Pasárgada

…Cheguei no momento da criação do mundo e resolvi não existir. Cheguei ao zero-espaço, ao nada-tempo, ao eu coincidente com vós-tudo, e conclui: No meio do nevoeiro é preciso conduzir o barco devagar.


Serei o que fui, logo que deixe de ser o que sou; porque quando fui forçado a ser o que sou, foi porque era o que fui.

Pesquisar em

Páginas

terça-feira, 10 de janeiro de 2012


O PENSAMENTO KANTIANO E SUA FILOSOFIA CRÍTICA I
Com este título, queremos aqui dar uma vista de olhos à Obra de Kant, apresentando as indeias principais que ele nos deixou, contextualizando-as na história da Filosofia Ocidental. É extrato de um texto resultante de pesquisas e reflexões que temos feito sobre a herança filosófica que Kant nos deixou.
Falando de filosofia crítica kantiana estamos em sua arquitetônica filosófica – as chamadas Críticas (Crítica da Razão Pura, Crítica dos Costumes e Crítica do Juízo).
Devemos considerar, desde início que a Obra de Kant, geralmente, é dividida em duas grandes fases, a primeira, chamada Pré-Crítica, que vai de 1755 a 1770, e a segunda de Criticismo, de 1781 até 1790. Na fase pré-crítica, Kant debate todo tipo de tema, indo desde a teoria do céu - História Universal da Natureza e Teoria do Céu, publicado anonimamente em 1755 – até os silogismos de lógica clássica – Acerca da Falsa Sutileza das Quatro Figuras do Silogismo (1762). Aqui, não há ainda uma organização sistemática dos conceitos e idéias trabalhados. Mas já podem ser notadas noções que serão mobilizadas e sistematicamente agrupadas, mais tarde. A partir de sua famosa Dissertação de 70, ou Acerca da Forma e dos Princípios do Mundo Sensível e do Mundo Inteligível, Kant lança a linha de pesquisa e os conceitos principais que orientarão o plano arquitetônico de sua fase crítica, ao mesmo tempo em que conseguia uma almejada colocação na Universidade de Koenigsberg.
Durante os onze anos que se seguiram, monta então um método de análise das questões metafísicas que só terá seus alicerces expostos por inteiro na primeira crítica, a Crítica da Razão Pura (1781, doravante CRP). Com CRP, fica estabelecida a divisão fundamental das faculdades do pensamento em três partes: conhecimento, juízo e razão. O conhecimento da natureza objetiva das coisas é tratado pela própria CRP. A razão e suas idéias de liberdade e vontade boa são abordadas na Crítica da Razão Prática (1788). À Crítica da Faculdade de Julgar(1790, doravante CJ), restou o tratamento dos limites da formação de proposições técnicas e da arte, ao realizarem um fim na natureza.
Em sua fase crítica, Kant escreveu vários outros opúsculos – de "O Que é Esclarecimento?", de 1783, até Lógica (1800) - que preparavam a passagem de uma etapa da crítica para outra; divulgava os pontos principais de seu método; além de debater as disciplinas da história, do direito, política, educação, religião, antropologia e lógica, sempre sob a ótica do criticismo.
Os textos de Kant diretamente relacionados com a arte são o opúsculo pré-crítico“Observações sobre o Sentimento do Belo e do Sublime” (1764) e a Crítica do Juízo (CJ). Porém, a CRP traz definições importantes acerca do conceito de estética e do papel da imaginação que, se forem ignoradas, podem gerar interpretações equivocadas em relação à sua concepção de arte. Em Observações, são relacionadas várias noções, hipóteses e exemplos de sentimentos de gosto e moral. O texto carece de definições mais precisas. As duas primeiras seções esboçam uma teoria do gosto e da moral, enquanto as terceira e quarta seções traçam uma visão antropológica dos caracteres humanos, a qual foi alvo de ataques das feministas, no século XX. Contudo, sua leitura serve como roteiro inicial dos conceitos e idéias que serão melhor trabalhados na CJ. São visíveis as influências dos filósofos escoceses, o que lhe valeu a alcunha de “Hume prussiano”. Em suma, são os projetos de uma futura crítica da razão prática e do gosto que se encontram ali.
Na "Estética" e na "Lógica Transcendental", que subdividem a CRP, há uma definição de estética, como forma da sensibilidade, que difere radicalmente do uso comum do termo lançado por Baumgarten. Para Kant, os juízos relacionados à arte dizem respeito à faculdade do juízo e formação do gosto (teoria da arte, como técnica de realização de um fim da natureza). Por outro lado, a estética kantiana visa definir os limites da sensibilidade na forma dos conceitos de espaço e tempo, que antecedem a toda experiência sensível. Além disso, a CRP faz a classificação das faculdades mentais; da imaginação, razão, entendimento e sensibilidade, bem como as definições conceituais que servem de base a todo sistema kantiano, incluindo a CJ.
Na CJ, essas classificações reaparecem ao mesmo tempo em que se busca apontar a finalidade da natureza humana, antecipando a resposta à pergunta “o que é o homem?”, que só aparecerá publicada na Lógica. Tal como nas Observações, é um passo para sua antropologia filosófica, mas agora sistemático e consistente. Aqui, se encontram as limitações de universalização dos juízos de gosto, em seu lugar sendo postulada, entretanto uma generalização argumentada. É o famoso conflito entre objetividade e subjetividade que atravessa toda arte moderna. A solução recairá sobre a tentativa de consenso. Um achado que influenciará Hannah Arendt (1906-1975) e Juergen Habermas dois séculos depois. Também é discutido o papel dos interesses e definidos o belo e o sublime. Por fim, há uma caracterização do gênio artístico que incendiará as mentes de Hegel e Schopenhauer, forjando todo movimento romântico do século XIX.
Observações e Primeira Crítica
Embora as Observações sejam consideradas obra da juventude de Kant, o fato é que seu autor já completava 40 anos na época de sua publicação. A razão pela qual não se permite incluir os artigos deste período entre os textos maduros decorre do método rigoroso estabelecido pelo próprio Kant para expor seu pensamento, após a Dissertação de 70. Por conta disso, os títulos anteriores a 1770 são geralmente caracterizados como assistemáticos e carentes de definições mais precisas em vários campos.
Contudo, autores, como Hannah Arendt, chamam atenção para a importância desses pequenos ensaios iniciais quando se trata de interpretar os últimos textos da fase crítica ou os temas que só foram abordados em pormenor no final da vida de Kant, afetada aqui e ali pela senilidade. As questões ligadas à arte estão entre aquelas atingidas por essas circunstâncias. Depois das Observações, Kant só veio trabalhar diretamente o assunto em 1790, com a publicação de CJ, sua terceira e última grande obra crítica.
As Observações são ainda marcadas pela influência do conceito de benevolência de David Hume (1711-1776), bem como todas as teorias sobre o sentimento moral debatidas desde o lorde e filósofo inglês Anthony Ashley Cooper (terceiro conde de Shaftesbury, 1671-1713), autor de Investigações sobre a Virtude (1699), até o filósofo e economista escocês Adam Smith (1723-1790) - Teoria dos Sentimentos Morais (1759). Kant ainda se percebia próximo às origens escocesas de sua família, a ponto de ser chamado de “Hume prussiano” pelo teólogo alemão Johann Georg Hamann (1730-1788), um conterrâneo seu. Não obstante, na passagem para o criticismo, toda essa presença dos sentimentos morais será minimizada em função dos ditames da razão. É só no final da Fundamentação da Metafísica dos Costumes (1785) que haverá uma ligeira retomada dos sentimentos como motivação relevante para moralidade [1], mas que logo se desfaz com o lançamento da Crítica da Razão Prática (1788), onde perdem lugar em definitivo para o faktum da razão.
Nas Observações, as concepções de arte estão misturadas com moral, antropologia e mesmo com política – caso se aceite a tentativa de Arendt resgatar aspectos sociológicos em Kant, desde a fase pré-crítica [2]. Para quem pretende investigar a teoria da arte kantiana, entretanto, faz-se necessário procurar refinar suas primeiras concepções sobre o tema, a fim de evitar distorções na leitura posterior dos mesmos conceitos na CJ. Além do mais, tratam-se de meras observações ou descrições e não de argumentação ou justificação filosófica.
Ao longo das três críticas, as faculdades mentais humanas foram sendo criteriosamente classificadas. A CRP procurou delimitar o alcance da razão, enquanto buscava um fundamento seguro para a produção do conhecimento racional. A Crítica da Razão Prática expôs a faculdade da razão prática e sua capacidade de formular leis que orientassem a ação humana. Por fim, a CJ visou apresentar o método de subsunção dos conceitos aos fenômenos e a consequente formação de juízos de avaliação, incluindo o gosto artístico.
Observações de um Filósofo
Logo no primeiro parágrafo do ensaio de 1764, as sensações de prazer são consideradas atributos próprios dos seres humanos, um sentimento que lhes seria interno, e nunca o efeito de uma característica qualquer das coisas externas. Com isso, Kant descartava de imediato toda teoria das formas platônicas que colocasse a beleza em um mundo harmônico ideal, completamente independente do sujeito. Porém, ao propor critérios de avaliação de modo subjetivo, um velho problema ressurge toda vez que se postula valores artísticos objetivos perante outro sujeito. Só depois de descartadas as soluções sentimentalistas dos escoceses, um quarto de século mais tarde, é que tentou Kant resolver a questão da objetividade apelando a uma solução de compromisso pela plausibilidade, através de um consenso discursivo, na CJ.
Enquanto essa resposta comunicativa não vinha, a universalização dos valores, em arte, seguiu a sugestão de Francis Hutcheson (1694-1746), Hume e outros que defendiam sentimentos naturais partilhados pela maioria da humanidade, sem mais se argumentar em favor de critérios tão subjetivos. Subjetividade, aliás, que seria uma constante em toda arquitetônica kantiana. Assim, nas duas primeiras críticas, o fato da racionalidade passará a ser suficiente para garantir a objetividade do conhecimento e deveres morais impostos pela faculdade da razão. Já na terceira crítica, por se tratar do gosto, o apelo a uma faculdade de julgar não será o bastante para apontar um objeto ou juízo valorativo capaz de ascender a universalização, sem a observância de uma finalidade na natureza (teleologia), ou pelo menos um consenso argumentado.
Antes de chegar a essa conclusão, nas Observações, Kant expõe apenas o ponto de vista de um observador comum que se abstém de argumentar como filósofo ao descrever o sentimento do belo e do sublime. À primeira vista, percebe-se, no entanto, que os candidatos ao gosto refinado precisam atender a certos requisitos, como, por exemplo, estar o mais distante possível das inclinações [3]. Os sentimentos do belo e do sublime teriam por função proporcionar sensações para coisas agradáveis e leves; bem como para objetos imponentes e intensos, respectivamente. Ou seja, para fruição da beleza e contemplação do sublime. Esses sentimentos, por sua vez, estariam relacionados a três temperamentos típicos: o melancólico, o sanguíneo e o colérico, sendo os fleumáticos considerados completamente destituídos de sentimentos morais.
