Pasárgada

…Cheguei no momento da criação do mundo e resolvi não existir. Cheguei ao zero-espaço, ao nada-tempo, ao eu coincidente com vós-tudo, e conclui: No meio do nevoeiro é preciso conduzir o barco devagar.


Serei o que fui, logo que deixe de ser o que sou; porque quando fui forçado a ser o que sou, foi porque era o que fui.

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sexta-feira, 6 de janeiro de 2012



A VILOLÊNCIA NO BRASIL[1]
Conceito
A violência como um ato de opressão e do abuso da força, que se manifesta num constrangimento exercido sobre alguma pessoa para obrigá-la a fazer algo contra sua vontade, em virtude da força, ímpeto e brutalidade do injusto agressor, é um comportamento deliberado que pode causar danos materiais, sociais, económicos, físicos, psíquicos… ao próximo.
É importante ter em conta que, além da agressão física, a violência pode ser emocional através de ofensas ou ameaças. Como tal, a violência pode causar tanto sequelas físicas como psicológicas.
Através da violência procura-se impôr ou obter algo pela força. Existem muitas formas de violência que são castigadas como delitos por lei. Em todo o caso, é importante ter em conta que o conceito de violência varia consoante a cultura e a época.
Três níveis geradores do processo de produção e reprodução da violência
➢ Estrutural – relação com as instituições sociais, geográficas, políticas… (ambiente)
➢ Socio-psicológico –aprendizado a partir de fenómenos sociais, psicológicos, intelectuais, ambientais…..
➢ Individual – Estatus sócio-económico, formação moral, formação religiosa, desejos e ambições pessoais, realizações e frustrações….

Dimensões de produção da violência que envolve a juventude:
➢ Cultura da violência
➢ Violência familiar
➢ Falta de perspectivas de integração social (pertencimento social)
➢ Estado ausente
➢ Ofertas do mundo do tráfico
➢ Uso de drogas
➢ Acesso a armas de fogo
➢ Status – auto estima – visibilidade social
1        – Constatação
a)               Trezentos milhões de reais por dia é o custo estimado da violência no Brasil, o equivalente ao orçamento anual do Fundo Nacional de Segurança Pública. Esses valores não contabilizam o sofrimento físico e psicológico das vítimas da violência brasileira, uma das mais dramáticas do mundo. Com 3% da população mundial o Brasil concentra 9%[2] dos homicídios cometidos no planeta[3].
Isto significa dizer: O Brasil que corresponde a 1,97% da totalidade dos países do mundo, é 5 vezes mais homicida relativamente à base equitativa (2%) corespondente a qualquer outro país do mundo.
Os homicídios cresceram 29% na década passada e entre os jovens esse crescimento foi de 48%.
No Estado do MS, situado na 2ª faixa da maior violência do País, de 78 Municípios, 23 (33% dos municípios do Estado) figuram na lista dos mais violentos do Estado e, destes, Sete Quedas (imediatamente atrás de Coronel Sapucaia) na lista dos 2 Municípios mais violentos do Estado (de MS)[4].
Esse ponto de situação que revela a impotência de nosso sistema de controle criminal, relativamente à contenção e prevenção da violência, é revelador da necessidade de uma profunda reforma no sistema de prevenção criminal. E não apenas isso, é necessário também que as causas da violência sejam adequadamente tratadas. Sem isso não vejo viabilidade de alteração significativa no serviço de segurança pública.
b) Alguns indicadores mostram a precariedade dos sistemas de contenção da violência. Cerca de 2.000 roubos ocorrem diariamente na Grande São Paulo e em menos de 3% os assaltantes são presos no momento do crime. Se mesmo assim há um explosivo crescimento de nossa população carcerária é porque não basta prender. As estratégias reativas da polícia e os métodos obsoletos de investigação não estão conseguindo conter significativamente o grande volume de crimes. No Rio de Janeiro, apenas 1% dos homicídios chega a ser esclarecido pelos trabalhos de investigação, segundo revelação do Ministério Público. Se essa "eficiência" da polícia e da justiça for dobrada, a um custo impagável, o volume de crimes mal será afetado.
