a dinâmica da fraternidade, afinal, o seu carácter existencial, que “ajuda a relativizar as ideias, pelo menos no sentido de não se resignar ao facto de que um conflito decorrente de uma disparidade de pontos de vista e de opiniões prevaleça definitivamente sobre a fraternidade” [10]. Diálogo absolutamente não significa relativismo, que fique claro. Como já havia escrito na encíclica Laudato si’, Francisco afirma que, se o que importa não são as verdades objectivas nem os princípios estabelecidos, mas sim a satisfação das próprias aspirações e das necessidades imediatas, então as leis serão entendidas apenas como imposições arbitrárias e obstáculos a serem evitados. A busca dos valores mais altos sempre se impõe (cf. nn. 206-210). O encontro e o diálogo tornam-se assim uma “cultura do encontro”, que significa a paixão de um povo em querer projectar algo que envolva a todos; e que não é um bem em si, mas é um modo de fazer o bem comum (cf. nn. 216-221). l) Percursos de um novo encontro: conflito e reconciliação Francisco, então, dirige um apelo a lançar sólidas bases para o encontro e para iniciar processos de cura. O encontro não pode se fundamentar em diplomacias vazias, discursos duplos, dissimulações, formalismo... É somente a partir da verdade dos factos que pode nascer o esforço de se compreender reciprocamente e de encontrar uma síntese para o bem de todos (cf. nn. 225-226). O papa considera que a verdadeira reconciliação não foge do conflito, mas é obtida no conflito, superando-o através do diálogo e da negociação transparente, sincera e paciente (cf. n. 244). Por outro lado, o perdão não tem nada a ver com renunciar aos próprios direitos diante de um poderoso corrupto, de um criminoso ou de alguém que degrada a nossa dignidade. É preciso defender fortemente os próprios direitos e proteger a própria dignidade (cf. n. 241). Acima de tudo, não se deve perder a memória dos grandes crimes da história: “Hoje é fácil cair na tentação de virar a página, dizendo que já passou muito tempo e é preciso olhar para a frente. Isso não, por amor de Deus! Sem memória, nunca se avança” (n. 249). m) Guerra e pena de morte Nesse quadro, Francisco examina duas situações extremas que podem se apresentar como soluções em circunstâncias dramáticas: a guerra e a pena de morte. O pontífice é claríssimo ao tratar os dois casos. Em relação à guerra, ele afirma que infelizmente não é um fantasma do passado, mas uma ameaça constante. Portanto, deve ficar claro que “a guerra é a negação de todos os direitos e uma agressão dramática ao meio ambiente” (n. 257). Ele também aborda a posição do Catecismo da Igreja Católica, onde se contempla a possibilidade de uma legítima defesa por meio da força militar, com o pressuposto de demonstrar que existem algumas rigorosas condições de legitimidade moral. No entanto – escreve Francisco – facilmente caímos em uma interpretação ampla demais desse direito. Hoje, de facto, com o desenvolvimento das armas nucleares, químicas e biológicas, “conferiu-se à guerra um poder destrutivo incontrolável, que atinge muitos civis inocentes”. Portanto – e eis a conclusão do papa – “já não podemos pensar na guerra como solução, porque provavelmente os riscos sempre serão superiores à hipotética utilidade que se lhe atribua. Perante esta realidade, hoje é muito difícil sustentar os critérios racionais amadurecidos noutros séculos para falar de uma possível ‘guerra justa’. Nunca mais a guerra” (n. 258). A resposta à ameaça das armas nucleares e a todas as formas de destruição em massa deve ser colectiva e concertada, com base na confiança recíproca. E – propõe o pontífice – “com o dinheiro usado em armas e em outras despesas militares, constituamos um Fundo mundial, para acabar de vez com a fome e para o desenvolvimento dos países mais pobres, a fim de que os seus habitantes não recorram a soluções violentas ou enganadoras, nem precisem de abandonar os seus países à procura de uma vida mais digna” (n. 262). A respeito da pena de morte, Francisco retoma o pensamento de João Paulo II, que afirmou de maneira clara na encíclica