A partir da segunda seção, o entendimento é posto ao lado das coisas sublimes, enquanto as habilidades práticas são vinculadas ao belo. Estas e outras tantas classificações arbitrárias implicariam também na possibilidade de se considerar belos e sublimes aspectos contraditórios, viciosos e a fraqueza moral, ressalvadas as deliberações da razão em contrário. Nesses casos, fica flagrante alguma dose de relativismo nas definições do gosto que Kant não tenta refutar àquela altura, nem explicar [4]. Mas fica também evidente que uma atribuição superficial do belo e do sublime pode ser feita sempre que esta for calcada em aparências ou condição social, nas deliberações sobre o assunto.
Para haver um equilíbrio nas ponderações, é preciso que se recorra a uma harmonia nas proporções que seja própria à natureza humana [5]. Nesse sentido, sempre que se seguisse princípios adequados poder-se-ia chegar ao sublime. Porém, as virtudes que conduzissem ao cumprimento do dever e à inclusão universal da humanidade seriam pertinentes ao sublime. Surge aqui, então, a necessidade básica de se encontrar regras restritivas das ações e das influências das inclinações, no intuito de permitir o florescimento da verdadeira virtude (amor universal pela humanidade - [6]).
Moral e arte misturam-se em função da dignidade humana, orientando as escolhas que considerem os interesses de todos. Tais sentimentos sublimes seriam encontrados em pessoas com caráter melancólico. Ao passo que, os sanguíneos e os coléricos tenderiam ao belo. Já os fleumáticos seriam desprovidos de sentimentos refinados.
Em suma, as duas primeiras seções das Observações mostram, em geral, que, para se alcançar o sublime, alguns elementos críticos sugeridos são necessários, tais como conexões entre as sensações e o entendimento, vinculação a princípios, universalização dos interesses, restrições às inclinações e um projeto da natureza para os seres humanos.
O Conceito de Estética
A sistematização de todas essas concepções começa a partir da CRP. O plano arquitetônico esboçado por Kant obrigou, entretanto, que se rejeitasse as iniciativas pioneiras de Alexander G. Baumgarten, sobretudo no que dissesse respeito ao conceito de estética. Em sua obra monumental Aesthetica (1750/58), Baumgarten havia proposto uma definição para o termo “estética” como a ciência das coisas sensíveis, incluindo aí a faculdade de julgar e a possibilidade de se chegar ao aperfeiçoamento do conhecimento sensitivo [7].
Kant opôs-se a esse projeto e, na CRP, restringiu o uso do termo “estética” apenas à consideração das formas da sensibilidade, única parte da crítica do gosto digna de ser considerada científica, isto é, capaz de contribuir para formação das leis a priori do conhecimento, em geral. Quanto à faculdade de julgar, ou o Juízo, caberia ainda um lugar de destaque na Crítica, mas a análise completa dedicada apenas ao gosto só apareceria na publicação da CJ, nove anos mais tarde.
O objetivo de Kant na primeira crítica era encontrar uma base sólida para a metafísica, ou do conhecimento filosófico puro. Kant pensava que a física, a matemática e a geometria de seu tempo já haviam encontrado formas de conhecimento que satisfizessem seu estatuto científico, enquanto a metafísica não era capaz de fornecer, sequer, um juízo sintético a priori. Com isso, Kant queria dizer que para uma atividade ser considerada científica era preciso que esta apresentasse proposições, ou enunciados, que fornecessem informações adicionais sobre o sujeito estudado e, além disso, que transcendessem a qualquer experiência, isto é, que fossem entendidas sem o recurso das relações aparentes das coisas materiais, mas passíveis de universalização. Tal juízo deveria estar livre do contato com a experiência, para ser um instrumento preciso da razão humana. A posse de um conhecimento puro seria importante para qualquer ciência, uma vez que tal conhecimento garantiria a sua necessidade e fundamentação para suas hipóteses.
Todas as ciências teóricas - a matemática, geometria e a física -, imaginava Kant, teriam juízos sintéticos a priori como seus princípios fundamentais, caberia agora à metafísica encontrar seus princípios sintéticos uma vez que ela teria como fonte apenas o conhecimento puro a priori. O passo seguinte para solucionar esse problema seria descrever a estrutura da razão que produz tais juízos. Na "Doutrina Transcendental dos Elementos", primeira divisão da CRP, Kant apresentou em primeiro lugar uma "Estética Transcendental", onde mostrava os princípios da sensibilidade a priori. A sensibilidade, nesse sentido, seria a capacidade de receber representações dos objetos percebidos. Através da sensibilidade os objetos são dados e a intuição empírica é fornecida, de acordo com as sensações provocadas pelos objetos. Os objetos da intuição empírica são chamados fenômenos. Os conceitos relativos aos fenômenos são gerados pelo entendimento, tendo por base apenas as intuições da sensibilidade. Além das intuições empíricas, a sensibilidade forneceria as intuições puras como formas próprias, não dependentes de um objeto real dos sentidos, mas a condição para que estes sejam percebidos em sua figura e duração. Tais intuições puras a priori seriam o sentido externo do espaço, onde os objetos são representados como sendo do lado de fora do sujeito, e o sentido interno do tempo que representa dentro do sujeito a sensação de passagem ou permanência de um objeto. Tempo e espaço não seriam conceitos empíricos, mas a condição da sensibilidade para que a experiência se tornasse possível, portanto, antecedendo a esta.
Logo, na Estética Transcendental, a sensibilidade ocupa um lugar central como a faculdade receptiva das representações em seu contato com o mundo empírico. Destarte, produziria intuições que depois de serem sintetizadas pelo entendimento, gerariam conceitos sensíveis ou puros. Quando puras, as intuições corresponderiam às formas da sensibilidade que abrem passagem para as coisas externas e internas, por meio do espaço e do tempo, respectivamente. Estes são os principais conceitos da sensibilidade, existentes antes de qualquer experiência (a priori), que autorizam conceber a estética transcendental como uma ciência da faculdade representativa, tal como Kant entendia as ciências, no lugar da estética geral, ou crítica do gosto, que ele criticava em Baumgarten.
A Faculdade de Julgar
Depois disso, restaria detalhar como o entendimento produz as representações e o conhecimento daquilo que é percebido pela sensibilidade. A Lógica Transcendental vem determinar a origem e o alcance desses conhecimentos. Na estética, Kant concluiu que só é possível ter intuições sensíveis e que as supostas intuições puras, nada mais são que as formas puras da sensibilidade - espaço e tempo - que permitem a percepção externa e interna dos objetos. Assim, apoiado em intuições sensíveis o entendimento deveria pensar os objetos, a fim de gerar o conhecimento, pela união da intuição com o pensamento. Não obstante, para que fosse um conhecimento puro conveniente à metafísica, a lógica transcendental deveria analisar também se existe algum conceito realmente puro e independente da sensibilidade. Caso houvesse, esse conhecimento oriundo de idéias transcendentais seria o objeto adequado da razão pura.
A Lógica Transcendental, em resumo, estaria voltada para o estabelecimento de regras do entendimento e a consequente formação do conhecimento. Além disso, nesta parte seria feita a análise geral da imaginação e da faculdade de julgar, em geral, mas que são também pertinentes à teoria da arte. Ao tratar da imaginação [8], Kant lhe atribui um papel importante, pois, uma vez que o sujeito atinja a unidade sintética da apercepção – a consciência de si mesmo como um Eu capaz de garantir objetividade as suas formas de pensamento (categorias de quantidade, qualidade, relação e modalidade) -, nela seriam formados esquemas dos objetos e do próprio sujeito consciente que proporcionariam ao juízo relacionar os conceitos gerados pelo entendimento aos fenômenos. A imaginação poderia fazer representar os diversos objetos, mesmo sem estes estarem presentes na intuição sensível. O entendimento só seria capaz de fazer a síntese intelectual do conhecimento a priori. Para fazer a síntese figurada da diversidade dos objetos seria preciso, então, a participação da imaginação.
Neste ínterim, a função da faculdade de julgar estaria em ligar os esquemas da imaginação produtiva com os fenômenos, subsumindo-os às regras fornecidas pelo entendimento. Nesta tarefa, o Juízo dependeria tão somente do “bom senso”, uma prática que não pode ser ensinada, por se tratar de um dom natural de cada um [9]. Graças ao Juízo, o entendimento poderia operar os esquemas e chegar ao conhecimento fenomenal, relacionando-os, por sua vez, com as categorias engendradas pelo sentido interno na síntese do sujeito. Por fim, os objetos passariam a fazer sentido e o universal poderia ser vinculado à experiência, embora o conhecimento da coisa em si, continuasse sempre inacessível aos humanos.
No restante da CRP, Kant se esforçou em demonstrar as limitações da razão pura ao estabelecer seus raciocínios e idéias transcendentais, enquanto tentava expor as dificuldades da mente humana em resolver os problemas (antinomias) inerentes à existência de objetos simples ou compostos; às idéias psicológicas, da existência da alma ou de sujeitos absolutos; cosmológicas, sobre a origem e infinitude do universo; e teológicas, existência de um ser supremo. Assuntos que não estão diretamente ligados à teoria da arte, mas a do conhecimento. A antinomia que diz respeito aos juízos estéticos se refere à necessidade ou não de conceitos para limitação da diversidade dos conteúdos. Assunto pertinente à dialética da CJ.
Notas
1. Veja KANT, I. Fundamentação da Metafísica dos Costumes, III seç., B 123.
2. Veja ARENDT, H. Lições sobre a Filosofia Política de Kant, I liç., p. 15.
3. Veja KANT, I. Observações sobre o Sentimento do Belo e do Sublime, I seç, p. 21.
4. Veja KANT, I. Op. cit., II seç., pp. 26 e 27.
5. Veja KANT, I. Idem, II seç., p. 28.
6. Veja KANT, I. Ibidem, II seç., p. 31.
7. Veja BAUMGARTEN, A.G. Estética, part. I, § 116, part. II, cap. I, seç. IX, § 607, e part. III, cap. I, seç. I, § 14.
8. Veja KANT, I. Crítica da Razão Pura, §24, B 150 e ss.
9. Veja KANT, I. Op. cit., “analítica dos princípios”, B170 e ss.