2 - CAUSAS DA VIOLÊNCIA
A violência, em seus mais variados contornos, é um fenômeno histórico na constituição da sociedade brasileira. A escravidão (primeiro com os índios e depois, e especialmente, com a mão de obra africana), a colonização mercantilista, o coronelismo, as oligarquias antes e depois da independência, somados a um Estado caracterizado pelo autoritarismo burocrático, contribuíram enormemente para o aumento da violência que atravessa a história do Brasil.
Diversos fatores colaboram para aumentar a violência, tais como a urbanização acelerada, que traz um grande fluxo de pessoas para as áreas urbanas e assim contribui para um crescimento desordenado e desorganizado das cidades. Colaboram também para o aumento da violência as fortes aspirações de consumo, em parte frustradas pelas dificuldades de inserção no mercado de trabalho.
Por outro lado, o poder público, especialmente no Brasil, tem se mostrado incapaz de enfrentar essa calamidade social. Pior que tudo isso é constatar que a violência existe com a conivência de grupos das polícias, representantes do Legislativo de todos os níveis e, inclusive, de autoridades do poder judiciário. A corrupção, uma das piores chagas brasileiras, está associada à violência, uma aumentando a outra, faces da mesma moeda.
As causas da violência são associadas, em parte, a problemas sociais como miséria, fome, desemprego. Mas nem todos os tipos de criminalidade derivam das condições econômicas. Além disso, um Estado ineficiente e sem programas de políticas públicas de segurança, contribui para aumentar a sensação de injustiça e impunidade, que é, talvez, a principal causa da violência.
Entres as principais causas da violência no pais, podemos citar:
• As múltiplas carências das populações de baixa renda, precariamente assistidas nas periferias das grandes cidades, tornam seus integrantes, especialmente os jovens, suscetíveis de escolha de vias (alternativas) ilegais como forma de sobrevivência ou adaptação às pressões sociais.
• A opção ilegal é favorecida pela tolerância cultural aos desvios sociais e pelas deficiências de nossas instituições de controle social: polícia ineficiente, legislação criminal defasada (o que gera impunidade), estrutura e processos judiciários obsoletos, sistema prisional caótico. A interação entre essas deficiências institucionais enfraquece sobremaneira o poder inibitório do sistema de justiça criminal.
• De maneira geral as polícias têm treinamento deficiente (em relação ao tipo de violência que devem enfrentar), salários incompatíveis com a importância de suas funções e padecem de grave vulnerabilidade à corrupção. A ineficiência da ação policial na contenção dos crimes, assim como o excessivo número de mortes de civis e de policiais, decorre dessas deficiências e do emprego de estratégias policiais meramente reativas e freqüentemente repressivas.
• O emprego de tecnologia de informação ainda é incipiente, dificultando o diagnóstico e o planejamento operacional eficiente para a redução de pontos de criminalidade. Nesse planejamento são precárias as iniciativas de integração entre os esforços policiais e as autoridades locais para promover esforços conjuntos de prevenção e redução dos índices de violência.
3 - POSSÍVEIS MEDIDAS CONTRA A VIOLÊNCIA
a) Realização de projetos sociais com intuito de diminuir a desigualdade social. Abrindo outros caminhos, além dos caminhos criminosos que fomentam a violência, à população de baixa renda (principalmente aos jovens).
b) Desenvolver pesquisas sobre o controle da violência e promover o desenvolvimento de modelos de organização, de gestão e de processos mais eficientes e eficazes para as polícias. Fazer planejamento e coordenação de programas de formação e capacitação das polícias, em, coordenação com a Direção da Academia Nacional de Polícia.
c) Inteligência criminal: desenvolvimento dessa área praticamente inerte na maioria das polícias, com a adoção de métodos, processos e instrumentos de busca e processamento de informação sobre criminosos. O sistema de inteligência de segurança pública deve ser plenamente implantado em todos os Estados para a troca ágil e segura de informações sobre atividades de indivíduos e grupos criminosos. O tratamento intensivo e contínuo das atividades do crime organizado deve receber particular ênfase, principalmente sobre o tráfico de drogas, contrabando, pirataria, roubo de cargas, furto e roubo de veículos, jogos ilícitos e crimes financeiros. Nessa área devem ser exploradas todas as possibilidades de integração com os serviços de inteligência da Polícia Federal.