Evangelium vitae (n. 56) que ela é inadequada no plano moral e não é mais necessária no plano penal. Francisco também se refere a autores como Lactâncio, Papa Nicolau I ou Santo Agostinho, que, desde os primeiros séculos da Igreja, se mostravam contrários a essa pena. E afirma com clareza que “a pena de morte é inadmissível” (n. 263), e que a Igreja se compromete com determinação a propor que ela seja abolida em todo o mundo. E o julgamento também se estende à prisão perpétua, que “é uma pena de morte escondida” (n. 268). n) As religiões a serviço da fraternidade no mundo A última parte dessa encíclica é dedicada às religiões e ao seu papel ao serviço da fraternidade. As religiões acumulam séculos de experiência e de sabedoria, e, portanto, devem participar do debate público, assim como da política ou da ciência (cf. n. 275). Por isso, a Igreja não relega sua missão à esfera privada. “É verdade”, especifica, “que os ministros da religião não devem fazer política partidária, própria dos leigos, mas mesmo eles não podem renunciar à dimensão política da existência” (n. 276). A Igreja, portanto, tem um papel público que também contribui para a fraternidade universal (cf. ibid.). A fonte da dignidade humana e da fraternidade para os cristãos, em particular, está no Evangelho de Jesus Cristo, do qual brota, tanto para o pensamento quanto para a acção pastoral, a importância fundamental da relação, do encontro, da comunhão universal com a humanidade inteira (cf. n. 277). A Igreja, “com o poder do Ressuscitado, quer dar à luz um mundo novo, onde todos sejamos irmãos, onde haja lugar para cada descartado das nossas sociedades, onde resplandeçam a justiça e a paz” (n. 278). o) Um apelo à paz e à fraternidade A Fratelli tutti se conclui com um apelo e duas orações que explicitam o seu sentido e os seus destinatários. Na realidade, o apelo é uma ampla citação do já citado documento assinado pelo papa e pelo Grão-Imã Aḥmad al-Tayyeb em Abu Dhabi, e diz respeito precisamente à convicção de que “as religiões nunca incitam à guerra e não solicitam sentimentos de ódio, hostilidade, extremismo nem convidam à violência ou ao derramamento de sangue. Estas calamidades são fruto de desvio dos ensinamentos religiosos, do uso político das religiões e também das interpretações de grupos de homens de religião” (n. 285). Entre as outras referências oferecidas no texto, notamos que o papa quis recordar em particular o Bem-aventurado Charles de Foucauld, que “queria ser ‘o irmão universal’. Mas somente identificando-se com os últimos é que chegou a ser irmão de todos” (n. 287). Para Francisco, a fraternidade é o espaço próprio do Reino de Deus, no qual o Espírito Santo pode vir, habitar e agir [11]. p) “Assim reinará Filadélfia, cidade dos irmãos” Depois de ter percorrido a Fratelli tutti, tentando enfatizar os seus temas fundamentais, gostaria de concluir citando um escritor argentino, Leopoldo Marechal, muito apreciado pelo Papa Francisco, de quem ele falou em 2013. Marechal descreveu a “cidade dos irmãos, Filadélfia” na sua obra-prima “Adán Buenosayres”, obra que narra um périplo simbólico de três dias do poeta Adán dentro da geografia de uma Buenos Aires metafísica. Reconhece-se em particular a influência de Dante no sétimo livro do romance, intitulado “Viaje a la Oscura Ciudad de Cacodelphia”, evidente paródia do Inferno. Mas passemos para Filadélfia, que – escreve Marechal – “levantará suas cúpulas e torres sob um céu tão resplandecente quanto a cara de uma criança. Como a rosa entre as flores, como o pintassilgo entre os pássaros, como o ouro entre os metais, assim reinará Filadélfia, a cidade dos irmãos, entre as urbes deste mundo. Uma multidão pacífica e regozijada frequentará as suas ruas: o cego abrirá seus olhos à luz, o que negou afirmará o que negava, o desterrado pisará a terra do seu nascimento e o maldito se verá livre no fim...” [12]. Como a rosa entre as flores, assim reinará a “cidade dos irmãos” entre as metrópoles do mundo, escreve Marechal. E Francisco, com essa encíclica, aponta directamente para a vinda do “Reino de