Bibliografia

ARENDT, H. Lições sobre a Filosofia Política de Kant; trad. André D. de Macedo. – Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 1993.

BAUMGARTEN, A.G.. Estética; trad. Mirian S. Medeiros. – Petrópolis: Vozes, 1993.
KANT, I. “Observações sobre o Sentimento do Belo e do Sublime”; trad. Vinícius de Figueiredo. – Campinas: Papirus, 1993.

____. Crítica da Razão Pura; trad. Alexandre F. Morujão e Manuela P. dos Santos. – Lisboa: Caloute Gulbenkian, 1989.

____. Fundamentação da Metafísica dos Costumes, in Textos Selecionados; trad. Paulo Quintela. – São Paulo: Abril Cultural, 1980. (Os Pensadores).


Kaquinda Dias

Batismo do Senhor


Cristãos (ou apenas batizados)

Durante estes últimos dias fomos conduzidos várias vezes ao presépio para contemplarmos o mistério do Natal de Nosso Senhor. Muitas foram as lições que tiramos: a simplicidade, o respeito ao ser humano, a busca de trabalhar pela paz, o amor como elemento essencial da vida comunitária e pessoal, e a necessidade de “meditar” para compreender melhor o projeto de Deus. No domingo passado, na solenidade da Epifania, éramos chamados ao acolhimento e a abertura a todos para vivermos verdadeiramente numa Igreja católica. Hoje estamos para encerrar o período litúrgico do Natal com a Festa do Batismo do Senhor, que nos aponta o início de seu ministério público. As leituras de hoje mais uma vez nos ajudarão a compreender profundamente o que celebramos.
Na primeira leitura (Is 42, 1-4.6-7) Isaías apresenta a vocação do chamado Servo de Javé, ou Servo Sofredor. Os primeiros cristãos entenderam a figura do “Servo” como sendo realizada plenamente em Jesus Cristo. O texto de hoje nos apresenta a missão do Servo de Javé: ele deverá estabelecer a justiça e será luz para as nações. Ainda nos é afirmado como ele não agirá: cumprirá sua missão não com violência, mas com doçura; não destruirá o que está parcialmente estragado, mas irá procurar recuperá-lo. E finalmente o profeta indica que o “Servo” não desanimará, será perseverante e forte, diante dos sofrimentos e das oposições.
O Servo é o eleito, isto é, o escolhido de Deus e estará repleto do Espírito divino para levar a justiça a todas as nações. Também ele será a luz a iluminar pessoas e povos e as tirará das trevas. Será missão deste “Servo” ser o centro da aliança de Deus com o seu povo, e manifestará grande amor para com os homens mais sofridos e necessitados.
Sem dúvida nós também ao lermos esta profecia identificamos a imagem daquele Servo de Javé com Jesus Cristo. Sabemos que Cristo veio trazer a justiça, “justificando a todos”, e o fez através de sua morte e ressurreição. Justificar significa tornar justo, e nós recebemos esta “justificação” quando somos mergulhados nas águas do batismo participando assim do Mistério Pascal.
Ainda na profecia olhamos o modo suave e misericordioso do agir de Nosso Senhor, e na sua ação podemos entender bem melhor quem é o seu Pai: um Deus que é amor infinito! O fato de Jesus nunca ter admitido a violência deve levar seus seguidores a serem homens de paz, e a nunca usarem da violência em nenhuma circunstância da vida.
Podemos então nos perguntar:
• Vemos em Jesus a realização da profecia de Isaías?
• Compreendemos que é Jesus que nos torna “justos”?
• Qual é o conceito que fazemos de Deus?
• Buscamos viver e agir como o “Servo de Javé” em nosso relacionamento com os nossos irmãos e, sobretudo com os pecadores, fracos e necessitados?