d) Cadastros nacionais: o atual Sistema de Informação de Justiça e Segurança Pública (INFOSEG) deve ser aperfeiçoado para receber dados atualizados e de qualidade dos Estados quanto a condenados procurados, cadastro de armas e veículos, pessoas desaparecidas, arquivos de fotos dos principais criminosos de cada unidade federativa e dados relevantes de inteligência. O INFOSEG deve integrar arquivos semelhantes existentes na Polícia Federal.
e) Quanto àTecnologia da informação: (isto é) o desenvolvimento de bancos integrados de dados criminais e sociais, a implantação de sistemas de geo-referenciamento e de sistemas de análise dos dados para identificar perfis criminais, padrões e tendências de cada área, pontos críticos e evidências de atuação de indivíduos e grupos criminosos. - Devem ser desenvolvidos instrumentos e métodos para o monitoramento de crimes e planejamento de intervenções focalizadas para sua redução em curto prazo. Esses instrumentos e métodos também podem favorecer, através da análise ambiental dos pontos críticos de criminalidade, a integração com outros esforços de prevenção como a participação de guardas municipais e ações das prefeituras na correção de problemas locais que favorecem a ação criminosa.
CONCLUSÃO
A violência no Brasil atingiu índices inaceitáveis e a grande dificuldade em se pôr um fim a esse mal é a multiplicidade e grandeza de suas causas. O que existe é um ciclo vicioso: Condição enconômica do país -> Desigualdade social -> Crimes -> Violência -> Polícia ineficiente (condição econômica do pais). Tratar problemas como este exige total participação da sociedade e empenho singular dos órgãos adiministrativos.
Em um Estado democrático, a repressão controlada e a polícia têm um papel crucial no controle da criminalidade. Porém, essa repressão controlada deve ser simultaneamente apoiada e vigiada pela sociedade civil.
A solução para a questão da violência no Brasil envolve os mais diversos setores da sociedade, não só a segurança pública e um judiciário eficiente, mas também demanda com urgência, profundidade e extensão a melhoria do sistema educacional, saúde, habitacional, oportunidades de emprego, dentre outros fatores. Requer principalmente uma grande mudança nas políticas públicas e uma participação maior da sociedade nas discussões e soluções desse problema de abrangência nacional.

Sete Quedas-MS, 30 de Novembro de 2011
Kaquinda Dias



[1] Palestra proferida na “Audiência do CONSEP (Conselho Municipal de Segurança Pública do Município de Sete Quedas - MS)” sob o tem “Socie dade e Reprodução da Violência”.
[2] O Brasil que corresponde a 1,97% da totalidade dos países do mundo, é 5 vezes mais homicida do que a base equitativa (2%) corespondente a qualquer outro país do mundo.
[3] Considerando que o Mundo tem 197 países (na lista geral - incluindo o último país africano criado em 2011 – Sudão do Sul); 195 (reconhecidos pelos EUA – Departamento de estado); 193 (membros da ONU);.
[4] Cfr A Dinâmica da violência dos Municípios brasileiros, in Confederação Nacional dos Municípios.

domingo, 1 de janeiro de 2012

Vida de Família

A VIDA DE FAMÍLIA - Crises
Ao celebrarmos a Festa da Sagrada família, fico com muita preocupação em relação ao costume que se está criando em muitas famílias da nossa sociedade atual. Refiro-me às estratégias que se adotam para se lidar com as crises típicas do matrimónio. Parece que alguns casais diante de certas situações não se lembram mais que até o matrimónio mais feliz está sujeito a crises, que precisam ser vistas como um fenômeno de crescimento do amor conjugal e não como razão para a separação. Um matrimónio cujos cônjuges jamais discordam até pode ser preocupante. Será que eles são iguais em tudo ou uma das partes está se sobrepondo à outra, e que a outra por sua vez não se revela ao outro com sinceridade? Penso que dependendo de como será vivida, cada crise, mesmo a mais penosa, pode levar ao aprofundamento do amor, à renovação da convivência entre os esposos e ao fortalecimento cada vez maior do matrimónio.
Por livre vontade
Antes de tudo, talvez seja preciso compreendermos que o matrimónio não é “questão de sorte”, como alguns costumam dizer. Ele é fruto de uma escolha livre que cada um fez. É verdade que há esposos que se escolheram apressadamente e por razões pouco consistentes, mas nunca podemos esquecer que, através do Sacramento do Matrimónio, Deus concede aos esposos uma graça que ratifica esta escolha e “aumenta” a semente da afeição que um dia tiveram um pelo outro. Esta semente, que os moveu a subir ao altar, pode, pela graça de Deus, desabrochar e crescer como uma grande árvore cheia de frutos e frondosos galhos, capazes de fazer sombra e “abrigar toda espécie de pássaros” (Mt 13,32).