Deus”, como rezamos no Pai-Nosso, oração que nos vê a todos irmãos, por sermos filhos de um único Pai. O sentido do Reino de Deus é a capacidade dos cristãos de colocar a boa notícia do Evangelho à disposição de toda a humanidade, de todos os homens e mulheres, sem distinção alguma, como recurso de salvação e plenitude. Nesse caso, o evangelho da fraternidade. Notas: [1] Daqui em diante, quando houver referência à encíclica, entre parênteses, será omitido o título e usado apenas o número do parágrafo. Cf. também o volume “Fratellanza”, Roma, La Civiltà Cattolica, 2020. [2] Francisco, Primeira saudação do Santo Padre, 13 de Março de 2013. [3] Surgiram algumas polémicas sobre o uso da palavra “irmãos” no masculino, como se o papa quisesse excluir a referência ao feminino. Claramente, o título da encíclica é uma citação franciscana e, portanto, é e deve permanecer como tal. Mas isso não tem nenhum carácter exclusivo. Certamente, deve-se notar que, recentemente, na França, o Alto Conselho para a Igualdade entre as Mulheres e os Homens (HCE), em vista da anunciada revisão da Constituição, propôs substituir, no lema nacional da República, a palavra fraternité por adelphité, palavra que deriva do grego e significa “fraternidade”, mas desprovida da conotação masculina, própria do termo anterior. Outros, para evitar o neologismo, propõem simplesmente solidarité . Mas veremos mais adiante a fraqueza dessa escolha, especialmente à luz do pensamento de Francisco. Cf. J. L. Narvaja, “Libertà, uguaglianza, fraternità”, in Civ. Catt., 2018, II, 394-399. [4] Francisco, Mensagem à Prof.ª Margaret Archer, presidente da Pontifícia Academia das Ciências Sociais, 24 de Abril de 2017. [5] O tema atravessa o pontificado de Francisco e, portanto, também o seu magistério. Bastaria lembrar aqui algumas breves passagens de maneira exemplar. Francisco escreveu na sua exortação Amoris Laetitia: “Deus confiou à família o projecto de tornar ‘doméstico’ o mundo, de modo que todos cheguem a sentir cada ser humano como um irmão” (n. 183). E na Gaudete et exultate: “No meio da densa selva de preceitos e prescrições, Jesus abre uma brecha que permite vislumbrar dois rostos: o do Pai e o do irmão. Não nos dá mais duas fórmulas ou dois preceitos; entrega-nos dois rostos, ou melhor, um só: o de Deus que se reflete em muitos, porque em cada irmão, especialmente no mais pequeno, frágil, inerme e necessitado, está presente a própria imagem de Deus” (n. 61). Na Christus vivit: “Correi ‘atraídos por aquele Rosto tão amado, que adoramos na sagrada Eucaristia e reconhecemos na carne do irmão que sofre’” (n. 299). Na encíclica Laudato si’, o tema volta com frequência. Por exemplo: “São Boaventura, seu discípulo, contava que ele [Francisco], ‘enchendo-se da maior ternura ao considerar a origem comum de todas as coisas, dava a todas as criaturas – por mais desprezíveis que parecessem – o doce nome de irmãos e irmãs’” (n. 11). [6] Cf. Inácio de Loyola s., Exercícios espirituais, nn. 103-106. [7] Francisco, exortação apostólica Amoris laetitia, n. 139 [8] A. Spadaro, “Le orme di un pastore. Una conversazione con Papa Francesco”, in J. M. Bergoglio/Papa Francesco, Nei tuoi occhi è la mia parola. Omelie e discorsi di Buenos Aires 1999-2013, Milão: Rizzoli, 2016, XVI. [9] Cf. Inácio de Loyola s., Exercícios espirituais, n. 22 [10] D. Fares, “La fratellanza umana. Il suo valore trascendentale e programmatico nell’itinerario di papa francesco”, in Civ. Catt., 2019, III, 119. [11] Cf. D. Fares, “La fratellanza umana”, cit., 122. [12] L. Marechal, Adàn Buenosayres, Florença: Vallecchi, 2010, 342 s. 3 – 7 ENSINAMENTOS DA FRATELLI TUTTI Na “Fratelli Tutti”, o Papa Francisco faz uma convocação a vivermos unidos em uma grande comunidade global. O chamamento do Santo Padre teve ampla repercussão na sociedade e suscitou em muitas pessoas à reflexão: quais são os caminhos possíveis para seguirmos em direcção a um mundo mais justo e fraterno? 