Em nossa segunda leitura (Atos 10,34-38) encontramos o Apóstolo Pedro em Cesaréia na casa de Cornélio. Havia então uma questão muito delicada que dividia a nascente comunidade cristã: os pagãos poderiam ser admitidos ao batismo? Não teriam eles primeiramente que serem circuncidados e tornarem-se judeus? Tudo isso trazia enorme divisão e muita briga. O Apóstolo Paulo dedicou-se de modo todo especial e com muito empenho na evangelização dos pagãos, mas Pedro teve muitas dificuldades neste campo. No texto de hoje vemos Pedro dizer claramente que “Deus não faz distinção entre as pessoas”, indicando com isto que Jesus veio para salvar a todos!
Deus não usa de parcialidade, e em suas escolhas não é racista. Em outras palavras Deus não olha para a pertença étnico-cultural ou religiosa de uma pessoa, mas leva em conta a consciência e o coração de cada um. Assim todos os muros de separação deveriam cair para dar lugar à unidade: raça, sexo, cultura, etc.tudo isto é acidental! Diante disto é claro que os pagãos são também chamados a seguir Jesus, e podem ser batizados, assim ingressando no único corpo de Cristo que é a sua Igreja.
Ainda no final do texto apresentado hoje, Pedro faz uma síntese da vida de Jesus, frisando que iniciou sua vida pública no batismo do Jordão, e passou toda a vida fazendo o bem porque Deus estava com ele!
No batismo Jesus é consagrado no Espírito Santo. Este pormenor serve para explicar a messianidade de Jesus, pois Cristo significa o ungido! A palavra messias é sinônimo da palavra Cristo. Em geral quando usamos o artigo antes da palavra Cristo queremos significar a função: O Cristo = o messias = o ungido. Quando a palavra Cristo vem sem o artigo, em geral se trata de um nome próprio fruto da tradição: Jesus Cristo. Também este pormenor serve para preparar a próxima cena, que é a descida do Espírito Santo sobre a família de Cornélio (At 10,44-45).
A atividade de Jesus é concentrada nos gestos de libertação em favor dos doentes e oprimidos pelo poder do mal, por isto Pedro afirma que Jesus passou toda sua vida fazendo o bem. Aqui vemos o cumprimento pleno das profecias do “Servo de Javé” na pessoa de Jesus, o Senhor de todos.
Muita riqueza se pode extrair destes poucos versículos dos Atos dos Apóstolos. Poderíamos nos perguntar se nós fazemos ou não distinção de pessoas? E chegaremos a triste conclusão que fazemos sim, pois com facilidade por vários e diferentes motivos separamos as pessoas, rotulamos e as excluímos. Pior ainda quando vemos em nossas comunidades cristãs as diferenças que são feitas para as pessoas de acordo com suas posses econômicas. É muito triste que este espírito do mundo invada uma comunidade ou paróquia!
Ainda poderíamos deste texto tirar todo um programa, ou projeto, para nossa vida de seguidores do Senhor: lutar contra o mal, buscar fazer o bem, e procurar sempre estar com Deus presente em nosso coração e na nossa vida.
O cultivo da “graça da justificação”, da vida divina que recebemos em nós no nosso batismo, deve ser um elemento essencial de nossas vidas. E é claro que o crescer na intimidade com Deus sempre nos levará ao compromisso de estar aberto a todos os irmãos, os servindo e dando por eles nossa vida.
Poderíamos nos questionar seriamente:
• Fazemos distinção de pessoas?
• Buscamos a união ou somos instrumentos de divisão?
• Nossa comunidade cristã faz diferença entre as pessoas e cultiva a divisão?
• Em nosso relacionamento com o irmão buscamos fazer o bem?
• Que ações manifestam nosso amor concreto pelos irmãos mais sofredores e necessitados?
• Deus é verdadeira presença em nossa vida?
O Evangelho (Mt 3, 13- 17) nos apresenta de maneira muitíssimo simples o Batismo de Jesus.Podemos dividir em duas partes o nosso texto: o protesto de João Batista, e o fato do batismo do Senhor.
O povo de Israel foi preparado durante muito tempo para a vinda do Messias. João Batista teve como missão especial executar a preparação próxima, e apontar o Senhor já presente no meio do seu povo. João era um homem honesto, sabia quem era e não fazia conceito mais elevado de si mesmo. Ele estava na margem do rio Jordão para convidar o povo a abrir o coração, mudar de vida e preparar-se para acolher o Salvador.  O batismo que administrava era neste sentido, um batismo de preparação e conversão. Mas ele sabia que o Salvador, é que traria o verdadeiro batismo pelo qual iria dar vida nova e plena a todos os homens (Mt 3, 11). João afirma que é ele que necessita do batismo de Jesus.
Mateus atribui muita importância ao batismo de Cristo, pois na Igreja estava acontecendo um duro confronto com os que continuavam seguindo João Batista. Estes afirmavam que Jesus era inferior ao Batista porque foi por ele batizado. Deste modo impunha-se uma refutação a este modo errôneo de ver as coisas, e reforçar a fé na messianidade do Senhor. Neste sentido encontramos o diálogo de Jesus com João Batista, onde o Senhor afirma que é necessário que se cumpra toda a justiça. Trata-se pois de cumprir em tudo a vontade e o querer do Pai. Deste modo Jesus está ensinando ao Batista a fazer aquilo que Deus quer. Depois deste diálogo João entende a vontade de Deus e concorda em batizar Jesus.   
Fazia tempo que o povo esperava ansiosamente o Messias, podemos dizer que durante trezentos anos parecia que o céu estivesse fechado, pois Deus estava em silêncio. Nenhum profeta apareceu naqueles tempos antes de João Batista, e durante três séculos os responsáveis pela religião optaram por prenderem-se a Lei e sua letra, apresentando a idéia de um Deus vingativo e intransigente. Praticamente tinham abandonado o conceito anterior de Deus como um esposo fiel, como misericórdia e amor, e como o defensor de seu povo. Deste modo a religião incutia apenas medo e angústia! Não era possível mais continuar assim, por isto muitos esperavam uma mudança religiosa, e também ansiavam por uma mudança radical no mal que abatia a sociedade: a injustiça, a violência, a mentira, o desamor, etc.
A mensagem do Batista traz sem dúvida nenhuma resquícios de uma mentalidade antiga, ele fala que o Messias virá purificar no fogo e trará uma pá para separar bons e maus (Mt 3,12). Mas Jesus irá proceder de um modo totalmente diferente, seguindo o trajeto do Servo que nos apresenta a primeira leitura nos revelará o infinito amor de Deus por todos, e de modo especial pelos mais fracos. Neste sentido encontramos na cena do batismo o Espírito Santo não em forma de fogo, mas de pomba o que aponta para a doçura e não para a violência.
Depois vem a cena do batismo narrada com grande sobriedade, e nela encontramos como elemento central o testemunho que o Pai dá de Jesus Cristo. Naquele momento ocorre uma “teofânia”, isto é, uma manifestação de Deus: os céus se abrem, o Espírito em forma de pomba desce sobre Jesus, e o Pai fala do céu. Estes elementos eram conhecidos pelos judeus, vejamos.
“Céus abertos”: fazia muito tempo que o céu estava fechado, isto é, desde o pecado da origem o homem havia se tornado inimigo de Deus. O profeta Isaías (Is 63,15-19) pede a Deus que ponha fim ao seu silêncio, implora que os “céus se abram” e que pela misericórdia divina haja reconciliação dos homens com Deus e com os demais irmãos. Além disso, como já refletimos fazia mais de trezentos anos que não aparecia um homem de Deus ou um profeta, parecia mesmo que Deus não queria mais se comunicar com seu povo. Agora a partir de Jesus os céus estão abertos, ousaria até dizer “escancaradamente abertos!” Agora sim é o próprio Deus que vem para se comunicar com seu povo sem a necessidade de intermediários, Jesus é verdadeiramente o Emanuel, Deus conosco!
Em seguida vem a imagem da “pomba” que lembra o tempo do dilúvio onde também os céus estavam fechados, e quando a pomba voltou com um ramo de oliveira tudo recomeçou em paz! Mas porque o Espírito Santo é apresentado na forma de pomba? Parece que seja devido ao sentido que a “pomba” tinha para os judeus como símbolo da doçura e do amor. Este foi o estilo adotado por Jesus em toda sua vida, ele nunca usou o estilo do abutre ou o da águia! Aqui podemos retomar a primeira leitura que nos apontava como o Servo agiria, e mesmo a segunda leitura de hoje nos indicando a síntese do modo de agir de Jesus. È interessante notar que nosso texto diz que o Espírito desceu em Jesus “como uma pomba”, e com isto não deseja afirmar que o Espírito se manifestou sob a figura de um pássaro. Trata-se de uma imagem puramente simbólica com a finalidade de transmitir uma realidade invisível. De fato Jesus estava repleto do Espírito Santo como profetizará Isaías (Is 61, 1-2).
Por fim vem a grandiosa revelação do Pai que dá sentido a toda cena: ali está o prometido, o messias, o Filho eterno do Pai! As leituras hoje vão nos apresentando Jesus como o “UNGIDO” do Pai, como o CRISTO. Primeiro é o testemunho dos profetas na primeira leitura, depois o testemunho dos Apóstolos na segunda leitura, em seguida o mais importante testemunho, o do Pai Celeste que apresenta Jesus como seu Filho amado em nosso texto evangélico de hoje.
Pelo testemunho do Pai percebemos que Jesus é mais que Rei (Sl 2,7), mais que servo (Is 42,1) é o filho amado e querido! O Batismo de Jesus também nos aponta para o caminho da Cruz, que faz parte integrante de sua vida, pois ele mesmo chama sua morte de batismo (Mc 10,38-39).
Poderíamos agora nos perguntar o motivo pelo qual Jesus quis ser batizado já que Ele nunca teve pecado. Certamente ele desceu as águas para ser solidário com todos os homens pecadores, e lá afundou no rio Jordão os pecados da humanidade. Com sua morte e ressurreição trouxe a paz verdadeira, a Redenção. Mas também no Jordão santificou as águas, de modo que todo aquele que é mergulhado na água do batismo participa de sua morte e da sua ressurreição. Depois de ser batizado Jesus saiu logo da água, e não foi dentro do rio que ocorreu a manifestação de Deus. “Sair da água” é a vida nova que o Senhor comunica a todos os que recebem a graça do seu batismo. Assim há grande diferença entre o batismo de João que era de penitência e preparação, e o batismo de Cristo que nos traz uma verdadeira participação na vida divina.
É interessante que a água aparece nos grandes momentos da história do povo de Deus: Moisés é recolhido das águas do Nilo (Ex 2,10). O povo de Israel passa a pé enxuto nas águas do Mar Vermelho (Ex 14,21-22), e o povo para entrar na terra da promessa atravessa as águas do rio Jordão (Js 3,14-17). Hoje Jesus sai da água para dar início a construção do Novo Povo de Deus. Jesus que é a água viva (Jo 4, 10.14) santifica as águas sendo batizado no Jordão.  Há muito tempo Jeremias em nome de Deus acusava o povo de ter cavado para si mesmo cisternas fendidas que não podiam reter água! (Jr 2,13). Linguagem viva e simbólica que pode nos apontar todos os que deixam Deus de lado, e procuram construir sua vida tendo como eixo o próprio eu, o orgulho e a vaidade!
A festa do Batismo do Senhor traz a cada um de nós uma profunda reflexão sobre nossas vidas. Todos fomos batizados, mergulhados na morte com Cristo e ressuscitados nele. Recebemos a vida divina, participando desta vida somos de fato filhos de Deus no Filho único que é Jesus. Trata-se de uma verdadeira vida, por isto João diz que de fato somos filhos de Deus mais que ainda não se manifestou o que seremos (I Jo 3, 1 ss). Caminhamos na fé e não na visão, por isto não percebemos a grandeza de ser filho de Deus. Quanta gente se mostra orgulhosa por ter parentes nobres e influentes, e nós que temos Deus por Pai precisamos ainda destas quinquilharias da vaidade humana?
Viver como filhos de Deus?
Muita gente ignora o próprio batismo, nem sabe para que foi batizado. Precisamos revalorizar nosso batismo e vivê-lo de modo mais profundo.
Sabemos o dia em que fomos batizados? Comemoramos este dia como um dia importantíssimo de nossas vidas?
Na Igreja primitiva em geral só se batizavam adultos, mas logo as crianças começaram a ser batizadas também, e isto devido a fé de seus pais. Trata-se de algo bem lógico: quem pediu para nascer ou quem pediu para ser batizado quando criança? Como recebemos a vida humana de modo gracioso, recebemos no batismo a vida de Deus também de modo gratuito! Nossos pais agiram assim, pois acharam que era o melhor para nós!
Quando crescemos e nos tornamos conscientes precisamos pessoalmente assumir o dom que recebemos, e aí encontramos a necessidade de fazer todo um itinerário de fé. A catequese para a primeira eucaristia e crisma irão nos ajudar a assumir nosso ser de batizados. Mas depois disto precisamos de modo firme e perseverante continuar nosso crescimento na fé, e para isto existem tantos grupos, movimentos e pastorais que visam fazer com que cresçamos na fé, em nossa vida da graça, e na comunhão fraterna na comunidade.
Oxalá que a festa do Batismo do Senhor nos leve a reassumir os nossos compromissos batismais. Que cada um de nós possa de fato esforçar-se por viver bem como verdadeiro filho de Deus: amando-o, obedecendo a sua vontade e, sobretudo confiando e entregando-lhe a própria vida.
Mas também que como batizados vivamos de modo mais concreto nossa vida fraterna, nos tratando como verdadeiros irmãos. Que este comportamento nos leve a viver uma vida de verdadeira família em nossas comunidades cristãs.
Precisamos valorizar cada vez mais o aspecto comunitário de nossa vida cristã, onde não pode existir distinção de pessoas, nem exclusões e divisões, isto é algo fundamental para que o nosso testemunho de Igreja seja digno e verdadeiramente convincente.
Que nesta semana como compromisso concreto da festa que hoje celebramos nos esforcemos de fato para viver melhor o nosso batismo!
Sete Quedas, 9 de Janeiro
Solenidade do Batismo do Senhor
De 2012

sábado, 7 de janeiro de 2012

Teologia da Água e do Óleo


Descrição: joaq_lopes_brasao2

Diocese de Viana
Viana
                                              



                                              