Esta livre escolha não é uma “cruz” para se carregar pela vida como um “fardo”. A cruz do matrimónio vem de fora, do ambiente. O companheiro, esposo ou esposa jamais deveria ser considerado como “minha cruz”. A cruz pode ter suas causas no comportamento do outro, mas não se identifica com ele. O outro é uma bênção, um presente de Deus na vida do cônjuge; o outro é um mistério, um desafio, o instrumento que se precisa para se chegar a Deus, que é “felicidade suprema”!
Por isso, nos momentos de crise de nada adiantam as agressões, as lamentações ou outras manifestações desagradáveis. Como também de nada adianta culpar a famosa “incompatibilidade de gênios”, pois não é fácil encontrarmos pessoas absolutamente iguais. Ao contrário de afastar, toda a diferença pode ser ajustada, ao ponto de nos fazer funcionar como rodas dentadas de uma máquina, cuja força consiste justamente em se ajustarem nos pontos desiguais. Se o casal se propuser a lutar e conseguir isto, viverá um amor vitorioso sobre qualquer espécie de dificuldade e crise e suas consequências, experimentará concretamente no matrimónio a vitória de Cristo, e a verdadeira paz será alcançada.
A novidade
Um longo matrimónio pode vir a atravessar muitas crises. Uma delas é a crise na adaptação física e/ou psicológica, que pode surgir no início do matrimónio e ser superada, entretanto pode ser camuflada durante anos, até que um dia expluda tragicamente. Cada um dos esposos traz para o matrimónio modelos às vezes muito fortes das relações entre os pais, de sonhos que por muito tempo alimentaram sua imaginação, mas que não correspondem à realidade. Pretender adaptar o outro a seus modelos ou ressentir-se com ele por isto é grande prova de imaturidade, e razão suficiente para orar sobre si mesmo ministrando a Palavra de Deus que diz: “Esta é, realmente, osso dos meus ossos e carne da minha carne!... (Gn 2,23). Por isso o homem deixa seu pai e sua mãe para ligar-se à sua mulher, e se tornam uma só carne (Mc 10,7)”. A tua realidade é esta, o teu matrimónio, a família que escolheste. Deixe que a “ficha caia”.
Por exemplo, as crises financeiras, pelas quais passam os cônjuges, podem afetar seriamente a relação conjugal, se estes não buscarem em Deus a graça para resistir às suas consequências, e conservar a unidade. Neste momento, podem surgir acusações, sentimentos de inferioridade ou superioridade, e a falta do dinheiro pode se tornar o “bode expiatório” de ressentimentos antigos ou da preguiça de dialogar.
Às vezes pensamos que a infidelidade começa quando um dos parceiros se entrega a uma “paixão”, mas ela pode começar bem antes, no coração, quando se começa a se fechar-se em si mesmo, analisando os erros um do outro e desnudando-o diante de terceiros. De nada adianta tal atitude que, além de “envenenar” o relacionamento, pode colocar a pessoa na mão de falsos conselheiros, que infelizmente se alimentam e até se alegram em aumentar a divisão entre os dois.
É claro que existem também aqueles que têm boa vontade em ajudar, mas não conseguem ver que neste tipo de confidências apenas um dos dois teve o direito de falar e na maioria das vezes trará somente suas “razões”, pois não consegue ver as do outro. Ocorre-me um trecho do Evangelho que nesse momento se encaixa com perfeição para prevenir os arranhões diários que podem minar o amor dos esposos: “Por que reparas o cisco que há no olho do irmão, e não vês a trave que está no teu?” (Mt 7,3). Hoje a grande maioria dos profissionais em aconselhamento orientam à sondagem do interior – “em tudo tenha sempre dúvidas sobre as tuas certezas. Perante as razões alheias, ponha sempre em causa as tuas próprias convicções”. Por isso a solução definitiva deveria ser sempre fruto do diálogo entre os dois. Estes deveriam sempre remeter-se às verdadeiras motivações que os levaram à constituição dessa família.