1- Consciência sobre o mundo O Papa concentra um esforço na encíclica em fazer uma avaliação de factores que dificultam o desenvolvimento da fraternidade universal. Ele reflecte que depois de um período de avanços em direcção à união das nações, o mundo voltou a ter sinais de retrocesso. “Encontramo-nos mais sozinhos do que nunca neste mundo massificado, que privilegia os interesses individuais e debilita a dimensão comunitária da existência” (FT, 12). Falta de consciência histórica, a estratégia política da polarização e desagregação das pessoas em alguns países, a falta de um projecto que abranja a todos e a desvalorização de determinados grupos de pessoas, como os idosos e imigrantes, são alguns dos pontos enfatizados por Francisco. 2- A esperança O Papa Francisco também convoca as pessoas a ouvirem a voz dos percursos de esperança possíveis de serem traçados. O amor é o ponto em comum a todos esses caminhos. “Crescemos em muitos aspectos, mas somos analfabetos no acompanhar, cuidar e sustentar os mais frágeis e vulneráveis das nossas sociedades desenvolvidas” (FT, 64). 3-Empatia para com o próximo Francisco reflecte na “Fratelli Tutti” que o amor universal pressupõe uma capacidade de nos abrirmos para o próximo. Para o papa, Jesus não nos ensinou a perguntar quem é nosso vizinho, mas sim a nos tornarmos vizinhos próximos dos outros. “A proposta é fazer-se presente a quem precisa de ajuda, independentemente de fazer parte ou não do próprio círculo de pertença”.(FT, 81) Nesse ponto, Francisco incentiva a empatia com os imigrantes do mundo inteiro. Ele clamou que as pessoas nessa situação sejam acolhidas, protegidas, promovidas e integradas. 4- Um mundo melhor requer uma política melhor O Santo Padre mencionou a política como um espaço importante na solução dos problemas vividos pelo mundo, onde a representatividade das pessoas deve ser colocada verdadeiramente a serviço do bem comum. “É necessário fazer crescer não só uma espiritualidade da fraternidade, mas também e ao mesmo tempo uma organização mundial mais eficiente para ajudar a resolver os problemas prementes dos abandonados que sofrem e morrem nos países pobres” (FT, 165). 5- Diálogo permanente O Papa enfatizou também que a construção de uma sociedade melhor exige diálogo. Ele chamou de “heróis do futuro” aqueles que conseguirem quebrar a lógica da sociedade actual de não conseguir estabelecer pontos de convergência. Para isso, o Santo Padre alerta que será preciso ultrapassar as conveniências pessoais, com a sustentação de uma palavra respeitosa e com palavras densas em verdade. “O diálogo perseverante e corajoso não faz notícia como as desavenças e os conflitos; e contudo, de forma discreta mas muito mais do que possamos notar, ajuda o mundo a viver melhor” (FT, 198). 6- Partir sempre da verdade Na recta final da carta, o papa reflecte que muitos países carecem do que ele chamou de “artesãos de paz prontos a gerar, com inventiva ousadia, processos de cura e de um novo encontro.” Isso passa pela construção de uma memória de penitência, “capaz de assumir o passado para libertar o futuro”. “O percurso para a paz não implica homogeneizar a sociedade, mas permite-nos trabalhar juntos. Pode unir muitos nas pesquisas comuns, onde todos ganham” (FT, 228). Na visão de Francisco, o processo de construção de paz está directamente ligado com o perdão e é um compromisso perpétuo com o diálogo. E isso não apenas em relação a grupos rivais que até mesmo guerrearam entre si. As “desigualdades e a falta de desenvolvimento humano” também geram feridas que impedem a construção da paz, na visão do papa. “Aqueles que perdoam de verdade não esquecem, mas renunciam a deixar-se dominar pela mesma força destruidora que os lesou” (251). 