CARTA PASTORAL
SOBRE O
USO DA ÁGUA BENTA E ÓLEO
NOS SANTUÁRIOS, IGREJAS E CAPELAS
DA NOSSA DIOCESE












01 de Janeiro de 2012
A todos os Párocos,
                                                        Sacerdotes e Religiosos,
                                                        Seminaristas, Catequistas e
                                                        Fiéis da Diocese de
                                                        Viana








CARTA PASTORAL
SOBRE O
USO DA ÁGUA BENTA E ÓLEO
NOS SANTUÁRIOS, IGREJAS E CAPELAS
DA NOSSA DIOCESE




  Há já muito se vem fazendo sentir a necessidade de algum pronunciamento pastoral e jurídico-canónico acerca do uso imoderado e já muito desviado da água benta e óleo nos nossos santuários, igrejas e capelas. No entanto, achámos que devíamos esperar alguns anos a observar e a reflectir para, em tempo oportuno e depois de suficiente observação, emitirmos o nosso parecer como fruto maduro da nossa reflexão.
  Trata-se de um assunto bastante delicado mas que nem por isso deve deixar de ser abordado com toda a profundidade para que acabe de uma vez para sempre o obscurantismo que rodeia o uso defeituoso destes dois símbolos tão importantes na Sagrada Escritura, na Tradição da Igreja, na celebração dos Sacramentos e Sacramentais e na praxe cristã do nosso povo. Na verdade, é constrangedor observar o que se passa entre nós neste capítulo, sobretudo nos santuários, pelo que achamos ser hora de nos pronunciarmos sobre este assunto antes que ele adquira piores contornos e o povo venha a pecar por falta de instrução dos sacerdotes (Os 4,1-10). É que geralmente quando o povo cai em algumas aberrações deste género, está na origem disso uma falta de formação que deve ser imputada aos agentes de pastoral a todos os níveis da Hierarquia da Igreja. Não devemos, no entanto, ficar a lamentar. Devemos, isso sim, ir ao encontro dessas carências e colmatá-las com os meios de que dispomos. E a Catequese é o grande meio à nossa disposição.

  Para abordarmos este tema com a profundidade que ele exige, é imperativo que façamos uma incursão no mundo bíblico e depois passemos para a teologia que lhe subjaze e, finalmente, para a história da pastoral da Igreja ao longo dos séculos para podermos então compreender porque é que se chegou a este ponto. Por isso, vamos ser um pouco longos na abordagem desta problemática e, por vezes, a linguagem pode não ser totalmente compreendida por todos, mas confiamos na perícia dos agentes de pastoral, Párocos, Sacerdotes, Religiosos e Leigos preparados, para que complementem, com as devidas explicações ao povo de Deus, tudo quanto vamos procurar expor. Assim, mais uma vez esta nossa carta pastoral tem uma apresentação que roça o estilo didáctico, coisa que não é muito própria de cartas pastorais. Mas a razão disso é que sentimos uma carência de formação em profundidade a todos os níveis, e vamos fazer um esforço por transmitirmos alguns conhecimentos que ajudem à solução deste problema que nos preocupa muito. Futuramente as nossas cartas pastorais seguirão o estilo próprio deste tipo de documento. Desta forma peço aos sacerdotes que consultem as obras aqui citadas ou outras da imensa bibliografia que a Igreja possui.
  Somos favoráveis a que, depois de uma profunda e demorada catequese, se restaure o uso da água benta nas nossas igrejas, capelas e santuários segundo a doutrina da Igreja, a praxe dos cristãos e de acordo com uma boa compreensão do significado deste símbolo sagrado. Com o que queremos acabar é apenas com o mau uso e o abuso que se está a fazer dele, reduzindo-o a uma espécie de sortilégio, feitiço, talismã. Isso é o que ele não é.


  I - Significado da “ÁGUA” e do “ÓLEO” na Sagrada Escritura

  A - A água

  Como é bom de ver, estamos a escrever uma carta pastoral e não uma sebenta para estudantes de teologia num seminário ou universidade. Mas como atrás ficou dito, achamos dever dar a esta carta um tom didáctico e então vamos fazer uma curta incursão na Sagrada Escritura sem sermos pesados nem demasiado técnicos. Apenas o suficiente para basearmos o nosso pensamento na própria raiz de onde dimana toda a seiva que percorre o organismo da Igreja.

  a) No Antigo Testamento

  A palavra “água” tem na Bíblia um significado muito vasto. A própria palavra hebraica que designa a água é de si muito significativa: mayim. Esta palavra mayim é um plural e não singular. Em quase todas as línguas semíticas como o aramaico, o siríaco, o ugarítico, o acádico, o neo-babilónico, o mandaico, o etiópico, o egípcio, o árabe a palavra “água” tende a passar ao plural (plurale tantum, pois, à primeira vista poderia confundir-se com um dual).            
  A razão porque esta palavra é plural, podendo traduzir-se por água ou águas prende-se com o facto de que a água é fonte de vida e pode ser origem de morte, dá frescura e consolação, é pura e encanta, difunde-se, derrama-se. Este plural é chamado um plural de abundância, de plenitude ou como também dizem certos gramáticos de renome, um plural de composição ou de extensão, pois a renovação da água corrente dá a impressão de partes distintas[1]. De igual modo, a palavra “vida” (em hebraico hayim) é também plural pelo mesmo motivo. Para nós isto pode parecer que não tem importância mas se pensarmos um pouco mais, vemos que a coisa não é bem assim.
  De facto, se formos a ver bem, nas nossas línguas a palavra “água” também não é tão simples e indica um plural. Por exemplo, em Kimbundu, a palavra água diz-se “menha” o que nos leva a pensar num plural da IV classe dos substantivos. E se for muita água, como a do mar, pode-se dizer “kalunga” (mar), sendo que esta palavra também significa “morte”, e por transposição pode atribuir-se a Jesus Cristo “O Kalunga Samba (= O Altíssimo, o Infinito, o Imenso) ”. Como a água do mar é salgada e a dos rios e lagos geralmente doce e potável (menha matome), assim se pode dizer “menha ma kalunga” (água do mar) para se distinguir da “menha ma ngiji” (água do rio). Possuo poucos conhecimentos de gramática generativa kimbundu, mas pela experiência chego a esta conclusão que, sendo discutível, acho razoável.
  Quer dizer que todas as civilizações se têm deixado impressionar pela água como elemento da natureza imprescindível para a vida tanto das pessoas como dos animais e das plantas. Por isso, nada de anormal que a água inspire profunda devoção e muito medo. De facto, a água inspira muito respeito e não se pode conceber apenas como a mentalidade moderna o faz, como um elemento da natureza composto de dois átomos de hidrogénio e um de oxigénio (H2O), insípida, inodora e incolor. É muito pouco!

  Israel considera a água elemento básico para a sustentação da vida e por isso depressa adquiriu uma forte importância cósmica na própria cosmologia israelítica. Daqui a atribuição de nomes a certos lugares ligados à água, como por exemplo: Beer-Sheva (Gn 21,31), mê dimon (Is 15,9), mê megiddo (Jz 5,19), mê neptoah (Jos 15,9), mê yerihó (Jos 16,1), mê meriba (Num 20,13), mê nimrim (Is 15,6), mê zahab (Gn 36,39), mê hayyarqon (Jos19,46) e a cidade da água “’ir hammayim” (2Sm 12,27)[2].
 
  Seria muito longo e fastidioso, senão mesmo despropositado, descrever o significado do termo “mayim = água” em Israel no âmbito desta carta. Por isso, preferimos entrar no significado religioso do termo que é o que mais nos interessa para o objectivo que nos preocupa. No entanto, não devemos deixar de registar que em todo o Próximo Oriente a água era reconhecida como o primeiro elemento da criação e indispensável para o processo que leva ao aparecimento da vida. Para Israel a vida nasce da água[3]. A falta de água traz morte e infertilidade, enquanto a sua presença traz vida e fertilidade. A associação da água com os fenómenos da natureza como tempestades, trovões, relâmpagos confere-lhe o sentido de mistério e poder e, de simples elemento, passa a ser considerada um poder cósmico.
 