Outra crise bem séria é a do envelhecimento das relações, a famosa “perda da novidade”, que pode acabar em infidelidade. Esquecidos de que todo ser humano será sempre um mistério e uma novidade, um ou ambos podem projetar seu próprio tédio interior no rosto do outro, e achar que vão reencontrar a alegria numa outra companhia. Não raro, depois de algum tempo o cônjuge que buscou uma nova aventura acabará se encontrando com seu próprio cansaço, e queira Deus que ainda haja como retornar, pois já terá envolvido muitos outros na sua decisão precipitada.
Valor da fidelidade
O que leva um casal, que foi capaz de enfrentar tantos desafios juntos, a desistir num momento que deveria ser o mais feliz e tranquilo de sua relação? Este, que seria o período da colheita, o tempo mais rico e precioso da vida conjugal, transforma-se tantas vezes em motivo de descaso ou implicâncias mútuas. O medo do envelhecimento, da morte corporal também pode gerar a falsa ilusão de que uma companhia mais jovem pode lhe trazer de volta os anos “perdidos” ou retardar um tempo tão precioso que é a terceira idade. Gostaria de colocar aqui o pensamento de uma mulher que viveu bem todas as fases da sua vida e certamente estava cheia de Deus quando o externou: “Acho que as diversas etapas de nossa vida temos que vivê-las alegremente na graça do Senhor. A velhice bem vivida é uma fonte de paz, já que temos passado a época de maiores trabalhos, restando-nos aguardar a vinda do Senhor para gozá-lo eternamente”.
Contudo, o trágico disso é que, seja qual for o motivo da crise, tem ficado cada vez mais frequente a idéia de que o divórcio é a única solução para o problema, de modo que cada um possa “ir para o seu lado” (o que eu chamo de ‘chutá-lo para fora da casa’) como quem desfaz um acordo de negócios.
É claro que quando a violência física, psicológica ou moral torna um dos cônjuges um perigo para a saúde do outro e dos filhos, a separação pode ser um meio de preservá-los, mas nunca podemos esquecer que ela é incapaz de gerar a quebra do vínculo matrimonial, pois o divórcio civil de nada adianta no plano religioso. Como também ela não cura as causas da crise. Portanto se alguém está errado (mesmo separando) ele continuará no mesmo erro e (com separação) pode piorar ainda mais. Espiritualmente, ainda são responsáveis um pelo outro até o dia da sua morte. E mesmo que o outro já não esteja disposto a uma reconciliação, será sempre digno do seu perdão, do seu respeito, das suas orações, porque Jesus mereceu isto por ele na Cruz.
Por isso, ao invés de desistir no meio da luta, vale a pena perseverar até o fim, ou, se por acaso ocorreu a separação, orar e esperar com paciência, pois ainda pode ser que um dia Deus lhes conceda a graça de “casar pela segunda vez” com a mesma pessoa, o que será um gesto humano extraordinário. Este segundo casamento, obviamente não consiste nem requer repetição do rito matrimonial, nem o relacionamento do casal será repetitivo (como se faz com o casamento civil), porque um homem e uma mulher renovados estão ali, ainda mais lúcidos do que antes, dispostos a retomar sua unidade. Mas seu “novo casamento” se beneficiará da experiência adquirida antes para que o amor seja retomado onde houve a ruptura.
O sacramento do Matrimónio traz consigo o remédio certo para este amor que deve crescer sempre: A oração e a Eucaristia, que trazem o Cristo vivo para dentro deles, renovando estas graças e multiplicando-as dia após dia. Que Jesus, nossa paz, renove ainda hoje em sua casa o amor familiar onde este necessitar ser renovado.
Que a Sagrada família proteja os casais de nossas comunidades.
Kaquinda Dias

Vida de Família

A VIDA DE FAMÍLIA - Crises
Ao celebrarmos a Festa da Sagrada família, fico com muita preocupação em relação ao costume que se está criando em muitas famílias da nossa sociedade atual. Refiro-me às estratégias que se adotam para se lidar com as crises típicas do matrimónio. Parece que alguns casais diante de certas situações não se lembram mais que até o matrimónio mais feliz está sujeito a crises, que precisam ser vistas como um fenômeno de crescimento do amor conjugal e não como razão para a separação. Um matrimónio cujos cônjuges jamais discordam até pode ser preocupante. Será que eles são iguais em tudo ou uma das partes está se sobrepondo à outra, e que a outra por sua vez não se revela ao outro com sinceridade? Penso que dependendo de como será vivida, cada crise, mesmo a mais penosa, pode levar ao aprofundamento do amor, à renovação da convivência entre os esposos e ao fortalecimento cada vez maior do matrimónio.