7- As Religiões ao serviço da fraternidade Por fim, para fechar os destaques da encíclica “Fratelli Tutti”, o papa Francisco deu alguns dos maiores exemplos na promoção da aproximação e tolerância entre diferentes religiões. Já visitou pessoalmente Bartolomeu, o Patriarca da Igreja Ortodoxa e o Grande Imão Ahmad Al-Tayyeb, um dos principais líderes muçulmanos. Na encíclica, o Santo Padre suplicou: “Existe um direito humano fundamental que não deve ser esquecido no caminho da fraternidade e da paz: é a liberdade religiosa para os crentes de todas as religiões”. (279). A encíclica “Fratelli Tutti” do Papa foi um convite inspirador a nos empenharmos na construção de um mundo melhor. Então, vamos juntos praticar a fraternidade universal!!! CONCLUSÃO “FRATELLI TUTTI”: DOIS CAMINHOS O caminho da consagração implica, por exemplo: falar da encíclica, mais ou menos encomiasticamente; comentá-la, mais ou menos academicamente; inseri-la na doutrina social da Igreja (DSI), no pensamento social cristão, religioso em geral ou laico; inseri-la na formação, no ensino e na investigação católicas; contribuir para o seu estudo noutras confissões religiosas e em instituições laicas… Tudo isto é natural e necessário; porém, corre o sério risco de não respeitar a intenção do Autor, que deseja por certo contribuir para actuações pessoais, comunitárias, institucionais, políticas e outras promotoras de “fraternidade e amizade social” efectivas. 1. O caminho da acção dos católicos, e de outras pessoas motivadas pela encíclica, implica nomeadamente: o seu estudo; o confronto das suas propostas com as realidades socioeconómicas, ecológicas e políticas; a ponderação das diferentes opções ideológicas e técnicas para a solução dos problemas diagnosticados nesse confronto; a procura efectiva de soluções – imediatas e de fundo – para eles; e avaliações periódicas. Tudo isto deveria ocorrer através da reflexão e do diálogo, admitindo como natural o pluralismo dos seus participantes e, com ele, a eventual militância em correntes de pensamento, partidos políticos e organizações de classe, ou outras, diferentes. Parece recomendável que as reflexões dialogadas tendam para posições comuns, no domínio dos princípios doutrinários; e parece natural que mantenham, em maior ou menor grau, as diferenças de posicionamentos sociopolíticos. Felizmente, encontra-se excluída, no plano doutrinário, a existência de partidos católicos, por implicarem um grave empobrecimento do pluralismo e a confusão da mensagem cristã com opções discutíveis e parciais (Compêndio da Doutrina Social da Igreja, nºs. 573-574; cf. encíclica Mater et Magistra, de João XXIII, nº. 238; constituição pastoral Gaudium et Spes, do Concílio Vaticano II, nº 43; e encíclica Octogesima Adveniens, de Paulo VI, nºs. 4 e 50). 2. Seria altamente estimulante a criação de círculos de diálogo e intervenção (com este ou outro nome), no maior número possível de dioceses, paróquias, outras organizações ou independentemente de enquadramento institucional. Eles destinar-se-iam precisamente à reflexão, diálogo e intervenção sociopolítica atrás referidas. Como frutos do seu trabalho poderíamos esperar: o conhecimento e aprofundamento da DSI (Doutrina Social da Igreja) e do pensamento social cristão; a clarificação, complementaridade e eventual aproximação de posicionamentos diferentes; um exemplo visível de pluralismo sadio; melhor actuação de cada participante na vida local, profissional e sindical, empresarial e patronal, socioeconómica, cultural e política em geral. De facto, a intervenção cristã na melhoria do mundo e na transformação de estruturas não se pode limitar a enunciados doutrinários, mas precisa de uma verdadeira inserção plural no interior das realidades terrestres (cf. constituição Lumen Gentium, nºs. 31 e 36, e decreto Apostolicam Actuositatem, nºs. 5,7 e 13, ambos do Concílio Vaticano II). 3. Mais tarde, a partir destas iniciativas, poderá intensificar-se e organizar-se o “grande movimento”, de base laical, reconhecido por João Paulo II na encíclica Centesimus Annus, nº. 3?… – Registe-se que, nesta linha de rumo, Francisco defende a “fraternidade universal” como orientação de fundo, na encíclida Laudato Si’, nº. 228; esta mesma fraternidade vem agora aprofundada e desenvolvida na Fratelli Tutti. “Este é o desafio actual, de que não devemos ter medo. Nos momentos de crise, a opção torna-se premente: poderíamos dizer que, neste momento, quem não é salteador e quem não passa ao largo, ou está ferido ou carrega aos ombros algum ferido.”(FT 70). Gabela, 30 de Janeiro de 2021 KD (MBN)