  Israel confere um significado de santidade à água de modo que os lugares das fontes de água são considerados sagrados. Assim, algumas fontes e nascentes tornam-se santuários e são olhados como lugares especialmente santos: por exemplo Beer-Sheva, que significa Poço do Juramento (Gn 21,30; 26,32). A santidade dos poços é o motivo do Canto do Poço (Num 21,17 ss). No 2Rs 5,1-14, a narrativa da cura do leproso Naaman reflecte a crença na santidade da água do rio Jordão. A partir disto, a passagem ao uso ritual da água é rápida. A noção de pureza está intimamente associada à de santidade. A água corrente era a preferida para os rituais (Lv 14,5ss; Nm 19,17ss), mas a água como elemento purificador constituía parte do sacrifício (Lv 1,9.13; 8,21). As pessoas envolvidas no culto deviam purificar-se com água antes de o exercerem (Lv 8,6; Nm 8,7). Isto permite-nos concluir que estas lavagens representam uma acção simbólica e tomam a parte pelo todo no sentido em que representam a lavagem de todo o corpo (Lv 16,4.24). Segundo Ezequiel, Javé aspergirá água pura sobre todos para retirar o pecado e lavá-los de toda a imundície (Ez 36,25).
 

  No AT a falta de pregação da Palavra em Jerusalém era considerada pelos profetas como que tempo de seca (cf. Jr 14). Este capítulo 14 de Jeremias é de uma enorme beleza. Geralmente as Bíblias modernas encabeçam este capítulo com um título: O flagelo da seca, ou algo semelhante. Dá, de facto, a impressão que se trata de um capítulo acerca da falta de chuva. No entanto, na literatura profética, a falta de água é uma figura retórica que dá a ideia da falta da pregação da Palavra do Templo, culpa a imputar aos sacerdotes (cf. Os 4,1-10). Os jovens que foram enviados pelos mais velhos às cacimbas (cf. Jr 14,3), regressam com os depósitos vazios, envergonhados, porque elas estão secas. Não encontrar água significa não encontrar a Palavra de Deus, pois, na exegese rabínica a Torá é comparada a uma fonte de água. Os agricultores estão desesperados e até os animais selvagens abandonam as suas crias enquanto o gado de grande porte aspira o ar na esperança de sentir a presença da água. Mas não se trata de uma imagem bucólica. Na verdade, o profeta invoca o Senhor com uma palavra de duplo significado: Esperança de Israel… (Jr. 14,8). O termo “Esperança” (em hebraico - tikvá ou mikvé) também pode significar depósito de água, cisterna, isto é, trata-se de um modo de falar de Deus como esperança do povo ou “fonte de água” o que reforça exactamente a ideia da falta de pregação da Palavra mais do que propriamente da falta de água da chuva. Javé é que é a água de que o povo sente sede, o reservatório imenso onde o povo deve ir encher os seus recipientes.


  b) No Novo Testamento

  Também no NT o tema da água está muito presente. Se a pregação profética é uma preparação para o mistério de Cristo, este veio ao mundo para nos dar a sua Palavra e a Sua Pessoa como a água prometida pelos profetas. Cristo é a rocha que, uma vez aberta, deixa sair água para matar a sede ao povo (Jo 19,34 - alusão a Nm 20) que peregrina em direcção à pátria celeste, a nova terra da promessa (cf. 1Cor 10,4; Jo 7,38; cf. Ex 17,1-7). Do mesmo modo, Cristo tornou-se o Templo (cf. Jo 2,19 ss) debaixo do qual saem as águas que escorrem em todas as direcções para dar vida à nova Jerusalém (Ez 47,1-12) e dessedentar o povo (Jo 7,37; Apc 22,1-17). Estas águas simbolizam o Espírito Santo (Jo 7,39)[4].
  Se, apenas como exemplo, dermos uma olhadela ao Evangelho de S. João sem entrarmos a fundo na evolução do termo “água” desde o capítulo I em que o Baptista dá testemunho da sua missão ao realizar o baptismo do povo (e o do próprio Cristo), passando depois para o capítulo II das bodas de Caná em que Cristo transforma a água em vinho, prosseguindo no capítulo III com o diálogo com Nicodemos em que Jesus incute a necessidade do segundo nascimento pela água e pelo Espírito, avançando para o capítulo IV com o belíssimo diálogo de Jesus com a Samaritana acerca da água viva e assim por adiante até o soldado abrir o peito de Jesus na cruz donde saiu imediatamente sangue e água (Jo 19,34) que, segundo a interpretação patrística é a fonte dos Sacramentos e da própria Igreja, só isso basta para nos apercebermos do significado profundo do termo “água” em S. João.
  Trata-se verdadeiramente de uma catequese baseada no simbolismo da água como elemento imprescindível à vida espiritual. A água no diálogo de Jesus com a Samaritana parece significar a própria Palavra vivificadora que Cristo veio trazer (Jo 4,10-14.26; cf. Jr 2,13).
 

  c) A água baptismal

  O simbolismo da água adquire o seu sentido pleno no baptismo cristão. O que está na origem da utilização da água no Baptismo é a sua virtude purificadora (cf. 2Rs 5,10-14; Mt 3,11 par.). A água do Jordão que purificou Naaman da lepra é a mesma que João usa para o baptismo da purificação dos pecados do povo. Mas agora trata-se da purificação da alma, da consciência (1Pe 3,21). É um banho que nos lava dos nossos pecados (1Cor 6,11; Ef 5,26; Hb 10,22; Act 22,16).
  S. Paulo avança ainda mais a partir deste simbolismo e compara o movimento de imersão/emersão como imagem da sepultura do homem com Cristo e da ressurreição espiritual (Rm 6,3-11). Isto compreende-se melhor se nos lembrarmos que no início da Igreja o baptismo era realizado na Vigília Pascal por meio da imersão da pessoa numa pequena piscina.
  Este movimento de descida/subida significava a descida às águas da morte e a subida para uma vida nova. É isso exactamente o que diz S. Paulo: “Pelo Baptismo fomos, pois, sepultados com Ele na morte, para que, tal como Cristo foi ressuscitado de entre os mortos pela glória do Pai, também nós caminhemos numa vida nova (Rm 6,4). O tema da vida nova é recorrente nas cartas de Paulo (Rm 7,6; 2Cor 5,1; Cl 2,12; 3,3.9-10; 1Pe 3,20-21).
  Esta imagem do nascimento para uma vida nova através do Baptismo como se se tratasse de sair do ventre materno uma segunda vez, já S. Agostinho o comentou nesta célebre expressão por demais onomatopaica: vulva matris, aqua baptísmatis. Em Kimbundu a palavra “ventre/barriga” diz-se “divumu” a qual também pode, por metáfora, significar “família” e em sentido espiritual família de Deus = divumu dia Nzambi”. A Igreja seria assim como um grande ventre do qual estão continuamente a sair novos filhos para a Família de Deus por meio do Baptismo.
  Daqui que S. Paulo se atreva a dizer:” Todos os que fostes baptizados em Cristo, revestistes-vos de Cristo” (Gl 3,27). A relação entre o Baptismo e a Ressurreição de Cristo ou com o Espírito de Cristo ressuscitado é uma ligação vital que nos revela o sentido pleno do Baptismo.


  d) A água benta

  É provável que as gerações novas não tenham sido educadas no antigo uso de as pessoas se benzerem com água benta ao entrar na igreja paroquial e na Catedral. Na verdade, este costume foi desaparecendo infelizmente e, hoje em dia, quase se perdeu de todo. Ora, talvez seja hora de restaurá-lo através de uma catequese apropriada. Diz-se que foram retiradas as pias da água benta por razões higiénicas; talvez isso tenha algum peso, mas não parece ser a água benta motivo de contaminações tais que tenham levado ao aparecimento de alguma epidemia. Se este gesto, por razões higiénicas, devesse ser desaconselhado, então seria oportuno restaurar o antigo rito do “Asperges me”.
  O rito do “Asperges me” antigamente ao início de todas as Eucaristias de Domingo e depois de modo especial durante o tempo pascal, também se foi perdendo lentamente, ao contrário do que estipula o Missal Romano, de modo que hoje nem nas igrejas paroquiais nem nas nossas catedrais é geralmente celebrado, o que é uma grande pena. Por sinal, na Catedral de Viana costuma fazer-se com a respectiva capa de Asperges. Ora, o povo na sua piedade e devoção, ao ver-se privado desses elementos litúrgicos, forjou outros sem que para isso tenha sido autorizado ou seja especialmente competente. Agora, o mau uso que se faz da água benta pode ter a ver mais com os agentes da pastoral, mormente os Bispos e os sacerdotes, que não instruem o povo, do que com as práticas pouco “católicas” do próprio povo.

  Desde os primórdios da igreja que os cristãos utilizavam um rito de purificação das mãos antes da oração, pois, sendo judeus ou vivendo em ambiente judaico conservaram o costume de lavar as mãos antes da oração. Depois apareceu o rito da aspersão para substituir a lavagem das mãos. E esses ritos faziam-se com água benta também para recordar a água do Baptismo.
  A água benta não tem como objectivo afugentar os espíritos maus nem qualquer relacionamento com a feitiçaria. Vamos já expor de seguida o que são e para que servem os Sacramentais. É lamentável ver em algumas das nossas igrejas as antigas, pias de água benta, algumas até artisticamente trabalhadas, a servirem de repositório de lixo ou de outros quaisquer objectos[5].