Por livre vontade
Antes de tudo, talvez seja preciso compreendermos que o matrimónio não é “questão de sorte”, como alguns costumam dizer. Ele é fruto de uma escolha livre que cada um fez. É verdade que há esposos que se escolheram apressadamente e por razões pouco consistentes, mas nunca podemos esquecer que, através do Sacramento do Matrimónio, Deus concede aos esposos uma graça que ratifica esta escolha e “aumenta” a semente da afeição que um dia tiveram um pelo outro. Esta semente, que os moveu a subir ao altar, pode, pela graça de Deus, desabrochar e crescer como uma grande árvore cheia de frutos e frondosos galhos, capazes de fazer sombra e “abrigar toda espécie de pássaros” (Mt 13,32).
Esta livre escolha não é uma “cruz” para se carregar pela vida como um “fardo”. A cruz do matrimónio vem de fora, do ambiente. O companheiro, esposo ou esposa jamais deveria ser considerado como “minha cruz”. A cruz pode ter suas causas no comportamento do outro, mas não se identifica com ele. O outro é uma bênção, um presente de Deus na vida do cônjuge; o outro é um mistério, um desafio, o instrumento que se precisa para se chegar a Deus, que é “felicidade suprema”!
Por isso, nos momentos de crise de nada adiantam as agressões, as lamentações ou outras manifestações desagradáveis. Como também de nada adianta culpar a famosa “incompatibilidade de gênios”, pois não é fácil encontrarmos pessoas absolutamente iguais. Ao contrário de afastar, toda a diferença pode ser ajustada, ao ponto de nos fazer funcionar como rodas dentadas de uma máquina, cuja força consiste justamente em se ajustarem nos pontos desiguais. Se o casal se propuser a lutar e conseguir isto, viverá um amor vitorioso sobre qualquer espécie de dificuldade e crise e suas consequências, experimentará concretamente no matrimónio a vitória de Cristo, e a verdadeira paz será alcançada.
A novidade
Um longo matrimónio pode vir a atravessar muitas crises. Uma delas é a crise na adaptação física e/ou psicológica, que pode surgir no início do matrimónio e ser superada, entretanto pode ser camuflada durante anos, até que um dia expluda tragicamente. Cada um dos esposos traz para o matrimónio modelos às vezes muito fortes das relações entre os pais, de sonhos que por muito tempo alimentaram sua imaginação, mas que não correspondem à realidade. Pretender adaptar o outro a seus modelos ou ressentir-se com ele por isto é grande prova de imaturidade, e razão suficiente para orar sobre si mesmo ministrando a Palavra de Deus que diz: “Esta é, realmente, osso dos meus ossos e carne da minha carne!... (Gn 2,23). Por isso o homem deixa seu pai e sua mãe para ligar-se à sua mulher, e se tornam uma só carne (Mc 10,7)”. A tua realidade é esta, o teu matrimónio, a família que escolheste. Deixe que a “ficha caia”.
Por exemplo, as crises financeiras, pelas quais passam os cônjuges, podem afetar seriamente a relação conjugal, se estes não buscarem em Deus a graça para resistir às suas consequências, e conservar a unidade. Neste momento, podem surgir acusações, sentimentos de inferioridade ou superioridade, e a falta do dinheiro pode se tornar o “bode expiatório” de ressentimentos antigos ou da preguiça de dialogar.
Às vezes pensamos que a infidelidade começa quando um dos parceiros se entrega a uma “paixão”, mas ela pode começar bem antes, no coração, quando se começa a se fechar-se em si mesmo, analisando os erros um do outro e desnudando-o diante de terceiros. De nada adianta tal atitude que, além de “envenenar” o relacionamento, pode colocar a pessoa na mão de falsos conselheiros, que infelizmente se alimentam e até se alegram em aumentar a divisão entre os dois.