sábado, 2 de janeiro de 2021

 

Santa Sé: garantir vacinas a todos é uma questão de justiça

30/12/2020

Documento conjunto da Comissão Vaticana Covid-19 e da Pontifícia Academia para a Vida: é uma responsabilidade moral aceitar a vacina não só para a saúde individual, mas também para a saúde pública.

As vacinas foram desenvolvidas como um bem público e devem ser fornecidas a todos de maneira justa e equitativa, dando prioridade àqueles que mais necessitam. É o que recordam a Comissão Vaticana Covid-19 e a Pontifícia Academia para a Vida num documento conjunto, divulgado nesta terça-feira (29/12), destacando o papel essencial das vacinas para vencer a pandemia. Lembrando a recente mensagem de Natal do Papa, o texto exorta os líderes mundiais a resistirem à tentação de aderir a um “nacionalismo das vacinas” e os Estados e empresas a colaborar e não competir uns com os outros. As vacinas, para que “possam iluminar e trazer esperança ao mundo inteiro, devem estar à disposição de todos”, disse o Pontífice no dia 25 deste mês.

Princípios

Justiça, solidariedade e inclusão são os principais critérios a serem seguidos a fim de enfrentar os desafios colocados por esta emergência planetária. “As empresas que podem ser avaliadas de maneira positiva”, disse o Santo Padre na audiência geral de 19 de agosto passado, “são aquelas que contribuem para a inclusão dos excluídos, a promoção dos menos favorecidos, ao bem comum e ao cuidado da criação”. A bússola imprescindível é o horizonte amplo ligado aos princípios da Doutrina Social da Igreja, “como a dignidade humana e a opção preferencial pelos pobres, a solidariedade e a subsidiariedade, o bem comum e a salvaguarda da casa comum, a justiça e o destino universal dos bens”.

Pesquisa, produção e materiais biológicos

Não é apenas o momento final da administração da vacina que precisa ser considerado. Todo seu “ciclo de vida” deve ser considerado. As primeiras etapas deste percurso dizem respeito à pesquisa e à produção. Uma questão, que é frequentemente levantada, diz respeito aos materiais biológicos utilizados no desenvolvimento de vacinas. “Das informações disponíveis”, lê-se no documento, “parece que apenas algumas das vacinas agora próximas à aprovação empregam em várias etapas do processo linhas celulares de fetos abortados voluntariamente há algumas décadas, enquanto outras fazem um uso limitado apenas a fases pontuais de testes de laboratório”. A Pontifícia Academia para a Vida voltou ao tema em duas notas, em 2005 e 2017, respectivamente. Na segunda, se  excluiu que “há uma cooperação moralmente relevante entre aqueles que hoje usam essas vacinas e a prática do aborto voluntário”. Portanto, lê-se no documento, considera-se que podem ser aplicadas “todas as vacinas clinicamente recomendadas com a consciência segura de que o uso dessas vacinas não significa uma cooperação ao aborto voluntário”. Não obstante o compromisso comum de garantir que cada vacina não tenha referência para sua preparação a nenhum material de origem abortivo, se reitera a responsabilidade moral da vacinação a fim de não causar graves riscos à saúde das crianças e da população em geral”.

Patentes

A questão da produção também está ligada à questão do patenteamento da vacina, não um recurso natural, mas “uma invenção produzida pelo engenho humano”. Dada sua função, sublinha o documento, é oportuno interpretar a vacina “como um bem ao qual todos têm acesso, sem discriminação, segundo o princípio do destino universal dos bens, também mencionado pelo Papa Francisco”. Como disse o Pontífice em sua mensagem de Natal, “não podemos deixar que o vírus do individualismo radical nos vença e nos torne indiferentes ao sofrimento de outros irmãos e irmãs, colocando as leis do mercado e das patentes de invenção acima das leis do amor e da saúde da humanidade”. “O único objetivo da exploração comercial”, lembra o documento da Comissão Vaticana Covid-19 e da Pontifícia Academia para a Vida, “não é eticamente aceitável no campo da medicina e da saúde. Os investimentos no campo médico devem encontrar seu significado mais profundo na solidariedade humana”. É necessário identificar “sistemas apropriados que favoreçam a transparência e a colaboração, e não o antagonismo e a competição”. É preciso superar toda forma de “nacionalismo vacinal” relacionada à tentativa dos diferentes Estados “de ter sua própria vacina em tempos mais rápidos”. A produção industrial da vacina poderia tornar-se “uma operação de colaboração entre Estados, empresas farmacêuticas e outras organizações”.