  B - O Óleo[6]

  O ambiente palestinense que serviu de berço à nova Religião inaugurada por Jesus Cristo, sempre teve em grande apreço o azeite. De resto, uma das culturas mais comuns na região mediterrânica foi sempre a da oliveira. O azeite também teve um grande uso nos tempos do Império Romano e nas lutas dos gladiadores e lutadores corpo a corpo. Por causa do seu uso na iluminação (Ex 27,20 s; Mt 25, 1-13), na perfumaria (Am 6,6; Est 2, 12) na medicina para fortificar os membros (Ez 16,9) e curar as feridas (Is 1,6; Lc 10,34) e na confecção dos alimentos (1Rs 17,14) o azeite foi ganhando um simbolismo cada vez maior[7].
  Na Bíblia o óleo foi sempre considerado símbolo de felicidade, de abundância e prosperidade como é referido em Job: «Quando lavava os meus pés com a nata do leite e o rochedo derramava para mim ondas de azeite» (Jb 29,6; cf Dt 33,24). Este simbolismo atingiu um ponto alto quando foi atribuído a Jesus o título de Ungido do Pai, ou Cristo, títulos que vêm da unção com óleo, a qual nos tempos do Antigo Testamento era obrigatória para a consagração dos Reis, Sacerdotes e Profetas.

  a) O óleo é um dom de Deus

  Juntamente com o trigo e o vinho é um dos alimentos essenciais com que Deus sacia o seu povo fiel (Dt 11,14) na terra, rica de oliveiras (Dt 6,11; 8,8). Trata-se de uma bênção divina (Dt 7,13s; Jr 31,12). A sua privação é sinal de castigo por causa da infidelidade (Mq 6,15; Ab 3,17) e a abundância de óleo, trigo e vinho é o sinal da salvação (Jl 2,19) e da felicidade escatológica (Os 2,24).

  b) Simbolismo do óleo

  Se o óleo é sinal da bênção de Deus, a oliveira frondosa e carregada de frutos é o símbolo do justo abençoado por Deus (Sl 52,10; 128,3; cf Eccli 50,10) e da sabedoria divina que revela na lei a via da justiça e da felicidade (Eccli 24,14. 19-23). Quanto às duas oliveiras que alimentam com o seu óleo o candelabro das sete lâmpadas (Zc 4,11-14), elas representam os dois «filhos do óleo», os dois ungidos de Deus, isto é, o rei e o Sumo-sacerdote, que têm a missão de iluminar o povo e de o conduzir ao caminho da salvação.

  O óleo da unção real é o verdadeiro «óleo da alegria» (Sl 45,8), sinal externo da eleição divina acompanhada da irrupção do espírito que toma posse do eleito (1Sm 10,1-6; 16,13). Esta ligação entre a unção e o Espírito está na origem do simbolismo fundamental do óleo nos sacramentos cristãos, especialmente na unção dos doentes que aparece mencionada na carta de Tiago (Tg 5,14; cf Mc 6,13)[8]. Os santos óleos comunicam ao cristão a graça multiforme do Espírito Santo, daquele Espírito que fez de Jesus o «Ungido» por excelência e o Filho de Deus (Hb 1,9 que aplica o Sl 45,8 a Cristo para lhe proclamar a sua divindade).
  Este símbolo de cura espiritual é muito importante. Nos tempos bíblicos havia muitos medicamentos e todos eram tirados directamente da Natureza. A unção com óleo era muito usada para aliviar as dores. Havia colírios para os problemas oftalmológicos (Apc 3,18). Quase todos os unguentos eram feitos a partir do azeite que, ao entrar nas feridas dava uma sensação de alívio (Sl 109,18). Basta lembrar a parábola do Bom Samaritano (Lc 10,34; cf Is 1,6). E não nos esqueçamos deste texto de Marcos referente ao envio dos Apóstolos que “expulsavam numerosos demónios, ungiam com óleo muitos doentes e curavam-nos” (Mc 6,13; Tg 5,14).

  A luta olímpica greco-romana utilizava o óleo de modo abundante quer para dar vigor ao atleta quer para o ajudar a escapar das mãos do adversário. Besuntar permanentemente o corpo com óleo durante a luta, prolongava o combate e só a muita agilidade aliada à força muscular permitia, com o cansaço, que um dos atletas fosse derrubado. Deste uso profano não foi difícil à comunidade cristã nascente, profundamente conhecedora das práticas desportivas greco-romanas, dar o salto qualitativo para o campo espiritual da luta contra o tentador. Ungir o catecúmeno no corpo, tem como objectivo lembrar-lhe que ele vai ser assaltado pelo demónio que procurará derrubá-lo mas se o encontrar bem besuntado, bem ungido, o demónio escorregará e não conseguirá deitá-lo por terra.

  Mesmo desde os tempos mais remotos o óleo foi também símbolo do Espírito. Nos tempos bíblicos e nas culturas vizinhas, as grandes funções sociais eram consideradas como vindas de Deus e, por isso, ungiam-se os Reis, os Sacerdotes e os grandes líderes do povo (profetas, por exemplo).
  Sargão I, rei da Síria, era chamado «ungido pelo deus do céu». O facto de ser ungido é que lhe conferia autoridade, poder e glória. Foi deste mesmo modo que Javé enviou Samuel para ungir David: “O Senhor disse a Samuel: enche o teu chifre de óleo e vai. Quero enviar-te a Jessé de Belém, pois escolhi um rei entre os seus filhos…” (1Sm 16,1-3; cf. 2Sm 2,3-4). Assim, o rei além de ficar capacitado para chefiar o exército e governar a nação, tornava-se também o responsável do culto em Israel, era transportado para a esfera do sagrado.

  Com toda esta carga simbólica, o óleo depressa passou a ser também utilizado para a unção em coisas e lugares sagrados. Veja-se a passagem do Génesis em que Jacob ungiu a pedra que lhe servira de travesseiro: “Jacob agarrou a pedra que lhe servira de travesseiro e, depois de a erguer como um monumento, derramou óleo sobre ela…” (Gn 28,18.22; 31,13).
  Ao ungir uma pessoa ou um objecto, este gesto consagrava essa pessoa e esse objecto que automaticamente deixavam de pertencer à esfera do profano e passavam a pertencer à esfera do divino.
  Mais tarde este gesto foi proibido terminantemente porque as pessoas começaram a afastar-se de Deus e a dar valor imoderado a este gesto (Ex 34,13; Dt 12,3). Mas foi daqui que nasceu o rito da unção dos nossos altares, igrejas catedrais e paroquiais. O altar da catedral é ungido com óleo pelo bispo da diocese (cf. Lv 8,10-12; 14,10-29; Ex 40,10.11).


  II - Os Sacramentais

  O Catecismo da Igreja Católica no capítulo IV, artigo 1, cita textualmente a Sagrada Constituição sobre a Liturgia do Concílio Vaticano II, dizendo: “A Santa Mãe Igreja, instituiu também os Sacramentais. Estes são, à imitação dos Sacramentos, sinais sagrados que significam realidades, sobretudo de ordem espiritual e se obtêm pela oração da Igreja. Por meio deles, dispõem-se os homens para a recepção do principal efeito dos Sacramentos e santificam-se as várias circunstâncias da vida” (SC 60; CIC nº 1667).
  Por seu lado, o Código do Direito Canónico afirma: “Sacramentais são sinais sagrados, pelos quais, de algum modo à imitação dos Sacramentos, se significam efeitos sobretudo espirituais, que se obtêm por impetração da Igreja” (CDC, 1166). O CDC comentado diz a respeito deste cânone que ele recolhe a definição proposta pela Constituição sobre a Sagrada Liturgia (SC 60). O que de novo acrescentou o actual CDC relativamente ao antigo código de 1917 é a designação de “signa sacra” (sinais sagrados) em vez de “res aut actiones” (coisas ou acções). Na verdade, os Sacramentais consistem em coisas ou em acções. Estas coisas materiais constituem-se em Sacramentais permanentes se receberem a bênção que as destina ao culto dando-lhe a capacidade de produzir efeitos espirituais (ex impetratione Ecclesiae, ou seja, pelo intercessão da Igreja).
  Mas os Sacramentais também podem ser considerados transitórios se consistirem em acções que na sua realização levam a significação sagrada, tais como: bênçãos, imposição das mãos, unções, orações, etc.
  O CDC chama especial atenção a que na administração dos Sacramentais se observem cuidadosamente as fórmulas aprovadas pela suprema autoridade da Igreja (CDC, c. 1167). De tal modo que o ministro dos Sacramentais é sempre o clérigo munido do devido poder, embora alguns sacramentais possam ser administrados por alguns Leigos se estes possuírem as qualidades devidas a juízo da Igreja, pois, a todos os Leigos não é concedida a faculdade de administrar os Sacramentais (CDC, c. 1168, vd comentário). O próprio diácono só pode dar as bênçãos que lhe são permitidas expressamente pelo Direito (cf. c. 1169, § 3).

  Importa salientar também quanto estipula o CDC a respeito das coisas sagradas, como é o caso das pias de água benta, santos óleos, vasos. Já que pela bênção que sobre elas foi invocada, estas coisas foram destinadas ao culto, por isso sejam tratadas com reverência e não sejam votadas ao uso profano ou outro não próprio, mesmo estando sob o domínio de particulares (cf. CDC, c. 1171). Quer dizer que estas coisas sagradas possuem uma dignidade especial, que exige um tratamento reverente e as subtrai aos usos profanos e comerciais (comentário ao CDC, c. 1171).

  Por outro lado, é preciso saber que os Sacramentais não conferem a graça do Espírito Santo como os Sacramentos; mas, pela oração da Igreja, preparam para receber a graça e dispõem para cooperar com ela. Portanto, a Liturgia dos Sacramentos e Sacramentais faz com que a graça divina, que deriva do Mistério Pascal da Paixão, Morte e Ressurreição de Cristo, onde vão buscar a sua eficácia todos os sacramentos e sacramentais, santifique todos os passos da vida dos fiéis que os recebem com a devida disposição” (CIC 1670).
  Os Sacramentais revestem-se de várias formas entre as quais sobressaem as bênçãos de pessoas, da mesa, dos objectos e dos lugares. Todas estas bênçãos são feitas em nome de Jesus e, por isso, habitualmente se fazem por meio do sinal da cruz de Cristo.