É claro que existem também aqueles que têm boa vontade em ajudar, mas não conseguem ver que neste tipo de confidências apenas um dos dois teve o direito de falar e na maioria das vezes trará somente suas “razões”, pois não consegue ver as do outro. Ocorre-me um trecho do Evangelho que nesse momento se encaixa com perfeição para prevenir os arranhões diários que podem minar o amor dos esposos: “Por que reparas o cisco que há no olho do irmão, e não vês a trave que está no teu?” (Mt 7,3). Hoje a grande maioria dos profissionais em aconselhamento orientam à sondagem do interior – “em tudo tenha sempre dúvidas sobre as tuas certezas. Perante as razões alheias, ponha sempre em causa as tuas próprias convicções”. Por isso a solução definitiva deveria ser sempre fruto do diálogo entre os dois. Estes deveriam sempre remeter-se às verdadeiras motivações que os levaram à constituição dessa família.
Outra crise bem séria é a do envelhecimento das relações, a famosa “perda da novidade”, que pode acabar em infidelidade. Esquecidos de que todo ser humano será sempre um mistério e uma novidade, um ou ambos podem projetar seu próprio tédio interior no rosto do outro, e achar que vão reencontrar a alegria numa outra companhia. Não raro, depois de algum tempo o cônjuge que buscou uma nova aventura acabará se encontrando com seu próprio cansaço, e queira Deus que ainda haja como retornar, pois já terá envolvido muitos outros na sua decisão precipitada.
Valor da fidelidade
O que leva um casal, que foi capaz de enfrentar tantos desafios juntos, a desistir num momento que deveria ser o mais feliz e tranquilo de sua relação? Este, que seria o período da colheita, o tempo mais rico e precioso da vida conjugal, transforma-se tantas vezes em motivo de descaso ou implicâncias mútuas. O medo do envelhecimento, da morte corporal também pode gerar a falsa ilusão de que uma companhia mais jovem pode lhe trazer de volta os anos “perdidos” ou retardar um tempo tão precioso que é a terceira idade. Gostaria de colocar aqui o pensamento de uma mulher que viveu bem todas as fases da sua vida e certamente estava cheia de Deus quando o externou: “Acho que as diversas etapas de nossa vida temos que vivê-las alegremente na graça do Senhor. A velhice bem vivida é uma fonte de paz, já que temos passado a época de maiores trabalhos, restando-nos aguardar a vinda do Senhor para gozá-lo eternamente”.
Contudo, o trágico disso é que, seja qual for o motivo da crise, tem ficado cada vez mais frequente a idéia de que o divórcio é a única solução para o problema, de modo que cada um possa “ir para o seu lado” (o que eu chamo de ‘chutá-lo para fora da casa’) como quem desfaz um acordo de negócios.
É claro que quando a violência física, psicológica ou moral torna um dos cônjuges um perigo para a saúde do outro e dos filhos, a separação pode ser um meio de preservá-los, mas nunca podemos esquecer que ela é incapaz de gerar a quebra do vínculo matrimonial, pois o divórcio civil de nada adianta no plano religioso. Como também ela não cura as causas da crise. Portanto se alguém está errado (mesmo separando) ele continuará no mesmo erro e (com separação) pode piorar ainda mais. Espiritualmente, ainda são responsáveis um pelo outro até o dia da sua morte. E mesmo que o outro já não esteja disposto a uma reconciliação, será sempre digno do seu perdão, do seu respeito, das suas orações, porque Jesus mereceu isto por ele na Cruz.
Por isso, ao invés de desistir no meio da luta, vale a pena perseverar até o fim, ou, se por acaso ocorreu a separação, orar e esperar com paciência, pois ainda pode ser que um dia Deus lhes conceda a graça de “casar pela segunda vez” com a mesma pessoa, o que será um gesto humano extraordinário. Este segundo casamento, obviamente não consiste nem requer repetição do rito matrimonial, nem o relacionamento do casal será repetitivo (como se faz com o casamento civil), porque um homem e uma mulher renovados estão ali, ainda mais lúcidos do que antes, dispostos a retomar sua unidade. Mas seu “novo casamento” se beneficiará da experiência adquirida antes para que o amor seja retomado onde houve a ruptura.
O sacramento do Matrimónio traz consigo o remédio certo para este amor que deve crescer sempre: A oração e a Eucaristia, que trazem o Cristo vivo para dentro deles, renovando estas graças e multiplicando-as dia após dia. Que Jesus, nossa paz, renove ainda hoje em sua casa o amor familiar onde este necessitar ser renovado.
Que a Sagrada família proteja os casais de nossas comunidades.
Kaquinda Dias