Aprovação e administração

Após as fases experimentais, outra etapa crucial diz respeito à aprovação, sob condições de emergência, da vacina pelas Autoridades responsáveis “que permitem que ela seja colocada no mercado e utilizada em diferentes países”. “É necessário coordenar os procedimentos necessários para alcançar tal objetivo e promover a colaboração entre as autoridades reguladoras”. Com relação à administração, a Comissão Vaticana Covid-19 e a Pontifícia Academia para a Vida apoiam posições convergentes sobre as prioridades “a serem reservadas a categorias profissionais engajadas em serviços de interesse comum, em particular os profissionais de saúde, mas também em outras atividades que requerem contato com o público para serviços essenciais (como escolas, segurança pública), a grupos de indivíduos mais vulneráveis (como idosos e doentes com patologias particulares). Este critério, aponta o documento, não resolve todas as situações. “Resta, por exemplo, a área cinza de possíveis prioridades a serem estabelecidas dentro do mesmo grupo em risco”. A distribuição de vacinas também requer um série de instrumentos que permitam a “acessibilidade universal”. Um programa de distribuição precisa ser desenvolvido “que leve em conta a colaboração necessária para enfrentar os obstáculos logístico-organizacionais em áreas pouco acessíveis (cadeia de frio, transporte, agentes de saúde, uso de novas tecnologias, etc.)”. A Organização Mundial da Saúde continua sendo “um importante ponto de referência a ser fortalecido e melhorado para aqueles aspectos que estão se mostrando insuficientes e problemáticos”.

Vacinação e questões éticas

Sobre a responsabilidade moral de se submeter à vacinação, a Comissão Vaticana Covid-19 e a Pontifícia Academia para a Vida reiteram que esta questão envolve “uma relação entre saúde pessoal e saúde pública, mostrando sua estreita interdependência”. A recusa da vacina também pode representar um risco para outros. “Isto vale mesmo que, na ausência de alternativa, a motivação fosse evitar extrair benefícios dos êxitos de um aborto voluntário”. Lembra-se, entre outras coisas, que “ficar doente leva a um aumento de hospitalizações, resultando em uma sobrecarga para os sistemas de saúde, até um possível colapso, como está acontecendo em vários países durante esta pandemia, dificultando o acesso aos cuidados de saúde, mais uma vez às custas daqueles com menos recursos”.

Plano de ação

Uma vacina segura, eficaz e disponível para todos, especialmente para os mais vulneráveis, e a um preço que permita uma distribuição equitativa. Estas são as prioridades para assegurar uma cura global que também “leve em conta e valorize” as situações locais: “Pretende-se desenvolver”, lê-se no documento, “recursos para auxiliar as Igrejas locais na preparação desta iniciativa e protocolos de tratamento para determinadas comunidades”. A Igreja se coloca a serviço da “cura do mundo”, usando suas vozes, espalhadas por todo o planeta, “para falar, exortar e ajudar a contribuir para garantir que vacinas e cuidados de qualidade sejam disponíveis para a nossa família global, especialmente para as pessoas vulneráveis”.

Construir um mundo pós-Covid

O prefeito do Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral, cardeal Peter Turkson, expressa sua gratidão “à Comunidade científica por desenvolver a vacina em tempo recorde”. “Agora cabe a nós”, acrescenta ele, “garantir que esteja disponível para todos, especialmente os mais vulneráveis. É uma questão de justiça”. “Devemos mostrar, de uma vez por todas, que somos uma única família humana”. O arcebispo Vincenzo Paglia, presidente da Pontifícia Academia para a Vida, enfatiza que a pandemia evidenciou a condição de “interconexão que une a humanidade”. “Junto com a Comissão, estamos trabalhando com muitos parceiros para revelar as lições que a família humana pode aprender e desenvolver uma ética de risco e solidariedade para proteger os mais vulneráveis da sociedade”. “O que acaba de começar é uma fase crucial”, explica dom Bruno Marie Duffé, secretário do Dicastério para o Serviço de Desenvolvimento Humano Integral. “Estamos em um momento decisivo na pandemia da Covid-19 e temos a oportunidade de começar a definir o mundo que queremos ver depois da pandemia”. “A forma como as vacinas são distribuídas”, sublinha por fim o pe. Augusto Zampini, secretário adjunto do mesmo Dicastério, “é o primeiro passo que os líderes globais devem dar em seu compromisso com a equidade e a justiça como princípios para a construção de um mundo melhor pós-Covid”.

Fonte: vaticannews.va