  Quanto aos Sacramentais é preciso ter em especial atenção a religiosidade popular (cf. a nossa Carta Pastoral sobre a piedade popular). Respeite-se sempre o sentimento religioso do povo nas suas expressões de piedade tradicional: veneração das relíquias dos Santos, peregrinações aos santuários, procissões, a Via-sacra, as danças religiosas, o Terço, as medalhas, etc. (CIC 1674), mas incuta-se no povo de Deus que a Liturgia supera, de longe, todas estas formas de piedade (SC 13). A religiosidade popular para ser mantida devidamente, exige da parte dos agentes de pastoral um grande discernimento. O mesmo se diga para corrigir e purificar o sentimento religioso que anima essas devoções. O seu exercício está submetido às decisões dos bispos e às normas gerais da Igreja (CIC 1676).
 

  III - O uso da água e do óleo nos nossos santuários

  Vou agora chamar a atenção ao que nós assistimos nos nossos santuários da Muxima e Calumbo. Recordo também quanto pude ver, anos atrás, nos santuários de Caxito e Kifangondo quando fui responsável pelos mesmos durante vários anos.

  Desde tempos imemoriais os cristãos conceberam o costume de fazerem o sinal da cruz com os dedos previamente molhados em água benta assim como utilizaram o rito de aspersão de água benta sobre as pessoas com um hissope ou um ramo embebidos em água benta. O gesto de se persignar com água benta ao entrar na igreja paroquial ou catedral, na sala de aula dos seminários ou no próprio quarto de dormir, é algo que já foi de uso corrente. Nas igrejas monásticas ou abadias, os monges entravam em dupla fila e aquele que passava junto da pia da água benta molhava nela o dedo médio e o indicador e passava ao outro a água benta que ele recebia nas pontas dos mesmos dedos e ambos se persignavam enquanto decorria a procissão de entrada na igreja abacial. O Concílio Vaticano II não aboliu nada disso e não devemos esquecer o que dissemos atrás que o Missal Romano tem uma rubrica em que diz que o rito do Asperges me se pode continuar a fazer especialmente aos domingos durante o tempo pascal. Este gesto lembra às pessoas a água do Baptismo e, unido a uma verdadeira contrição, serve para perdoar as pequenas faltas veniais que nos acompanham ao longo dos dias. De igual modo, o rito de aspergir com água benta o cadáver de um cristão ou a sua sepultura serve para lembrar que aquele corpo foi santificado pela água do Baptismo.

  Quanto a isto creio que estamos todos de acordo. Agora põe-se o seguinte problema: todos aqueles depósitos de água, alguns com capacidade de muitos litros, que os fiéis transportam para as nossas igrejas e sobretudo para os santuários da Muxima e de Calumbo a que é que se destinam? Não há muito tempo, um cristão veio ter comigo pedindo para lhe benzer um garrafão de água de 5 litros dizendo que tinha mandado benzer uma semana antes outros 5 litros mas que já os tinha bebido todos.

  Outra vez, quando presidíamos à Igreja do Dundo, chegou-me ao Paço Episcopal um cristão que se dizia catequista do Lubalo e que tinha conseguido ultrapassar as linhas da frente de guerra e chegar ao Dundo (inícios de 2002). Vinha expressamente para cumprimentar o novo Bispo da diocese recentemente criada e também para pedir o Santo Crisma, pois, tinha crismado toda a gente que pôde e acabara-se-lhe o Santo Óleo. Que dizer a esta alma santa e cheia de zelo apostólico que conseguiu não sei como o Santo Crisma e agora vinha tão ingenuamente pedir mais para continuar a crismar?

  Eu cheguei a encontrar em Santa Ana do Caxito por volta dos anos ’70, várias senhoras (quase) completamente nuas a besuntar-se com azeite de oliveira, entre nós chamado azeite doce, num ritual exotérico completamente obnóxio. Em Calumbo e na Muxima nunca vi nada semelhante, mas não posso afirmar que não o haja. Junto da Catedral de Viana, no terreno adjacente, este ano 2011, encontrei uma mamã a vender óleo de Crisma. Acho que não era isso mesmo, mas sim uma garrafinha pequena de azeite que ela trouxera da Muxima e que interpretava ser Crisma e estava a vender como terapia para algumas doenças e problemas como a esterilidade feminina e a impotência masculina.


  IV - O ensino como actividade permanente de todos os agentes de pastoral


  É hora de explicamos ao nosso povo a doutrina da Igreja acerca dos Sacramentos e dos Sacramentais e não vale a pena ignorar o que se passa como o avestruz. Convém dar uma boa explicação do significado do óleo dos Catecúmenos e do Santo Crisma e não permitir o acesso à posse dos Santos Óleos que devem estar guardados na Catedral à custódia do Bispo diocesano para serem distribuídos aos Párocos (CDC c. 847 § 2) para a administração dos Sacramentos exclusivamente.
  Nada impede que se restaure o uso da água benta à entrada das nossas igrejas depois de uma boa catequese às comunidades. Com todo o respeito pela simplicidade e religiosidade do nosso povo devemos instruí-lo para que saiba dar o justo valor à matéria dos Sacramentos sem fazer dela uso impróprio e despropositado pois as coisas santas não se podem profanar.

  A água benta deve ser objecto de uma boa explicação ao povo de Deus. Para a aspersão com água benta não é necessário utilizar depósitos ou baldes de muitos litros de água. Trata-se de um símbolo. Se o sacerdote asperge o povo a partir do altar ou se, como na Vigília da Páscoa, desce à Assembleia e a percorre aspergindo-a, não é necessário nem imperativo que se derrame água sobre todas as cabeças pois o que importa é o símbolo que expressa a graça de Deus. É como o Santo Crisma com que se unge a fronte dos crismandos. Não é preciso que o óleo escorra sobre a cara do crismando como sobre a barba de Aarão (Sl 133,2).
  Os nossos santuários não devem disponibilizar óleo para ninguém e a água benta deve ser posta à disposição com muito critério e em recipientes muito pequenos que sirvam para a persignação apenas segundo os legítimos usos e costumes e as determinações da Igreja.

  Permitir o obscurantismo ou favorecê-lo pelo silêncio hierárquico não é bom e está em desacordo com a Tradição autêntica da Igreja. Um dos múnus episcopais de que os sacerdotes participam em união com o seu Bispo é o de ensinar. Jesus Cristo, o nosso modelo, o único verdadeiro Pastor das nossas almas, realizou a sua obra salvadora segundo os Evangelhos numa tríplice actividade bem identificada pelos três verbos: kerýssein (anunciar), therapeúein (curar), didáskhein (ensinar). Durante a vida pública de Jesus, o ensino torna-se um dos aspectos essenciais da sua actividade: ensina e prega na sinagoga (Mt 4,23 e par; 9,35; 11,1; Jo 6,59), no templo (Mt 21,23 e par; Jo 7,14), por ocasião das festas (Jo 8,20) e também quotidianamente (Mt 26,55; Lc 19,47). Além disso, anuncia o Reino e cura todas as doenças entre o povo (Mt 4,23). O seu ensino é reconhecido como diferente do dos doutores da Lei porque se apresenta como intérprete autorizado da mesma que leva à perfeição, age como profeta, ensina com uma autoridade especial (Mt 13,54 e par), a sua doutrina tem aspectos completamente novos que enchem de admiração os ouvintes (Mc 1,27; 11,18).

  Todos os agentes de pastoral da Diocese de Viana são chamados a uma leitura atenta desta nossa carta que lhes é particularmente dirigida e que deve servir de ponto de partida para uma reflexão diocesana comum a fim de que em toda a diocese e de modo especial nos Santuários da Muxima e de Calumbo se comece a operar uma mudança radical no uso da água benta porque quanto ao óleo não faz sentido o seu uso fora dos Sacramentos. Para isso faça-se em todas comunidades uma catequese intensiva sobre os Sacramentos e os Sacramentais de modo que, respeitando a fé do nosso Povo e a sua religiosidade ancestral não se permitam abusos na utilização indevida e despropositada dos símbolos mais sagrados da nossa santa Religião.

Implorando as bênçãos da Mamã Muxima e de S. José, com a protecção do nosso padroeiro S. Francisco de Assis, a todos os nossos diocesanos enviamos uma especial bênção apostólica no Senhor,



                                                           Viana, 01 de Janeiro de 2012
                                                          
Solenidade de S. Maria Mãe de Deus

+ Frei Joaquim Ferreira Lopes, OfmCap
                                              
Bispo de Viana 


[1] Cf. Paul Joüon, Grammaire de l’hébreu biblique, PIB, Roma (1996) 416
[2] Johannes Botterweck, Helmer Ringgren, Heinz-Joseph Fabry, Theological Dictionary of the Old Testament, Vol VIII, Grand Rapids 1997, 265-288. Note-se que em hebraico “mê” é o estado constructo plural de “mayim”.
[3] Lembrar o antigo hino de Laudes: “... qui ex aquis ortum genus”.
[4] Xavier Leon Dufour, Dizionario di Teologia Biblic, Marietti, 1998, 7-12
[5] Herculano Alves, Símbolos na Bíblia, Difusora Bíblica, Lisboa 2006
[6] Xavier Leon Dufour, ob. cit., 797-799 ;  Símbolos na Bíblia, ob. cit., 255-261
[7] Xavier Leon Dufour, ob cit., 797-799
[8] Herculano Alves, Símbolos na Bíblia, ob. cit., 255-262